O Pantanal em risco, artigo de Antônio Márcio Buainain e Almir Sater

[O Estado de S.Paulo] Início de ano é propício ao otimismo. Sobrevivemos, o que não é pouco, se levamos em conta os perigos adicionais presentes no cotidiano do brasileiro, rico, remediado ou pobre. As contas das festas, o IPTU, o IPVA, as matrículas e o material escolar ainda não chegaram. Retomamos a vida com gosto de festa na boca, zumbidos de música e alegria na cabeça. Em 2008 há mais razões para otimismo: a economia acelerou; o fim da CPMF mostra que ainda existe oposição – e, portanto, democracia; o real valorizado barateia bens e serviços e aumenta o bem-estar imediato; em algumas áreas, como educação e energia, o governo federal parece ter finalmente compreendido que propaganda não é suficiente para assegurar esses insumos essenciais do desenvolvimento. Temos, portanto, fatos positivos para tentar contrabalançar a impunidade na política, a vergonha de constatar que nossas crianças vão à escola e não aprendem, a insegurança das ruas, as esperas nos aeroportos, o sofrimento nas filas do INSS e do SUS e o desrespeito geral a que temos de nos submeter num país onde a Justiça tarda, e muitas vezes falha.

Por que, então, aborrecer os leitores com a denúncia de que o Pantanal, Patrimônio da Humanidade, está em risco? Porque o risco é real, sério e esperar o carnaval passar é como esperar a segunda-feira para iniciar a dieta.

Nas últimas décadas, notam-se sinais de estresse no Pantanal, provocados por desmatamento, expansão das lavouras e pastagens na serra – assoreamento dos rios, mudanças no regime de enchentes, contaminação da água, erosão, comprometimento da fauna e flora locais não são novidades. Apesar destas ameaças “externas”, a sustentabilidade da região era em parte preservada pela própria economia pantaneira, baseada no turismo seletivo e na pecuária extensiva, praticada em grandes fazendas num sistema que viabilizava tanto a atividade comercial como certo equilíbrio agroecológico. O risco novo advém da crescente inviabilidade econômica da pecuária extensiva, pressionada pela elevação da produtividade da cadeia bovina nacional, que pune os produtores que não são capazes de acompanhar o “progresso” geral. O preocupante alerta é feito por Sandra Aparecida Santos e Urbano Gomes Pinto de Abreu, pesquisadores da Embrapa Pantanal.

As grandes fazendas, o isolamento, as pastagens naturais, o sistema de manejo quase rudimentar e o baixo uso de insumos externos que viabilizavam o equilíbrio agroecológico local e a sustentabilidade comercial da pecuária pantaneira viraram fortes desvantagens. Como competir mantendo um animal por seis hectares? Para o Pantanal progresso seria manter o sistema de criação extensivo, preservar a região como reservatório de água da Bacia do Paraguai, como produtor de natureza e biodiversidade. Ao longo do tempo, quem pagou a conta deste verdadeiro progresso foram os pantaneiros. Mas a conta está alta e o pantaneiro tradicional parece cansado e até mesmo impotente para lidar com o outro progresso. Muitos têm vendido suas terras a “gente de fora, que não conhece nem tem compromisso com a cultura local”, como nos disse um pantaneiro sem esperança; outros vêm intensificando a produção, plantando pastos, derrubando matas e até drenando alagados. Este sistema pode até recuperar a pecuária, mas condena o Pantanal.

O paradoxo é simples: a sociedade que se preocupa com o aquecimento global, exige produtos saudáveis, impõe regras e custos também pune, via mercado, os produtores que têm baixa produtividade. Uma árvore em pé ou um animal selvagem vivo dão despesas e nada rendem aos produtores em geral. E não é trivial transformar as maravilhas do Pantanal e a modernidade do sistema extensivo em ativos e fontes de agregação de valor para os produtores em geral. Que o diga a experiência do novilho pantaneiro!

A construção de alternativas para a região é complexa, demanda consciência, consistência, persistência e muito mais do que boas intenções. Salvo exceções, não acreditamos que seja possível proteger o ambiente impedindo o uso dos recursos naturais, em particular numa área há décadas sob domínio privado. O desafio é imenso e, segundo os pesquisadores, pode ser vencido. A próxima geração só terá o Pantanal se a nossa decidir retribuir aos pantaneiros pelo menos parte do custo de sua preservação. O Pantanal exige, e merece, tratamento especial.

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