Estupro de mulheres e crianças vira arma no Quênia

O “estupro em massa”, arma usada em alguns dos conflitos dos últimos anos, começa a ocorrer no Quênia. Segundo o jornal inglês “Daily Telegraph”, centenas de mulheres e crianças, algumas de até cinco anos, foram violentadas durante os confrontos que se seguiram às eleições presidenciais. As vítimas eram quase todas da tribo do presidente Mwai Kibaki, os kikuyu. Matéria da da Ansa, em Londres, publicada pelo UOL Notícias, 04/01/2008 – 19h41

O jornal britânico se baseia em relatos provenientes dos hospitais de algumas zonas do país, segundo as quais a violência sexual foi praticada por grupos de homens em diversas zonas urbanas mais pobres, atingindo mulheres e crianças da etnia adversária.

Em um hospital do subúrbio da capital Nairóbi chamado Hurlingham, os médicos dizem que nos últimos quatro dias tiveram que cuidar de 24 mulheres e 13 garotas menores de idade violentadas. Também três crianças terminaram no pronto-socorro depois de crimes de estupro.

“Uma das crianças foi violentada por 10 homens”, afirmou Rahab Ngugi, enfermeira-chefe do hospital. “Nós achamos que essa seja somente uma pequena parte das vítimas, porque muita gente não tem meios para chegar até o hospital”.

Os relatos são confirmados por diversos órgãos e correspondentes, que ouviram falar de eventos similares em várias partes do Quênia, e não só nas zonas mais pobres de Nairobi.

Uma mulher inglesa que vive em um subúrbio residencial de Kilimani disse à imprensa britânica que viu, do terraço de sua casa, algo que parecia o estupro de uma jovem.

Enquanto uma multidão incendiava uma estação de serviços gerais e a polícia dava tiros ao ar, três homens teriam abusado da garota, com idade por volta dos 20 anos.

“Ela implorava, em swahili, dizendo ‘por favor, por favor’. Depois a levaram para trás de um muro, não os vi mais, só ouvia os gritos. Não sabia o que fazer, era perigoso demais descer até a rua. Se tivesse uma arma, teria ido até lá e atirado naqueles homens. Mas não tinha nada e não havia nada que eu pudesse fazer”, contou a testemunha, cujo nome não foi divulgado.

Segundo testemunhos publicados pela agência missionária Misna, só nesta última quarta-feira, 35 vítimas de estupro buscaram ajuda no Hospital da Mulher de Nairobi, um número muito superior à média de dias normais.

Fontes do “Daily Telegraph” afirmam que a maior parte das vitimas foi atacada em suas próprias casas, nos bolsões habitacionais da periferia da capital, e somente pelo fato de pertencerem à tribo do presidente Mwai Kibaki, os kikuyu.

Algumas mulheres afirmam que bandos de homens, armados de machados e bastões, entraram em suas casas e as violentaram na frente dos maridos, alguns dos quais foram brutalmente assassinados.

Os agressores fariam parte das etnias partidárias de Raila Odinga (membro da tribo Luo), que perdeu as eleições presidenciais e passou a afirmar –junto a seu grupo e alguns observatórios internacionais– que as votações foram manipuladas.

Nota do EcoDebate

Os estupros, como método de violência tribal e/ou política, são uma tragédia cotidiana na África Subsaariana. Sobre este assunto, leiam:

A violência sexual em conflitos armados permanece onipresente, 23/10/2007

Feminicídio no Congo, por Eve ENSLER, 20/11/2007

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