Conjuntura da Semana. Uma leitura das Notícias do Dia do IHU de 13 a 19 de agosto de 2008

Publicado em agosto 21, 2008 por

Tags: conjuntura

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A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as “Notícias” publicadas de 13 a 19 de agosto de 2008. A análise é elaborada, em fina sintonia com o Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do IHU.

Sumário:

Religião e política

Fernando Lugo, no Paraguai, abre um precedente inédito na Igreja
Rafael Correa, no Equador, cristão e de esquerda
Hugo Chávez tenta imprimir uma cara de cristianismo ao ‘socialismo do século XXI’
Brasil. Teologia da Libertação e política
A Teologia da Libertação Negra ganha relevo na política americana

Petrosal

Uma decisão de Estado
Uma disputa por poder econômico e político
A estratégia do governo para o pré-sal
Petrosal. Uma decisão técnica, mas sobretudo política
As prioridades do governo
A denúncia da Aepet

A conjuntura da semana em frases

Eis a análise.

Religião e política

A eleição do ex-bispo Fernando Lugo para presidente do Paraguai não tem apenas uma importância política, quer seja no âmbito interno, quer seja em nível de região. Sua ascensão à presidência do país vizinho, possibilita uma reflexão sobre a influência da religião na política. Mesmo que haja um movimento de laicização, de saída da religião, sobretudo na Europa, o fato é que a religião foi saída pela porta e está retornando pelas janelas. Seja na América Latina ou nos Estados Unidos.

O que Fernando Lugo, Rafael Correa, na América Latina, mas também Barack Obama, candidato a presidente dos Estados Unidos, têm em comum é justamente a religião. Os mandatários latino-americanos foram marcados pela Teologia da Libertação e Obama, pela Teologia Negra da Libertação.

Assim, num continente marcadamente católico, referências da nova esquerda deixam de lado o materialismo dialético e o laicismo republicano para apoiar-se na mensagem transformadora da Teologia da Libertação. Nessa primeira parte da nossa análise dessa semana, nos deteremos a descrever e analisar esse tema.

Fernando Lugo, no Paraguai, abre um precedente inédito na Igreja

Lugo foi eleito no dia 20 de abril com 41% dos votos e tomou posse na semana passada, mais especificamente, no dia 15 de agosto.

Lugo pôs fim a 61 anos ininterruptos de governo do Partido Colorado, ao derrotar a candidata oficial Blanca Ovelar e o general da reserva Lino Oviedo, por quem o Brasil nutria maior simpatia. Oviedo tornou-se, segundo ele mesmo, o “fiel da balança no jogo de força do governo com a oposição. Oviedo é o líder da Unace (União Nacional dos Cidadãos Éticos), terceira força política do Paraguai, com 28 parlamentares. Esse apoio de Oviedo ao governo de Lugo foi negociado pelo próprio presidente, pois só dessa maneira terá relativa tranqüilidade para governar.

Simultaneamente, a vitória de Lugo é significativa pelo fato de representar um alinhamento mais à esquerda no espectro ideológico no cenário latino-americano, ainda que faça questão de não se autodenominar de esquerda, mas “ser um centrista”, ou “centro-progressista”. Sua eleição isola ainda mais a Colômbia. Sua vitória não deixa de ser uma vitória dos setores populares sul-americanos.

Uma missa celebrada na catedral metropolitana de Assunção, com a participação de presidentes de diversos países, fez parte dos atos de posse de Lugo. O que poderia ser visto como algo inusitado ou mesmo constrangedor, em outra situação. Algo similar ocorreu com seu colega do Equador, Rafael Correa, que, alguns dias antes de sua posse, participou de um ritual indígena e de uma missa em uma das comunidades onde este trabalhara em tempos da sua formação.

Fernando Lugo, gosta de se remontar ao tempo em que viveu e trabalhou no Equador. Ali teve contato com um dos expoentes da Teologia da Libertação, Monsenhor Leónidas Proaño, conhecido como o “bispo dos pobres”. Na sua volta ao Paraguai, nunca perdeu essas raízes. Pelo contrário, destinado, já como bispo, à diocese de San Pedro, região mais pobre do Paraguai, desenvolveu ali os princípios da Teologia da Libertação.

A eleição de Fernando Lugo, como presidente, significou “um revés inesperado pelo Vaticano”. O padre jesuíta Antonio de Paula Lima Alonso, assinala que este caso pode ser “o começo de mudanças que estejam relacionadas com a Igreja”. O jesuíta alude à mudança de postura operada pelo Vaticano, que, num primeiro momento, se opõe frontalmente ao pedido de dispensa feito pelo Lugo, mas que, em seguida, repensa sua atitude e a refaz, ao conceder-lhe, no final de julho passado, a dispensa.

Para entender o caso, vejamos o seguinte.

Em 2006, Lugo decidiu concorrer à presidência do Paraguai. Mas, os compromissos contraídos com a Igreja o impediam. O jeito foi pedir a renúncia ao Vaticano do episcopado, condição sine qua non para ser candidato, já que a Constituição paraguaia proíbe que um líder religioso seja presidente. Lugo escreveu ao Vaticano solicitando a “laicização”, significando a dispensa do estado clerical. Ato contínuo, ele anunciou que renunciara ao seu cargo como bispo. E a insistência de Lugo irrita a cúpula da Igreja no Paraguai. Tanto que pairava sobre ele a ameaça de excomunhão.

Em dezembro daquele ano, o bispo da diocese de Concepción (norte), Zacarías Ortiz, disse à Rádio Uno de Assunção que Lugo “está suspenso de facto”, mas não expulso, de seu estado clerical após ter renunciado ao sacerdócio antes de se dedicar à política. Ortiz acrescentou que a advertência canônica que Lugo recebeu do Vaticano antes de anunciar sua decisão foi um passo prévio a essa suspensão. Ele também disse que Lugo poderá ser sancionado pelo Vaticano com uma medida mais dura, como a expulsão ou a excomunhão se voltar a rezar missas ou realizar sacramentos.

Por essa medida do Vaticano, Lugo estava dispensado das suas funções pastorais como sacerdote e bispo.

Aos 4 de janeiro de 2007, o Cardeal Giovanni Battista Re, da Congregação do Vaticano para os Bispos, escreveu a Lugo, informando-o que sua solicitação de “laicização” não fora aceita. Razões teólogicas e canônicas, amplamente analisadas pelo vaticanista americano John Allen Jr., justificavam a negação à solicitação feita.

Mas, a decisão inédita veio no dia 30 de julho de 2008, quando Lugo já fora eleito presidente. O papa Bento XVI concedeu-lhe uma dispensa especial devolvendo-lhe a um estado laico. “É a primeira vez que se outorga isso (a dispensa para um bispo)”, afirmou o núncio apostólico do Vaticano em Assunção, Orlando Antonini. “(O pedido) foi aceito porque o povo o elegeu e porque seu estado clerical não é compatível com o cargo de presidente da república.” Antonini explicou que, ao tornar Lugo novamente leigo, o papa o retirou da situação de sanção por rebeldia em que se encontrava e o liberou de todas as obrigações do estado clerical, como o celibato.

O vaticanista norte-americano John Allen Jr. pondera que esse caso, na época, foi tratado em “termos disciplinares ou políticos. Alguns sugerem que o Vaticano rejeitou Lugo segundo o princípio geral de que não quer o clero envolvido em políticas partidárias (em termos, isso certamente é verdade), ou então, para defender a autoridade do papa. Outros apontam para a plataforma esquerdista de Lugo, sugerindo que talvez o Vaticano tema o espectro de Hugo Chávez da Venezuela, ou está preocupado com uma revitalização do movimento da teologia da libertação”.

Entretanto, diz Allen Jr., essas análises todas omitem “a dimensão especificamente teológica do problema”. “Aplicando esta lente, não está claro, atualmente, que o Vaticano pudesse laicizar Lugo, mesmo que ele estivesse realmente inclinado a isso (…) Teologicamente, a ordenação sacerdotal é como um sino que não pode ser feito não tocar. O Cânon 290 do Código de Direito Canônico estabelece claramente: ‘Depois que foi validamente recebida, a sagrada ordenação não pode ser tornada inválida’. Não obstante, um sacerdote pode ser ‘laicizado’, significando formalmente ser restituído ao estado laico como questão legal, embora a ‘marca’ permanente da ordenação continue existindo”.

