A Epifania – O dia em que os cariocas pararam de consumir drogas, texto ficcional de João Ximenes Braga

Locutor: Bem-vindos à primeira edição do “World in motion” de 2010. Neve lá fora? Se agora você estivesse do outro lado do mundo, no Rio de Janeiro, poderia estar tomando sol e caipirinhas na praia… E talvez sendo assassinado. Sim, pessoal, blame it on Rio. Vocês devem se lembrar que há exatamente um ano, aquela aprazível cidade brasileira passou por um fenômeno social único, que os próprios cariocas passaram a chamar de “A Epifania”. No dia 1º de janeiro de 2009, todos os moradores pararam de consumir drogas ilegais, e a cidade que até então parecia dominada por traficantes se viu, de repente, sem demanda, sem consumo, sem tráfico. Sociólogos, psicólogos, teólogos e todo tipo de expert já tentaram analisar esse fenômeno do inconsciente coletivo local, sem sucesso.

Para tentar jogar alguma luz sobre a utopia carioca que virou realidade, vamos conversar por telefone com José da Silva, direto do Rio de Janeiro. A profissão de José é um tanto quanto difícil de traduzir, ele se apresenta como “pensador de botequim”, mas enfim…

P: Sr. da Silva, como está a situação no Rio um ano depois daquilo que se convencionou chamar de “A Epifania”?

R: De mal a pior. Os índices de latrocínio, seqüestro e invasão a domicílio aumentaram terrivelmente. E há anos tínhamos certeza de que a barreira do insuportável já havia sido rompida.

P: O Sr. pode explicar para os nossos ouvintes o que foi “A Epifania”?

R: Nem Jung explica.

Simplesmente aconteceu. Ao longo dos anos 2000, nossos governantes começaram a fazer divulgação maciça de um truísmo simples, depois enfatizado por alguns filmes de sucesso: o usuário de drogas sustenta o tráfico. Óbvio, não? É claro e incontestável que não existe oferta sem demanda, que o dinheiro do usuário de classe média ia para as mãos do traficante, e assim sustentava uma vasta rede de crime desorganizado e violento. Desse truísmo surgiu o silogismo: o usuário de drogas da classe média é responsável pela violência urbana no Rio de Janeiro.

A princípio esse silogismo parecia irrelevante, pois apontava como solução uma utopia irrealizável : uma sociedade sem drogas, coisa que não existia em nenhum lugar do mundo. Mas não é que aconteceu? De repente, todo carioca parou de comprar e consumir qualquer droga ilegal.

Nem mais uma trouxinha de maconha, nem mais um grama de cocaína foi vendido no Rio, um caso único na História da humanidade. Apenas fanáticos se satisfizeram com explicações religiosas, fora isso, ninguém conseguiu até hoje entender esse fenômeno. Não é uma explicação, mas a única conclusão possível é que esse silogismo foi tão repetido que todo mundo passou a acreditar nele, por mais manco que fosse desde o início.

P: Mas não era verdade que o consumidor financiava o tráfico e que este promovia a violência?

R: Claro que era. Mas no Rio de Janeiro não se consumia mais cocaína e afins que em Nova York, ou qualquer outra grande cidade.

Então por que aqui a violência ligada ao tráfico era maior, mais acintosa, mais espetacular que em qualquer outro lugar do mundo, a não ser, talvez, a Colômbia? A lógica internacional do traficante é ser o mais discreto possível, pois quanto menos atenção chamar para o comércio ilegal, mais fácil para ele prosseguir com seu negócio e obter lucros.

Por que aqui não era assim? Porque havia outros fatores em jogo, mas não se falava deles, só do tal silogismo, atendendo a outros interesses?

P: “ Outros interesses”? Vem aí alguma teoria conspiratória?

R: Não, não, os interesses eram claros como água. O silogismo foi difundido por governantes populistas.

