Riacho Estrela : a nascente aterrada, por Mayron Régis

No Baixo Parnaíba maranhense, as visões divergentes sobre o mundo bravio se afunilaram e se afunilam em possessões e tentativas de possessões de áreas prioritárias para a conservação do bioma Cerrado e para o congraçamento das suas populações tradicionais. Os artesãos do povoado de São João dos Pilões – município de Brejo – que o digam; incorreram no erro de venderem suas posses aos plantadores de soja – se pudessem, corrigiriam esse rumo que os levou à completa escassez dos pequizeiros na região de São João dos Pilões.

Naquele trecho que ruma para os municípios de Buriti de Inácia Vaz, Duque Bacelar e Coelho Neto – perseguia-se uma nascente do riacho Estrela – afluente do rio Preto – bacia do Munim.- guiados pelo senhor Pedro, descendente de franceses e morador do povoado Cajueiro 2, município de Mata Roma, em cuja sede haviam obtido a informação do sumiço de uma das nascentes do riacho Estrela, o mesmo que transbordara do seu leito em maio de 2007 pelo excessivo volume de água depositado pela chuva em um só dia e fora tamanha a chuva que pouquíssima gente viu nisso uma fonte de alegria e de recompensa, contudo, intentando a venda do máximo de propriedades, os corretores de imóveis afiançaram aos plantadores de soja que de janeiro a maio as chuvas no Baixo Parnaíba caem de forma regular.

Nos Cerrados, os caminhos de terra chicoteiam a mata nativa da entrada aos fundos das fazendas de soja – fazenda Palmeira – grupo SLC – a mais produtiva do grupo. Quando se viaja por uma rodovia asfaltada de um município a outro, a visão dos campos de soja se ligeiriza e aos poucos esta visão estabiliza num conformismo quase indestrutível de que a soja veio pra ficar e de que os crimes ambientais cometidos por A ou B estão na proporção exata das conquistas econômicas trazidas pelos plantadores de soja e pelas tradings para o Baixo Parnaíba – uma visão minúscula perante o mundão de Cerrado porque justifica um mal que atinge em cheio populações confinadas ao bioma com um pretenso bem que atinge uma parcela restrita da sociedade civil – uma visão minúscula perante o mundão de Cerrado porque os setores econômicos que a difundem são os sojicultores e as siderúrgicas, os maiores destruidores dos Cerrados – uma visão minúscula porque enxergamos o Cerrado apressadamente e de longe como se os nossos olhos redargüissem um mundo em pouca conformidade com o mundo das imagens urbanas.

Alguém memorizou a nascente do riacho Estrela pelo que ela nutria de umidade as chapadas mais baixas dos municípios de Buriti, Mata Roma e Anapurus. Alguém acampou na nascente com seus animais de transporte e com seus mantimentos para o mês. Alguém divagou sobre a sorte da nascente serenar quem ali se detinha.

O senhor Pedro reside perto da extinta nascente do riacho Estrela e conta isso de ouvir dizer, relembrando conversas sérias com um antigo morador. A nascente fendia o chão naquele trecho e desde final dos anos 90, com a compra de terras griladas pela SLC, fora aterrada para o plantio de soja nessa que é a fazenda mais produtiva do grupo. Então, é preciso revisar o Cerrado das atrocidades cometidas pelo agronegócio por dentro – o que está adormecido e o que está prestes a despertar por força da conjuntura social e econômica como o projeto de reflorestamento com eucalipto da Margusa para as bacias dos rios Munim, Preguiças e Parnaíba. Diante das audiências ocorridas nos dias 12 e 13 de setembro em Santa Quitéria e Urbano Santos se evidencia a pré-disposição do governo estadual licenciar o empreendimento sem pedir novos estudos num quadro em que o Eia-rima original padece de fragilidades. Portanto, o Fórum Carajás e as organizações aliadas pedem a suspeição de todo o processo de licenciamento do projeto da Margusa.

Mayron Régis, jornalista

Esse texto faz parte da campanha Monitorando a bacia do Rio Munim, projeto da Associação Agroeocológica Tijupá, com financiamento do fundo soja do Centro de Apoio Sócio-Ambiental (CASA).

artigo publicado pelo EcoDebate.com.br – 22/09/2007

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