Ou seja, uma vez bispo, bispo para sempre, pois o sacramento da ordem imprime um “caráter” indelével. John Allen Jr. argumenta que “se o Vaticano se sentisse livre para laicizar bispos, isso provavelmente já teria acontecido por diversas vezes”. E alude a que hoje “o ponto relevante é que há um ativo debate teológico e canônico no âmbito do catolicismo sobre a verdadeira possibilidade de laicizar um bispo”. Assim mesmo, admite a posição contrária, isto é, a de que “um bispo poderia ser laicizado se o papa realmente quisesse agir dessa forma”.

Por sua vez, o superior geral da Congregação Verbo Divino, a qual Fernando Lugo pertence, declarou, claramente, numa nota pública:

“Fernando Lugo é membro da Congregação do Verbo Divino, mas desde sua nomeação de bispo, em 5 de março de 1994, deixou de estar sob a jurisdição dos superiores da Congregação, para estar sob a direta autoridade do Papa (Cân. 705). Como conseqüência da sua decisão de entrar na política no Paraguai, as suas faculdades ministeriais de sacerdote e de bispo foram suspensas pelo Vaticano. Espera-se que as autoridades do Vaticano, no seu devido tempo, clarifiquem o seu estatuto na Igreja”.

Portanto, subjacente à decisão histórica e inédita do Vaticano está a dimensão teológica. E mostra também que, no caso de Fernando Lugo, houve uma inflexão por parte do Vaticano, que se mostrou mais tolerante neste caso, do que, por exemplo, no de Fernando Cardenal, na Nicarágua, ministro da Educação no governo sandinista, nos anos 1980. Aliás, seu irmão, Ernesto Cardenal, esteve na posse de Lugo e na ocasião disse que “estamos celebrando a subida ao poder de mais um libertador da América Latina”.

Fernando Lugo sempre devotou sua vida aos mais pobres. A sua entrada na política, em estreita confluência com a Teologia da Libertação, concretiza a concepção de que a política é administração da coisa pública, sim, mas é também o cuidado dos mais pobres, dos marginalizados, por quem ninguém se interessa. O fato é que precisa mostrar agora nos conflitos políticos a que veio, sem renunciar ao seu passado.

E dívidas sociais históricas represadas insistem em se apresentar. Até porque sua eleição gerou uma enorme esperança, difícil de ser administrada para não se transmutar em decepção política e descrédito. E a contar pela questão da terra, os sem terra paraguaios, que já vinham se manifestando e fazendo ocupações nos últimos meses, colocando inclusive o governo brasileiro de sobreaviso, não deram nem chance para uma lua de mel para o novo presidente. Justo no dia da posse de Lugo, fizeram uma enorme ocupação de terras, como forma de pressionar o governo para uma reforma agrária.

A renegociação do tratado da Itaipu binacional foi um dos motes da campanha de Lugo e que não pode ficar só como promessa de campanha. Lugo já formalizou ao governo brasileiro um memorando com seis reivindicações, que incluem um pedido de preço justo para a venda da energia excedente de Itaipu ao Brasil e a revisão do tratado. O governo paraguaio alega que a energia não utilizada pelo Paraguai e vendida ao Brasil (cerca de 93%) está com o preço infravalorizado. Em entrevista especial publicada no IHU On-line (em 29 de maio de 2007) e dada ao Cepat, Lugo dizia que o Paraguai subsidia a indústria de São Paulo e que uma renegociação do Tratado da Itaipu com o Brasil fazia parte de uma estratégia de “recuperação da soberania energética”.

Nesta semana, o diretor paraguaio de Itaipu, Carlos Mateo Balmelli, admitiu que a negociação com o Brasil não será fácil. “Quem acredita que isso vai a ser uma coisa fácil está enganando a opinião pública”, disse. Segundo ele, “negociar com o Brasil não é fácil” e a principal “carta” de seu país na mesa de negociações “vai ser a seriedade” com que atuam.

O ministro também disse que as contas da hidrelétrica que seu país divide com o Brasil serão abertas aos organismos de controle das duas nações, assim como a abertura do cadastro das empresas que fornecem serviços a Itaipu.

Também a questão indígena deverá merecer especial atenção no governo Lugo. “O recém empossado presidente Fernando Lugo não apenas tem uma grande sensibilidade e carinho para com a questão indígena, como já sinalizou sua decidida atuação para garantir os direitos desses povos. Entende que a diversidade e contribuição dos povos indígenas será sumamente importante na construção do novo Paraguai. Para tanto duas questões serão prioritárias, destacadas no seu discurso de posse: a garantia das terras indígenas e a punição de todos os crimes cometidos contra esses povos”. O depoimento é de Egon Heck, do CIMI do Mato Grosso do Sul, e que esteve na posse de Lugo.

A empreitada será difícil, pois nas últimas décadas, “os povos indígenas foram relegados à sua própria sorte, sem nenhuma política séria e conseqüente por parte do Estado paraguaio”, conta Heck. Portanto, o primeiro passo nesse sentido é a árdua tarefa de construir uma política indigenista, que tem uma de suas tarefas a difícil missão de construir uma unidade no próprio movimento indigenista e em suas principais organizações.

Outra batalha, não menos polêmica, se abre em outra frente. Ela diz respeito ao aborto e envolve diretamente a oposição da Igreja católica. A ministra da Saúde, Esperanza Martínez, é partidária da despenalização do aborto, mas disse que essa é uma decisão que cabe à sociedade tomar. “O aborto é um tema conflitivo no Paraguai, tem penalidades explícitas. Creio que esta é uma discussão que deve ser abordada coletivamente e a decisão tem que ser independente da minha postura em favor da despenalização. É um assunto que deve ser resolvido pela sociedade no seu conjunto”, disse. Martínez insiste em abordar o assunto sob o prisma da saúde pública: “Queremos contribuir para diminuir a mortalidade materna, que nos coloca no terceiro lugar na América Latina”.

Rafael Correa, no Equador, cristão e de esquerda

Caso semelhante é o de Rafael Correa, do Equador. Correa venceu as eleições de final de 2006, em segundo turno, contra o magnata da banana Alvaro Noboa, que era a opção preferida do governo brasileiro.

O economista Rafael Correa, com duas pós-graduações em economia nos Estados Unidos e na Bélgica, assim como um doutorado nos Estados Unidos, diz ser de “esquerda, mas não de uma esquerda marxista, mas sim de uma esquerda cristã”. Católico praticante, segundo ele, o seu pensamento político se nutre “das sagradas escrituras e da Doutrina Social da Igreja”.

Ainda durante a campanha eleitoral, Correa definiu-se como um humanista, cristão e de esquerda. “Humanista porque para mim a política e a economia estão a serviço do homem. Cristão porque me alimento da doutrina da Igreja, e de esquerda porque creio na equidade, na Justiça e na supremacia do trabalho sobre o capital”, afirmou o presidente.

Em toda a trajetória de Correa a religião acaba tendo um lugar especial. O ambiente familiar e de estudos, sempre o aproximam do ambiente católico. Mas o que o marcou para sempre foi o trabalho de voluntário que realizou durante um ano – entre 1986 e 1987 – ao voltar ao Equador. Esteve na Bélgica fazendo o mestrado numa universidade católica, ou seja, a prestigiosa Universidade Católica de Lovaina, onde muitos intelectuais latino-americanos estudaram. Entre os quais, podemos citar, Camilo Torres, que com Orlando Fals Borda, recentemente falecido, fundou, em 1959, a primeira Faculdade de Sociologia da América Latina na Universidade Nacional da Colômbia.

Correa participou da missão dos padres salesianos na paróquia rural Zumbahua da Província de Cotopaxi, de população majoritariamente indígena. “Ali fiz meu verdadeiro mestrado”, costuma dizer Correa. É que apalpar as condições precárias de vida dos indígenas que inclusive chegaram a afetar a sua saúde ao contagiar-se de “rasca bonito” (escabiose), comoveram seu espírito juvenil.