Jogando a culpa para o consumidor da classe média, eles desviavam a atenção de si mesmos. Décadas de inação, incompetência e corrupção em progressão geométrica criaram uma situação explosiva no Rio de Janeiro. Um profundo abismo social, em que o Estado simplesmente deixou de cumprir suas obrigações básicas de fornecer justiça, educação, saúde e segurança a grande parte da população, que convivia a poucos passos das elites. Dizer que a responsabilidade pela violência urbana era do consumidor de drogas foi a forma mais simples que estes governantezinhos encontraram para desviar atenção do óbvio: os principais responsáveis eram eles próprios, que não cumpriram com as obrigações constitucionais dos cargos para que foram eleitos.

P: Se esses interesses eram tão claros, por que a população se deixou convencer?

R: Provavelmente porque o silogismo foi ao encontro da mentalidade escravocrata das classes média e alta do Rio e do Brasil como um todo. Havia uma expectativa de que, sem a demanda, todas as pessoas que até então viviam do tráfico iriam magicamente aceitar as condições da miséria. O brasileiro de classe média no fundo ainda acredita que quem não entra no mercado formal de trabalho não o faz porque não quer, acha que o pobre tem que se conformar, saber o seu lugar. Só que essa parte da utopia não se cumpriu.

Acabou a demanda, as drogas, o tráfico, tudo num passe de mágica. Mas não mudaram os motivos pelos quais um garoto de 12 anos criado com o esgoto a céu aberto optava pelo mundo do crime: falta de perspectiva, de educação, de infância, de tudo.

P: Acho que nos adiantamos um pouco. Pode nos contar o que aconteceu logo depois da “Epifania”?

R: Demorou um pouco para chegarem aos jornais as primeiras notícias da queda abrupta do consumo de drogas no Rio.

Quando se conseguiu dimensionar a situação, houve um êxtase generalizado de pura esperança. A venda de drogas fazia com que muito dinheiro circulasse rapidamente, dando ao crime desorganizado acesso a armamento pesado. Sem liqüidez, os traficantes não puderam renovar seu estoque de munição e tiveram que vender com prejuízo grande parte de seu arsenal. Daí parecia que a violência urbana baixaria a níveis insignificantes. Mas não foi o que aconteceu. Toda a parte da população que subsistia e/ou enriquecia através do tráfico passou a cometer outros tipos de crime. O índice de latrocínios, que já era alto, virou exponencial.

A troca do AR 15 pelo facão de cozinha não impediu que os homicídios continuassem a escalar. A violência urbana se modificou, mas não melhorou.

P: O Sr. está se concentrando nos crimes cometidos pelas camadas mais pobres da população. E os jovens de elite que caíam na criminalidade ligada ao tráfico?

R: Fora os que simplesmente migraram para o seqüestro e o latrocínio, houve os que começaram a formar organizações de vigilantes de extrema-direita. A impunidade continuou igual, o playboy rico, o pitboy, que antes vendia drogas sintéticas na praia ficou sem mercado, mas continuou se sentindo seguro para fazer o que bem lhe aprouvesse, alimentado pela impunidade e pela mesma mentalidade escravocrata de superioridade. Ele apenas redirecionou sua violência.

P: Você está sugerindo que, antes da “Epifania”, o comércio de drogas foi um fator de distribuição de renda e equilíbrio social no Rio?

R: Seria cruel demais pensar assim. O tráfico de drogas gerou tragédias sociais e individuais terríveis, ninguém o quer de volta. O que estou dizendo é que as causas da violência hoje são as mesmas de antes da “Epifania”.

Incompetência, corrupção, impunidade em todos os níveis do poder público, ausência de expectativas no mercado formal de trabalho, falência total dos sistemas, incluindo aí o de educação, de saúde, o judicial, o penitenciário. Agora ficou claro que a violência do tráfico era mais um espelho de tudo isso que o mal em si.

P: Mas uma vez que o Rio de Janeiro alcançou a utopia de ser uma cidade sem tráfico e mesmo assim a violência urbana não recrudesceu, imagino que a sociedade esteja aberta a uma discussão mais profunda sobre as razões da violência, cobrando atitudes mais sérias de seus governantes em relação à melhoria da educação e da…

R: (riso descontrolado) Cara, você não conhece o carioca.

(EcoDebate) texto ficcional de João Ximenes Braga, originalmente publicada na coluna Logo, do jornal O Globo, 06/01/2007

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