Natal e degradação ambiental. Tudo a ver! por Márcia Pimenta

[EcoDebate] Todo ano uma agência bancária situada na esquina da Rua Visconde de Pirajá com Joana Angélica, no tradicional bairro de Ipanema na cidade do Rio de Janeiro, faz uma apresentação natalina com bonecos. Este ano, pela terceira vez, levei minha filha para assistir à programação, que era sobre músicas natalinas. No final, Papai Noel se despede, mas não sem antes pedir às crianças que cuidem bem do planeta, afinal ele é nossa casa comum. Minha filha ainda permaneceu ali um tempo e intrigada perguntou pela neve (de espuma) que sempre caía da cobertura da agência, ao final das apresentações. Aproveitando o mote ambiental, respondi que por conta do aquecimento global, esse ano a neve não ia cair.

Brincadeiras à parte, a questão ambiental está em pauta e até Papai Noel resolveu dar seu recado, o que é muito importante. Porém, esse recado passa despercebido diante do apelo consumista na mídia e no comércio, para quem o Natal é apenas uma data para comprar e gastar, incentivado por cartões de crédito e um longo prazo para pagar.

O que muitas pessoas não percebem é que os problemas ambientais não se restringem à preocupação com a fauna e flora. Na verdade, o cerne da questão ambiental está em nosso modelo de produção e consumo. Produzimos cada vez mais mercadorias que são supérfluas e que duram cada vez menos. É a tal da obsolescência programada, onde produtos são feitos para serem rapidamente substituídos por novos modelos.

Enquanto isso os aterros sanitários vão se entupindo de lixo, nossa atmosfera torna-se asfixiada pelos gases de efeito estufa, como aqueles derivados da queima do petróleo e do carvão que movimentam nossas fábricas ou transportam, de um lado para o outro, as mercadorias. A água, que está presente em todo o processo industrial, torna-se escassa e poluída por processos produtivos que não se preocupam com a destinação de seus resíduos.

Além de tudo isso, existem as embalagens. Compramos uma blusa, por exemplo, que é embrulhada em um papel de seda, que é colocada em uma caixa de papelão e vai parar dentro de uma sacola plástica. Ao final, partindo do princípio que o presenteado tenha ao menos gostado do mimo, temos um presente acrescido de três tipos de embalagem que irão parar em um lixão. De preferência, que seja bem longe de nossas casas! De todas as embalagens, as sacolas plásticas são as maiores vilãs. A produção anual estimada é de 210 mil toneladas de plástico-filme, a matéria-prima da fabricação dos saquinhos plásticos usados nos supermercados, por exemplo. Seu tempo de degradação no meio ambiente é de 100 a 300 anos!

E é assim, com essa falta de responsabilidade na hora de consumir, que vamos degradando o meio ambiente, mas jurando de pés juntos que amamos a natureza!

Na verdade, devemos pensar no meio ambiente como um quintal. Na medida em que tiramos algum elemento sem substituição, a tendência é de que, em breve, não tenhamos nada mais para colher. E é assim que hoje retiramos da natureza quase 30% a mais do que a sua capacidade de se recompor permite. Hoje nossa situação é a seguinte: desmatamos seis milhões de hectares por ano de floresta virgem com modificações no uso do solo (agricultura, por exemplo)¹, 25% do estoque marítimo de peixes foi super explorado ou significativamente reduzido², atualmente 41.415 espécies estão na Lista Vermelha das Espécies Ameaçadas da IUCN (sigla em inglês para União Internacional para a Conservação da Natureza) sendo que 16.306 delas correm risco de extinção e, para finalizar, cientistas dizem que em 1990, 51% de todo o CO2 emitido não foi absorvido pelos sumidouros de carbono do planeta (oceanos, florestas), acumulando-se na atmosfera³.

A grande dificuldade para reverter a crise ambiental que vivenciamos é fazer com que as pessoas entendam como seu estilo de vida está diretamente ligado à degradação ambiental. Com esse entendimento esperamos que as pessoas revejam seus hábitos de consumo. Recomendo que faça o teste da pegada ecológica e descubra quantos planetas seriam necessários caso todos os habitantes tivessem os mesmos hábitos que você.
Tente: http://www.pegadaecologica.siteonline.com.br/.

1 Global Forest Resources Assessment 2005, Progress towards sustainable forest management, FAO, Forestry Paper 43.

2 Meadows, Randers and Meadows, Limits to Growth – 30 year update. 2006: page 231.

3 UNFCCC, Climate Change Information Sheet 6, September 27, 2007.

Márcia Pimenta é Jornalista com Especialização em Gestão Ambiental, colaboradora e articulista do EcoDebate

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