Rafael Correa, inúmeras vezes, testemunhou a importância que teve na sua formação ideológica a vida e a ação pastoral do bispo de Riobamba, Leonidas Proaño. Tanto que a Assembléia Constituinte Equatoriana acaba de proclamar Leonidas Proaño como “Personalidade Símbolo Nacional e Exemplo Permanente para todas as gerações” e decreta que o dia 29 de janeiro de 2010 será celebrado o centenário de nascimento dele com um feriado nacional.

Ali, na serra, Correa teve seu contato mais próximo com a Teologia da Libertação, já que na missão de Zumbahua os salesianos procuram combinar a evangelização dos camponeses indígenas com seu desenvolvimento humano, baseando-se tanto na Teologia da Libertação como na pedagogia do oprimido de Paulo Freire.

Todas estas influências formaram o Correa presidente. O mandatário não tem medo de deixar claro sua mensagem libertadora, que ficou plasmada em seu discurso de posse. “A nova condução econômica do Equador priorizará uma política digna e soberana, ou seja, mais que libertar mercados, libertar o país dos atavismos e poderosos interesses nacionais e internacionais que o dominam; com uma clara opção preferencial pelos mais pobres e postergados; e priorizando o ser humano sobre o capital”.

Em outra ocasião, um ex-colega seu da Universidade de Lovaina, na Bélgica, Washington Pesántez, fiscal da província de Pichincha, que faz parte de Quito, deu o seguinte testemunho de Correa: “Na Bélgica amadureceu politicamente e se inscreveu na esquerda cristã, na teologia da libertação do teólogo brasileiro Leonardo Boff. Creio que já então, em 1990, Rafael queria ser presidente”.

Correa é visto como pessoa muito íntegra, católica, decidida e firme em seus propósitos. Isso lhe tem sido de serventia na arte de administrar. Mas, por vezes, tem servido de munição para seus inimigos que vêem no seu gênio forte uma atitude de arrogância.

Uma das primeiras iniciativas de Correa como presidente foi convocar uma Assembléia Constituinte para fazer uma nova Constituição. A Constituição foi aprovada em julho. A nova Carta Magna deve ser ratificada no referendo marcado para o dia 18 de setembro.

Uma das polêmicas causadas pela nova Constituição envolve a cúpula da Igreja católica, que mobiliza a sociedade equatoriana para que rechace a Carta Magna. “Estamos numa guerra, numa guerra de paz para defender os princípios morais”, adverte o presidente da Conferência Episcopal Equatoriana, D. Antonio Arregui. A direita e a Conferência Episcopal do Equador se opõem à Constituição proposta por Correa por considerar que é favorável ao aborto, às uniões homossexuais e à concentração do poder no presidente. Segundo os bispos da Conferência, vários dos artigos “são incompatíveis com a fé cristã” e contrários à concepção de família e de vida. Ou seja, a Igreja institucional, como de “cão de guarda moral”, nega os inegáveis e significativos avanços sociais na construção da cidadania da nova constituição. A Igreja tentara convencer o presidente Correa para que incluísse algumas questões no referendo com a finalidade de esclarecer os pontos objetados pela cúpula da Igreja. Mas, o presidente, com a atitude que lhe é característica, descartou incluir este assunto, assim como outros solicitados, no referendo. “Mas dissemos não, um rotundo não. Isso seria titubear em nossas convicções, isso seria dar razão aos sem-razão. Preferimos ser derrotados pelas falácias a ceder diante delas”, disse Correa, encerrando o assunto.

O presidente da Conferência Episcopal Equatoriana lidera a campanha contra a aprovação da nova constituição num próximo referendo.

Hugo Chávez tenta imprimir uma cara de cristianismo ao ‘socialismo do século XXI’

O caso de Hugo Chávez, na Venezuela, é um pouco diferente. Chávez não vem da Teologia da Libertação, nem nunca foi um militante de igreja. Sua vida pregressa não mostra familiaridade com essa prática, que nunca foi seu forte. Assim mesmo, Chávez realiza uma ponte entre o seu chamado “socialismo do século XXI” e os ideais pregados por Jesus Cristo. Chávez estabelece pontes entre Simón Bolívar e Jesus Cristo. “Cristo é um dos maiores revolucionários nascidos na Terra. O verdadeiro Cristo não é aquele que alguns setores da Igreja Católica manipulam. Cristo era um verdadeiro revolucionário socialista”, garantiu um dia antes da cerimônia de sua posse.

Chávez insiste no aspecto revolucionário de Jesus Cristo. “O cristianismo é fundamentalmente revolucionário”, disse Chávez certa vez.

Chávez faz questão de demonstrar a presença dos valores cristãos em seu governo. “Os valores cristãos sempre estiveram presentes em nossa proposta”, garantiu o Ministro da Comunicação e Informação e um dos homens mais próximos a Chávez, William Lara. “O presidente e todos neste governo reivindicamos os princípios sociais do cristianismo e da Teologia da Libertação. Isto se traduz na busca de um sistema democrático com uma distribuição eqüitativa da renda pública. Nossa forma de fazer política se baseia nos valores cristãos que recebemos em nossa primeira formação”, acrescentou.

As relações entre a cúpula da Igreja católica e o governo de Chávez já passaram por momentos muitos tensos e difíceis. E não são nada amistosas. A cúpula da Igreja acusa Chávez de estar recorrendo a esse mecanismo apenas de modo interesseiro, uma vez que o discurso religioso tem uma penetração muito grande, sobretudo, entre os mais pobres. Chávez nunca perdoou à cúpula da Igreja o fato de ter apoiado o golpe perpetrado pela direita contra ele em abril de 2002, e por seu conservadorismo. Recentemente, Chávez, ao afirmar a sua tese de que Jesus Cristo era socialista, suscitou um áspero debate com os jesuítas venezuelanos. E, neste ano, Luís Ugalde, jesuíta, reitor da Universidade Católica Andrés Bello, descreveu o presidente venezuelano, como um “pregador”, “fundamentalista”, com “idéias infantis”. No final do ano passado, Chávez ameaçara Ugalde, que é espanhol de nascimento, de expulsão.

“Hugo Chávez não pode ser considerado inimigo da religião e menos ainda da Igreja Católica como querem apresentá-lo os hierarcas eclesiásticos venezuelanos. Ele se define como cristão, seguidor de Jesus de Nazaré e em reiteradas ocasiões tem dito que seu projeto político se inspira na Teologia da Libertação e na Doutrina Social da Igreja”, resume o teólogo espanhol Juan José Tamayo.

“Muitos dão por morta a Teologia da Libertação, mas se trata de um desejo mais do que de uma realidade. Sobre ela se tem estendido um véu de silêncio, mas em vão porque ela fala através do compromisso dos cristãos e das lutas dos pobres. Resulta difícil, para não dizer impossível, eliminar ou silenciar a Teologia da Libertação (…) Além disso, não é uma Teologia de sacristia que cheira a incenso e fomenta as obras assistenciais, mas Teologia da realidade histórica transformadora”, prossegue Tamayo. “A teologia da libertação se re-pensa e re-formula dentro dos processos históricos a partir dos novos sujeitos protagonistas da transformação”, conclui.

Brasil. Teologia da Libertação e política

O Brasil não está à margem desse processo mais amplo vigente na América Latina em que religião e política se relacionam, sem, contudo, se misturarem. Há continuidades, mas há também conflitos, tensões e mesmo incompatibilidades.

Como exemplo da atuação na política de lideranças provindas da Igreja mais progressistas, pode-se tomar a composição dos ministérios nos dois governos Lula. A sua presença reflete a participação de pessoas provindas das fileiras da Teologia da Libertação: o ex-assessor especial de Lula, Frei Betto, assessor das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); o secretário particular de Lula, Gilberto Carvalho, que foi um dos iniciadores da Pastoral Operária no Paraná; a ex-ministros do Meio Ambiente e da Pesca, respectivamente, Marina Silva e José Fritsch, militantes das CEBs; o ministro da Ação Social, Patrus Ananias, de Belo Horizonte, entre outros. Isso para destacar figuras do primeiro escalão do governo Lula. O que importa é ressaltar que uma das vertentes formadoras do Partido dos Trabalhadores (PT) é formada por militantes provenientes da Igreja católica.

A partir dos anos 1970, sobretudo, a Igreja no Brasil compromete-se com os pobres, no que seria conhecido como “opção pelos pobres”. Essa opção tem como pano de fundo a abertura e a mudança proporcionadas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e, sobretudo, por Medellín (Colômbia, 1968), onde se realiza a 2ª Conferência dos Bispos da América Latina e do Caribe. Esta conferência foi depois reforçada com a conferência de Puebla, que reafirma a opção preferencial pelos pobres.. Essa inflexão da Igreja é marcada por uma nova postura frente ao mundo moderno, não mais de oposição, mas de diálogo, de enriquecimento mútuo. Essa postura emergente implica uma nova eclesiologia, uma nova relação com a política, com a economia, etc.

Os leigos e leigas passam a assumir um crescente protagonismo na Igreja, que procura fazer um esforço de estar no meio dos pobres e defender sua causa. Os exemplos de bispos, padres, religiosos/as inseridos se multiplicam pela América Latina e Caribe afora, e são numerosos. O confronto com os poderes constituídos, que coincidem grandemente com regimes autoritários militares, produz perseguições, desaparecimentos e mortes de inúmeros expoentes – religiosos e leigos – da Igreja da Libertação.

A aceitação desse compromisso com os mais pobres nem sempre é pacífica dentro da própria Igreja, que custa a reconhecer figuras como D. Oscar Romero, em El Salvador, ou D. Enrique Angelelli, na Argentina. Seu martírio confirmava outros em sua missão.

Na madrugada de 8 de agosto faleceu, em Manaus, Cláudio Perani, jesuíta, uma semana antes de completar 77 anos de idade. Sua trajetória de vida e de compromisso é a de milhares neste continente afora. Um belo artigo de Ivo Polleto, assessor de pastorais e movimentos sociais, mostra que em seus compromissos, desde o tempo de estudante, nos idos dos anos 60, comparecem também grandes comprometimentos da Igreja brasileira com os pobres.

Poletto destaca o papel crucial que Perani teve na realização do “encontro de articulação, para que pudessem reunir-se, trocar experiências e organizar-se as pessoas e grupos que realizavam, junto às bases, os trabalhos de pastoral e educação popular”. Isso foi por volta de 1973, quando no Brasil, iniciativas mais regionais da Igreja, em pleno contexto militar, vale lembrar, já produziram documentos sociais importantes.

Poletto enumera os três mais importantes: “Ouvi os Clamores do meu Povo”, sobre a realidade do Nordeste; “Marginalização de um Povo: o Grito das Igrejas”, sobre a realidade do Centro-Oeste; e “Y-Juca-Pirama: o Índio, Aquele que deve morrer”, sobre a realidade dos povos indígenas.

Ivo Poletto destaca ainda sua capacidade (ou espiritualidade?) de fazer uma pastoral com os pés junto ao povo. Perani, diz, “foi, com certeza, o assessor mais firme no sentido de chamar a CPT a manter-se junto aos povos do campo, superando as tentações que vinham das igrejas e da sociedade. Nada de ser direção; nada de tornar-se movimento social, substituindo a iniciativa dos trabalhadores; nada de forçar a entrada dos trabalhadores em lutas que não correspondessem ao seu nível de consciência e de organização; nada de querer fazer todo tipo de trabalho pastoral, descuidando do serviço essencial de uma “pastoral social”, vivendo a certeza de que essa missão “social” já era uma evangelização de primeira qualidade…”.

O compromisso de Perani remete também à Teologia da Libertação, quer a um de seus fundadores, Hugo Assmann, a quem ouviu como estudante. Na outra ponta, remete à discussão que se faz hoje sobre a Teologia da Libertação, encetada pelos irmãos Leonardo e Clodovis Boff.

Outra vertente da discussão sobre religião e política, é trazida pelo sociólogo José de Souza Martins. Em recente artigo, e versando sobre a temática da anistia em nosso país, Souza Martins responsabiliza a Igreja pelo viés “conservador” que a esquerda brasileira teria assumido por conta da sua recepção do marxismo. “Uma das grandes transformações políticas ocorridas no Brasil durante a ditadura foi a fragilização da esquerda materialista e o fortalecimento e disseminação de uma nova esquerda fortemente enraizada no pensamento religioso, em particular no pensamento católico”, escreve Martins.

“A substancial diferença entre a velha esquerda e a nova esquerda – prossegue Martins – está no abandono da concepção dialética da história e sua redução a uma concepção maniqueísta e caritativa da questão social. Em relação à velha esquerda, a nova esquerda desconhece completamente o princípio da superação como ponto referencial da prática política e desconhece, em decorrência, o primado do historicamente possível na orientação da ação política”.

O essencial da crítica de Martins está em que, no seu ponto de vista, a esquerda influenciada pela Teologia da Libertação, não consegue deixar o passado para trás. Em vez de olhar para frente, fica olhando no retrovisor. “Em vez de transformar, retroceder”, diz.

Martins relaciona aqui dois temas: o legado católico da esquerda e a anistia brasileira. Mas, aqui, também se pode perguntar se o próprio José de Souza Martins não ficou refém de um marxismo conservador que nega a memória. Esse nos parece ser um elemento central nessa discussão que volta à tona, e que o presidente Lula quer enterrar de vez, assim como os militares.

Aliás, é interessante recordar que José de Souza Martins escreveu, juntamente com Cláudio Perani, nos anos 1980, o fascículo Sonhos e Desejos dos Lavradores. Desafios para a CPT. Eram tempos em que o sociólogo da USP assessorava ativamente a Comissão Pastoral da Terra – CPT.

Na semana passada, o presidente Lula defendeu enfaticamente que os brasileiros aprendam a cultuar seus “heróis”, em vez de apenas considerá-los vítimas, e de culpar os vilões. “Toda vez que falamos dos estudantes, dos operários que morreram, nós falamos xingando alguém que os matou. Quando, na verdade, esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar nossos mortos em heróis, não em vítimas”, disse Lula.

Com essa maneira ufanista, Lula quis dar por encerrado um tema espinhoso levantado pelos ministros da Justiça, Tarso Genro, e dos Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vannucchi, em audiência pública, no final de julho. Esse tema foi longamente analisado nas duas análises anteriores que fizemos. Há, pois, uma dialética que não consegue compreender o passado em seu movimento.

“Faltou coragem e visão de estadista a nossos governantes. Preferiu-se indenizar pessoas, salvaguardar os direitos pessoais, como se fossem substitutos suficientes do direito coletivo ao conhecimento do período histórico. Um grande equívoco, em verdade. O medo falou mais alto do que os interesses republicanos”. Essa é a análise de Pedro Estevam Serrano, Doutor em Direito do Estado.

“Não podemos encarar a justa e necessária indenização das vítimas como um cala-boca, um substituto do direito coletivo de conhecer nossa história como sociedade e Estado”, afirma indignado. Para Pedro Serrano, conhecer o passado faz parte do ser Nação. “Em verdade, sem conhecermos nossa história seremos sempre incompletos como nação. Nação não é um mero aglomerado de pessoas. É um fenômeno cultural que como tal é composto por sua história. Nação é um conceito que inclui a história de um povo. Nação é um povo com história”.

Portanto, pode-se com justiça discordar de José de Souza Martins, quando este diz: “A nova esquerda pensa a nova sociedade como restauração e punição, pensa-a na perspectiva e nos limites estreitos da tradição conservadora”. Fazer a memória dos que tombaram pode ser, ao contrário, profundamente progressista, uma maneira de expurgar “o retorno da barbárie”.

Neste debate que se criou na sociedade brasileira, chama a atenção a gritante ausência da Igreja católica nesse debate. Salvo uma ou outra manifestação, ela, que foi uma das vozes mais discordantes em pleno regime militar, emudeceu.

Na questão da transposição do Rio São Francisco, D. Cappio continua sua luta, chamando a atenção para a relação entre pobres e ecologia, no que aprofunda a Teologia da Libertação. Mas, acabando sendo uma voz quase uníssona dentro da Igreja, hoje. Recebe apoios – inesperados? – de gente de fora, como é o caso do engenheiro civil e empresário Adauto Medeiros, que denuncia a reedição da indústria da seca com o projeto de transposição do Velho Chico e de João Alves Filho, ex-governador de Sergipe – DEM, para quem, “lutar contra a transposição é uma obrigação patriótica”.

“A Transposição do Rio São Francisco em debate. Greve de fome de D. Luiz Cappio em discussão – Relação fé e política” é o tema do Cadernos IHU em Formação, no. 28, que acaba de ser lançado.

A atual direção da CNBB tem-se empenhado com firmeza em questões como a “lista suja”, que propugna maior ética na política, um campo sempre caro à Igreja do Brasil. Este é um campo em que ela, desde a década de 1970, como também na questão da luta pelos direitos humanos, nas questões relativas à terra, ao trabalho, aos povos indígenas. Mas ela, como mostra o historiador Kenneth Serbin, tem dificuldades enormes em compreender novas questões que vão emergindo tanto no Brasil como na América Latina

Como a Igreja trata, lida e se posiciona em relação às questões levantadas, por exemplo, pelo Seminário Inter-religioso de Diversidade Sexual do Cone Sul pelo direito à diversidade sexual e a liberdade religiosa, realizado em julho passado, em Buenos Aires? E que não são questões novas. As questões relativas às uniões homoafetivas passam a ser uma demanda em crescente no mundo todo, mas também em diversos países da América Latina, inclusive naqueles governados por mandatários originários das fileiras da Teologia da Libertação.

Na Argentina, casais do mesmo sexo já tem direito a pedir pensão de seus parceiros mortos. Trata-se do primeiro decreto nacional a garantir direitos a casais homossexuais no país. No Equador, a nova Constituição, se referendada como está, abre a possibilidade para as uniões homossexuais e o aborto. No Brasil, a questão do aborto vai e vem.

Neste contexto, o cenário de uma Igreja mais propensa ao diálogo e menos afeita ao dogma está em franco refluxo. Posturas como a do cardeal Carlos María Martini, que apela a que a Igreja tenha coragem de se reformar, são sempre mais escassas.

Temos, portanto, de um lado a Igreja mais alinhada com a Teologia da Libertação e em sintonia com o Concílio Vaticano II e que produziu seus frutos, no Brasil e na América Latina. Mas, esta vertente parece estar cada vez mais fragilizada. Kenneth Serbin, em entrevista concedida à IHU On-Line, o constata que a nova geração de padres “é mais realista, sem grandes ideais, desejos e modelos para mudar o mundo. Hoje, a religião se tornou mais individualista, isto é, perdeu o sentido de coletivo dos anos 1960″. Segundo o pesquisador, “o que motiva os jovens (a serem padres) é a salvação da alma das pessoas. Nesse sentido, os seminaristas voltaram para um modelo pré-anos 1960, ou seja, o que chamamos de pré-conciliar”.

Deste modo, Serbin não hesita em afirmar que se, nas décadas de 1960 e 1980, “a opção pelos pobres era abertamente aceita em muitos seminários do Brasil, sendo inclusive, a mais popular, hoje em dia ela está desaparecendo. Ainda existem padres, seminaristas e bispos na Igreja do Brasil que estão a favor dessa opção, mas ela não é mais hegemônica como nas décadas anteriores”.

De outro lado está a Igreja de matriz conservadora e centralizadora, que anda se expandindo. Segue uma tendência de questionamento do Vaticano II e de várias de suas conquistas. Entretanto, cabe a pergunta: mas, ela está gerando o quê? Quais são seus frutos?

A Teologia da Libertação Negra ganha relevo na política americana

Fernando Lugo, Rafael Correa, e mesmo Lula, considerando-se a forte militância petista das pastorais sociais, ascenderam ao poder na América Latina inspirados pela Teologia da Libertação. Nos EUA, Barack Obama coloca em relevo a Teologia da Libertação Negra. O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos foi formado pela Igreja Trinity United Church of Christ [Igreja Unida de Cristo Trindade], a maior igreja dentro da denominação protestante de maioria branca United Church of Christ, conhecida por ser uma das mais liberais do país e inspirada na Teologia da Libertação Negra.

Recentemente, Obama rompeu com o reverendo Jeremiah Wright, considerado o seu mentor espiritual. Jeremiah Wright, recém-aposentado da Igreja, afirmou que os Estados Unidos foram alvo de terrorismo porque têm um governo terrorista. O pastor, em função de sua postura contundente, passou a criar problemas para Obama, e o candidato democrata preferiu se afastar.

Porém, Obama nunca negou a influência do reverendo negro em sua vida política. Em seu livro autobiográfico A origem dos meus sonhos (Editora Gente, 2008), Obama fala da influência em sua vida religiosa do pastor Jeremiah Wright, líder espiritual da Trinity United Church of Christ de Chicago: “Filho de um ministro batista [que] resistiu à vocação paterna no começo, se alistou nos marines ao sair do college, e flertou com a bebida, o islã e o nacionalismo negro nos anos 60 (…) onde aprendeu hebreu e grego, leu Tillich e Niebuhr e os teólogos da libertação negros”.

Num segundo livro, A audácia da esperança: reflexões sobre a reconquista do sonho americano (Editora Larousse do Brasil, 2007), livro mais recente e já rompido com o reverendo Jeremiah Wright, Obama reconhece que o título do livro é uma frase tirada de um dos sermões do pastor Jeremiah Wright e que o mesmo representa “o melhor do espírito americano”. Antes de cunhar seu Yes we can (Sim, nós podemos), o lema político de Obama era audacity of hope (audácia da esperança), algo semelhante ao ‘Sem medo de ser feliz’ da campanha de Lula de 1989.

Sobre a sua relação com Obama, o pastor Jeremiah Wright disse: “Os oponentes de Obama exploram trechos dos meus sermões como arma política para amedrontar eleitores contra a candidatura de um negro. Meus sermões fazem parte de uma longa tradição de pregadores da igreja negra nos EUA. A igreja negra americana surgiu da opressão da população negra escrava e por isto meus sermões refletem sobre os séculos de discriminação, falam da libertação negra, numa tradição política e religiosa que é muito distinta da tradição européia. Diferente, mas não inferior”.

O reverendo Jeremiah Wright, que inspirou Obama para o mundo da política, é um dos principais representantes da denominada teologia da libertação negra. O pastor costuma afirmar: “Venho de uma tradição religiosa onde gritamos na igreja e nos manifestamos no piquete de greve”.

Jeremiah Wright teve como um dos seus professores de teologia James Cone, considerado o principal teólogo da teologia da libertação negra. De acordo com o jornalista e escritor Eileen Markey, o reverendo James Cone foi o criador da teologia negra e seu primeiro proponente ao publicar a obra Black Theology and Black Power [Teologia negra e poder negro] em 1969. Considerado o pai da teologia da libertação negra, Cone é o professor de Teologia de Charles A. Briggs no Seminário de União Teológica em Nova York e ainda uma referência nessa teologia. Segundo, Eileen Markey “em seu segundo livro, A Black Theology of Libération [Uma teologia negra de libertação], ele escreveu que o Deus da Bíblia esteve bem mais preocupado com ‘a falta de justiça social, econômica e política para com aqueles que são pobres e indesejados na sociedade’. Cone argumentou que este Deus trabalha pela libertação dos negros oprimidos na América contemporânea. Porque Deus está ajudando os negros oprimidos e é identificado com eles, o próprio Deus é apresentado como negro”.

Eileen Markey destaca que “as origens da teologia da libertação negra são políticas e intensamente temporais, como a teologia da libertação de Gustavo Gutiérrez, a qual inspirou as comunidades cristãs de base da Guatemala e de El Salvador e condenou a opressão econômica e política do povo da América Latina. Ambas as teologias permitem que Cristo escape da segurança da igreja. Como no Novo Testamento, ele está profundamente preocupado com a justiça para com o oprimido”.

Na análise do jornalista Eileen Markey, M. Shawn Copeland, professor de teologia no Boston College, considera a teologia da libertação negra como uma das maiores teologias – ou formas de estudar Deus – que se desenvolveu ao longo dos movimentos sociais e políticos das últimas quatro décadas: “A teologia negra se desenvolveu a partir do fermento político dos movimentos de direitos civis e de poder negro. Ela responde ao colapso do pensamento desta época. As velhas concepções já não são mais adequadas à situação”.

A teologia negra da libertação ganha força na esteira dos assassinatos de Martin Luther King Jr. e Malcolm X: “As pessoas estavam em busca de uma forma de apelar para a Bíblia e tomar parte nas questões contemporâneas, como o Poder Negro e os direitos civis”, afirma o reverendo James Cone.

A teologia da libertação negra se expandiu como “uma crítica das dinâmicas, pelas quais as estruturas de raça, classe e gênero reduzem a plenitude da vida para aquelas pessoas que descobrem não fazerem parte da cultura dominante”, afirma Jamie Phelps, professor de teologia e diretor do Instituto de Estudos Católicos Negros na Universidade Xavier de Nova Orleans, citado na análise de Eileen Markey. Em outras palavras, “em face da extensão pela qual raça, classe e gênero agem para negar aos pobres, às mulheres e às pessoas de cor o pleno reconhecimento de sua identidade como seres humanos feitos à imagem e semelhança de Deus e para negar sua plena dignidade humana e participação, como sujeitos, dentro da sociedade e da igreja, portanto, em face desta extensão nós precisamos falar sobre libertação”, diz Jamie Phelps.

É dessa vertente religiosa que vem Barack Obama. A religião sempre fez parte da política americana, é comum os candidatos encerrarem os seus discursos políticos com um “Deus abençoe a América”. Ainda que conste da Constituição americana uma rigorosa separação entre o Estado e a Igreja, as religiões fazem parte do cotidiano da política americana. Bush construiu parte de sua base de poder explorando o “voto religioso” a partir de uma agenda neoconservadora.

“Os norte-americanos podem imaginar um negro ou uma mulher como candidatos à Presidência do seu país, mas não um ateu”, afirma o jornalista Bernardo Carvalho acerca da importância da religião para os americanos. Em sua ascensão meteórica rumo ao centro da política americana Obama abandonou o seu passado agnóstico e associou-se à Trinity United Church of Christ. A Trinity, conhecida por pregar a teologia da libertação negra reivindica elementos das tradições africanas o que está em sintonia com a origem paterna de Obama, uma vez que seu pai nasceu no Quênia.

O jornalista Bernardo Carvalho relata a visita que fez à Igreja de Barack Obama: “São quase 11h e a Trinity United Church of Christ, no South Side de Chicago, está cercada por vans e câmeras das principais redes de TV americanas desde as 8h. É o primeiro domingo em que o novo pastor, o reverendo Otis Moss empossado em fevereiro, ocupará a cadeira antes reservada a Wright. No centro da igreja, vestido com túnica branca com pregas coloridas, que combinam com os motivos africanos dos trajes dos pastores associados ao redor, Moss finalmente se refere ao trauma, lendo uma Declaração de Interdependência, na qual presta homenagem ao pastor Wright, sem mencioná-lo pelo nome.

Nada é direto. Moss já não se refere à ‘crucificação do reverendo Wright’. O texto cita Entre Quatro Paredes, de Sartre, para falar da ‘estranha tragicomédia grega’ em que a comunidade da Trinity se viu envolvida nos últimos meses. ‘Somos um povo humilhado, e as feridas do nosso encontro com a história deixaram cicatrizes na nossa alma. A Bíblia é clara: somos pressionados por todos os lados, mas não fomos destruídos!’

É essa declaração de resistência e superação, ao mesmo tempo em que agradecem ao Senhor com uma celebração de êxtase coletivo, que dá o tom trágico, desesperado e heróico do culto. Aqui, Deus foi transformado em estratégia de luta e mobilização social. Enquanto as outras igrejas pregam a obediência, a Trinity aprendeu a fazer o elogio da rebeldia, em reação à segregação.

Daí a catástrofe de constatarem o óbvio e o irreversível: que Obama só tinha alguma chance de se eleger presidente de um país como os EUA depois de se desvencilhar do reverendo Wright e de sua igreja. A igreja inteira canta e dança sem parar, ao som de spirituals, freedom songs, folk e até jazz, por quase três horas seguidas. O mezanino sacode. A igreja parece vir abaixo, os pastores pingam de suor, as pessoas dançam, cantam e batem palmas. Mulheres tremem na platéia, numa espécie de transe, e são reconfortadas por vizinhos e vizinhas. Agradecem ao Senhor e choram.

A incorporação de formas do misticismo africano como modo de resgate cultural das origens é deliberada e bem-vinda, ao contrário das congregações negras mais conservadoras, como a evangélica The Potter’s House, em Dallas, no Texas, a maior igreja negra dos EUA. No South Side de Chicago, o reverendo Moss termina seu sermão de domingo invocando grandes homens que permaneceram à sombra da história, às margens da grandeza, sempre fiéis a sua visão.

É difícil não ver aí uma referência à própria relação entre o reverendo Wright e Barack Obama. Uma referência que traduz a visão da igreja: a tragicomédia de um pai espiritual que, por sua radicalidade inconveniente, é obrigado a se recolher à sombra para que o filho possa vencer num mundo injusto”, conclui o relato Bernardo Carvalho.

O rompimento de Obama com o reverendo Jeremiah Wright é explicado por Dwight Hopkins, especialista em teologia negra e teologia da libertação negra da Universidade de Chicago. Segundo o teólogo, “a maior parte da mídia norte-americana não tem conhecimento suficiente sobre a igreja negra nos EUA e sua imbricação com a política”.

Dwight Hopkins, referindo-se a Obama e ao reverendo Dwight Hopkins, explica que o problema são as biografias: “Os dois homens têm duas histórias de vida, experiências e personalidades diferentes. O pai de Obama era da África, sua mãe, uma mulher branca de Kansas. Os dois se encontraram no Havaí, que é um dos lugares mais multiculturais, multiétnicos e multirreligiosos dos EUA. É nesse ambiente que Obama cresceu. Sua opinião sobre o que os americanos são é baseada em interações multiculturais, esperança de pessoas vivendo juntas. Já Wright é um pastor de terceira geração, que cresceu ouvindo falar de escravidão, dos 40 acres e uma mula que foram prometidos aos negros libertos. Cresceu na parte negra da Filadélfia na época do assassinato de Martin Luther King, da ascensão dos Panteras Negras, trabalhou na campanha pela eleição do primeiro prefeito negro de uma cidade grande nos EUA. Ele vê o país não pelo que o país pode ser, mas pelo que viveu. Eles vêem dois países diferentes”.

Segundo Dwight Hopkins, Obama representa uma nova geração de líderes negros, multiculturais e birraciais. “O DNA deles é diferente do dos líderes negros de velha guarda como Wright acha que todo negro que disputa um cargo público tem de basear seu programa na plataforma negra, enquanto Obama acha que o caminho é pensar nos problemas gerais da população americana, entre eles a desigualdade racial”.

Enfim, em plena contemporaneidade, quando se pensava que Deus estava morto, ou pelo menos, empurrado para o seu cantinho, ele ressuscita. Ressurreição de Deus é o título de uma grande reportagem publicada, recentemente, pelo jornal argentino Clarín. Por sua vez, o espanhol e secularizado jornal El País intitulava a reportagem sobre o ‘boom’ de livros religiosos na cada vez mais laica Espanha: “Somos secularizados mas nos interessamos por Deus”.

Petrosal. Uma decisão de Estado

Em novembro de 2007 o governo anunciou a descoberta de uma mega-jazida de petróleo na Bacia de Santos batizada de Tupi. Posteriormente, se anunciou que as reservas se estendem do Espírito Santo a Santa Catarina, e engloba três bacias (Espírito Santo, Campos e Santos), numa extensão aproximada de 800 quilômetros cobrindo uma área de 160 mil km2. Esse megacampo é conhecido como pré-sal, uma vez que o petróleo está aprisionado a sete mil metros abaixo da superfície nas entranhas rochosas. Tido como de alta qualidade, o petróleo está enterrado sob dois quilômetros de água, mais dois quilômetros de rocha e, para completar, outros dois quilômetros de crosta de sal – por isso denominado de pré-sal.

Com a descoberta dessas mega-jazidas que podem estar interligada num único campo e envolve algo entre 70 bilhões a 100 bilhões de barris de óleo, o país que atualmente ocupa o 24º lugar entre as maiores reservas petrolíferas do mundo, poderia passar para o oitavo ou nono lugar, posições hoje ocupadas por Venezuela e Nigéria. O potencial de geração de recursos com as reservas é tão grande que se teme que a Petrobrás se torne um Estado dentro do Estado, algo como acontece com a poderosa PDVSA na Venezuela que esteve por detrás da tentativa de apear do poder Hugo Chávez no fracassado golpe de 2002.

O receio da força excessiva da Petrobras se deve a dois motivos: O primeiro, ao fato de que a Petrobras é uma empresa mista, com participação de capital privado; e segundo, de que a estatal se transformaria numa empresa gigantesca, com poderes demais, podendo representar riscos no futuro. “Hoje, a Petrobras já é um outro país. Felizmente, um país amigo”, afirma, pedindo reserva, um ministro que acompanha os estudos ao falar sobre as restrições do governo em tornar a estatal poderosa demais, “maior do que o próprio Estado brasileiro”.

O que fazer com o petróleo pré-sal? A proposta que vai ganhando corpo no governo é da criação de uma empresa estatal – a Petrosal – seguindo o modelo norueguês. Apesar de o governo ainda não ter uma posição fechada sobre as novas regras para a exploração de petróleo no país, pelo menos quatro princípios já estão definidos na elaboração do modelo:

1) o petróleo do pré-sal é do Estado brasileiro e será tratado como recurso estratégico;
2) o país não vai ser um exportador de óleo bruto, mas de derivados de petróleo;
3) os recursos gerados pelo pré-sal serão aplicados preferencialmente em educação e em ciência e tecnologia;
4) a política de royalties – pago a Estados e a municípios pela exploração de petróleo na região – será alterada para distribuir melhor essa riqueza.

O presidente Lula em tom nacionalista, lembrando os tempos da campanha ‘O petróleo é nosso’ afirmou que o “Petróleo não pode ficar na mão de meia dúzia”. Em evento da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante a semana, disse que os lucros com a exploração do petróleo nas reservas recém-descobertas devem ser usados para “resolver definitivamente os problemas da educação”. “Esse patrimônio que está a 6.000 metros de profundidade é da União, de 190 milhões de brasileiros. Precisamos utilizá-lo para fazer reparação aos pobres deste país”, disse o presidente.

Segundo Lula, as recentes descobertas de petróleo na camada pré-sal farão com que o país não apenas assegure sua auto-suficiência no produto como transformarão o Brasil em exportador. “Mas não queremos exportar petróleo cru. Queremos exportar material com valor agregado. Por isso vamos fazer duas grandes refinarias, uma de 600 mil barris/dia e outra de 300 mil barris/dia, para que a gente possa exportar gasolina premium e diesel de qualidade”.

Uma disputa por poder econômico e político

O debate de fundo diz respeito sobre a participação ou não do capital privado na exploração do pré-sal. Atualmente o modelo de exploração do petróleo brasileiro, depois da quebra do monopólio realizado pelo governo Fernando Henrique Cardoso, permite a possibilidade de participação do capital privado a partir do modelo de concessão no qual as empresas disputam uma área e pagam por ela em leilões. Depois disso, todo petróleo é das petrolíferas, que pagam taxas pelo produto retirado.

A resistência do governo a uma participação efetiva do capital privado deve-se ao fato de que a Petrobras tem cerca de 70% das suas ações nas mãos de investidores privados e elas são negociadas na Bolsa de Nova York. Por essa razão, os imensos lucros que a exploração futura do pré-sal vai gerar enriqueceriam esses investidores e não o País como um todo. Apenas o mega-investidor George Soros tem R$ 1,3 bi na Petrobrás. O bilionário Soros vem aumentando seu portfólio em ações de mineradoras e commodities. No primeiro trimestre, o fundo do investidor comprou papéis de empresas como a brasileira Vale e a canadense Talisman Energy, de petróleo e gás.

O presidente Lula além do discurso proferido durante ato no terreno da UNE e da UBES, na Praia do Flamengo no Rio de Janeiro onde anunciou verbas para a reconstrução da entidade, na mesma semana em um evento na Vale do Rio Doce afirmou que “é preciso parar de fazer burrice”.

O presidente reafirmou que os megacampos são da União, não da Petrobras. E defendeu a aplicação dos recursos do pré-sal na educação: “Quem quiser tirar petróleo aqui vem e pode tirar tudo o que quiser? Não. Deus não nos deu isso para que a gente continuasse fazendo burrice. Deus fez um sinal para nós, deu mais uma chance para o Brasil”, disse Lula.

A afirmação de Lula deve ser compreendida no embate que se faz sobre a criação ou não de uma nova estatal – a Petrosal – para gerir a exploração das reservas do pré-sal. A oposição à idéia de uma estatal para o petróleo do pré-sal vem de duas frentes: numa delas dos setores privados e acionistas, e noutra de especialistas. Para se criar uma nova estatal faz-se necessário alterar a Lei do Petróleo.

A disputa é de poder econômico e político. Tamanha disputa não é animada por ninharia: entre os especialistas, firmou-se o consenso de que o potencial do pré-sal pode chegar a 90 bilhões de barris. Em valores, tomando como base o barril a US$ 100, haveria sob o sal um tesouro de US$ 9 trilhões, quase o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA.

Multinacionais do setor do petróleo e a Agência Internacional de Energia (AIE) criticam projetos de mudança na Lei do Petróleo brasileira e dizem que o País precisará de investimentos externos para conseguir retirar os recursos no subsolo marinho. Para entidades e executivos das maiores empresas do mundo, nacionalismos de forma geral não ajudam a atual situação no mercado do petróleo.

Há um mês, grupos fortes do mundo do petróleo alertaram o Brasil sobre a mudança nas leis. “Numa revisão das questões fiscais dos contratos para as próximas reservas, o governo precisa entender que ainda é cedo para promover grandes mudanças”, disse o presidente mundial da multinacional Exxon, Rex Tillerson. Segundo ele, as descobertas no Brasil vão exigir um volume de investimentos jamais usado em outras reservas nas últimas décadas.

“Sei que os brasileiros e seu governo querem extrair petróleo (das novas reservas). Mas não podem colocar leis que vão dificultar isso. Vamos mostrar nossa visão ao governo”, disse Tillerson. “Quando os preços do petróleo estão altos, há uma tendência de se cortar alianças. Precisamos resistir a isso. Nacionalismos não são bons para ninguém”, completou.

Por outro lado, acionistas da empresa ameaçaram um levante contra a nova estatal. O presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) do Rio, Luiz Fernando Lopes Filho, falou em “complô” estatizante e sugeriu um recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) caso a Petrobras seja prejudicada.

Corroborando a gritaria dos acionistas, Giuseppe Bacoccoli, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que “a descoberta do pré-sal foi da Petrobras. Os direitos do descobrimento são da Petrobras. Aliás, são dos acionistas da Petrobras. Como fica o acionista nessa situação? A idéia de criar uma estatal é absurda”, diz ele, diz Giuseppe Bacoccoli.

A estratégia do governo para o pré-sal

O governo já tem definidas quatro grandes linhas estratégicas para a exploração de petróleo na camada do pré-sal:

1) serão garantidos os blocos já leiloados e respeitados os contratos assinados;
2) não será mais concedido à iniciativa privada ou à Petrobrás nenhum novo bloco nessa área ou na franja do pré-sal, pois decidiu-se que o regime a ser adotado será o de partilha de produção;
3) será mesmo criada uma empresa estatal, não operacional, para gerir todos os contratos de exploração do pré-sal;
4) o Brasil terá um regime misto de exploração do petróleo, sendo de concessão para áreas de alto risco exploratório e de partilha de produção para o pré-sal.

Na proposta do governo, a nova estatal não vai concorrer com a Petrobrás nem com as demais companhias petrolíferas, nacionais ou estrangeiras, mas, na prática, as novas regras não mais permitirão que empresas privadas tenham concessões para explorar o petróleo em campos do pré-sal. A ordem do Planalto é: “Descobertas futuras ficam totalmente com a União e com o Brasil”.

Segundo a imprensa, Lula já orientou Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobrás, a mostrar aos acionistas da empresa que essa política para o pré-sal será adotada como “decisão de Estado”, e não de maneira unilateral pela Petrobrás.

A decisão do Brasil em retomar o monopólio sobre as novas reservas é uma tendência internacional. Olivier Appert, um dos maiores especialistas europeus sobre o tema afirma que “as mudanças no marco regulatório de exploração de petróleo na camada de pré-sal incluirão o Brasil entre os países que vivem a nova onda mundial de nacionalismo energético, como Rússia, Venezuela, Bolívia e Irã”.

Segundo ele, a alteração nas regrasse se deve às mudanças na relação entre o preço do barril e o custo de exploração de novas jazidas. “Quando o preço estava em baixa e a relação com o custo de exploração era alto, as multinacionais eram vistas como parceiras. Agora, com o preço chegando US$ 200, a situação se inverteu, e a decisão não me surpreende”. “A decisão de reduzir as possibilidades de exploração de petróleo por companhias estrangeiras, na prática, confirma a evolução da política internacional do setor”, disse Appert. “A Rússia, a Venezuela e o Irã, entre outros, também optaram por medidas que configuram nacionalismo. O Brasil acentua essa tendência”.

A estatal a ser criada pelo governo deverá seguir o modelo norueguês. Considerada pelo governo o melhor exemplo a ser seguido no setor de petróleo, a estatal norueguesa Petoro garantiu ao governo de seu país uma receita adicional de US$ 14,8 bilhões no primeiro semestre de 2008. Os recursos são destinados ao fundo soberano Government Pension Fund, também alimentado pelos impostos sobre a produção de petróleo e pela fatia do governo nos lucros da empresa mista StatoilHydro. A opção pelo modelo da Noruega, dizem especialistas, não demandará grandes mudanças na atual Lei do Petróleo no Brasil.

Como no Brasil, a Noruega usa o modelo de concessões exploratórias, que garante a empresas ou consórcios o direito de explorar e produzir o petróleo encontrado em blocos cedidos pelo governo, que é compensado com uma carga tributária que chega a 78%. A diferença entre Brasil e Noruega é que não há leilões de petróleo no país nórdico. Lá, o escritório responsável pelas concessões avalia as propostas de empresas interessadas e escolhe o concessionário segundo critérios como expertise técnica, capacidade financeira, conhecimento geológico, experiência na Noruega ou em bacias similares e outros.

A principal diferença entre os países – e a que parece encantar a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff – é a existência, na Noruega, de uma companhia 100% estatal, que representa os interesses do governo no setor. Criada em 2001, a Petoro opera como um braço de participações do fundo State’s Direct Finance Interests no mercado de petróleo, com presença na área de exploração e produção e transporte de petróleo e gás.

A lei de criação da Petoro determina que a companhia tenha um máximo de 60 empregados e seu orçamento e plano de negócios sejam aprovados pelo Parlamento. A companhia divide os investimentos nos projetos em parcela equivalente à sua participação acionária, que também define sua fatia na produção.

No ano passado, os repasses da Petoro ao fundo somaram US$ 20,7 bilhões. O valor equivale a uma vez e meia o lucro da Petrobrás no período, de R$ 21,5 bilhões – dos quais apenas um máximo de 8% chega ao governo por meio de dividendos. Na Noruega, os ganhos da estatal são repassados ao Government Pension Fund, que acumula ativos de US$ 396,5 bilhões, e já foi chamada de Fundo do Petróleo (The Petroleum Fund). O objetivo do governo é fazer com que a receita com a atividade petrolífera garanta o bem-estar de futuras gerações, assegurando, entre outros fins, recursos para a previdência social.

Segundo o governo, o modelo não será simplesmente copiado se for o escolhido. Na opinião do governo seria necessário fazer adaptações à realidade brasileira. Uma delas: lá, os recursos do petróleo vão para um fundo que só investe no exterior. Dele, apenas 4% dos rendimentos podem ser aplicados no país. Aqui, a idéia é investir os recursos do pré-sal em educação e em ciência e tecnologia.

Ao defender sua proposta, Lula cita pesquisa recente sobre o ranking das dez principais universidades do mundo: oito são norte-americanas e duas britânicas. O presidente avalia que a aplicação dos recursos do pré-sal no ensino superior pode representar um salto de qualidade no setor de pesquisas do país, fundamental para a montagem de um parque industrial de alta tecnologia.

Petrosal. Uma decisão técnica, mas sobretudo política

A decisão para além de técnica é sobretudo política. Na análise do jornalista Kennedy Alencar, além dos argumentos técnicos e econômicos que o governo sustenta no debate público para justificar a mudança das regras de exploração de petróleo, um ingrediente político-eleitoral terá peso na decisão sobre o destino da riqueza dos poços da camada pré-sal.

Segundo ele, “o uso social dos recursos do ouro negro descoberto na costa brasileira vitaminará politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Lula deixará o poder ao final de 2010, antes da exploração em larga escala do pré-sal. Daí a conveniência de ficar com a marca de padrinho das novas regras ainda em seu mandato. A madrinha Dilma fortalecerá a pretensão de disputar a Presidência em 2010. Para Lula, Dilma é a melhor candidata para ganhar ou para perder – em virtude de sua provável fidelidade no exercício futuro do poder e do empenho em defender o governo numa fracassada campanha presidencial”.

De acordo com o jornalista, “nas palavras de um auxiliar de Lula, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) é a “vitrine” para tornar Dilma conhecida. Já o pré-sal, diz ele, poderá ser o “palanque” em 2010. Um estrategista político do PT diz que Dilma, por ser ex-ministra de Minas e Energia, tem afinidade técnica com a área energética. E isso, afirma, facilita a tarefa de Lula de ligá-la “positivamente” ao pré-sal. É o movimento que o presidente já vem fazendo”.

Não incomodam o Palácio do Planalto as críticas do mercado, de acionistas minoritários da Petrobras, de empresas multinacionais e de setores da oposição à eventual criação de uma nova estatal petrolífera e à revisão das regras de exploração de setor. Em conversa reservada, o presidente disse que não recuará e que enfrentará o debate político para aprovar o novo modelo de exploração do pré-sal no Congresso, destaca o jornalista Kennedy Alencar.

Na avaliação do Palácio do Planalto, o pior momento de embate político já passou. O governo esperava uma reação dura do mercado e de empresas multinacionais em novembro passado, quando retirou de leilão os lotes do pré-sal. Lula e seus principais ministros acreditam que a oposição cairá numa armadilha política se ficar contra as novas regras de exploração do petróleo. Um auxiliar presidencial faz uma comparação com o Bolsa Família. A oposição se rendeu politicamente ao principal programa social do governo depois de tê-lo atacado no primeiro mandato do petista.

Em novembro passado, partiu diretamente de Lula a ordem para a retirada de 41 blocos da megarreserva da bacia de Santos da 9ª Rodada de Licitações. Na época, a cúpula do governo discutiu se valia a pena o desgaste perante o mercado de uma decisão desse tipo. Havia temor de um tiro pela culatra, mas Lula decidiu e bancou a suspensão do leilão desses lotes.

Hoje, um ministro diz que o governo se surpreendeu com o baixo teor de críticas àquela decisão. Segundo ele, elas duraram poucos dias. Esse ministro contabilizou até apoio de jornais internacionais à decisão. Foi então que Lula decidiu usar a riqueza do pré-sal para o que se chama no Palácio do Planalto de um plano estratégico para o país. O presidente sentiu, diz um auxiliar, que tinha tomado uma decisão acertada, comenta Kennedy Alencar.

As prioridades do governo

Hoje, está amadurecido na cúpula do governo que a educação deva receber prioritariamente os futuros recursos que a União abocanhará com a exploração em larga escala do pré-sal. Em segundo lugar, investimentos em ciência e tecnologia. Em terceiro, capitalização do fundo soberano (financiamento de projetos públicos e privados do Brasil em outros países, sobretudo para melhorar a integração da infra-estrutura entre os países da América do Sul). Em quarto, Previdência Social. Se for criada, a nova estatal tende a ter uma estrutura enxuta. O governo também avalia que apostará errado quem achar que a Petrobras perderá importância na exploração dos poços de petróleo do pré-sal.

Considerado um dos principais conselheiros informais do presidente Lula na atualidade, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo acredita que a riqueza do petróleo é uma “bênção” que poderá se tornar “maldição” se o governo não assumir a coordenação do processo de exploração e de investimento em setores complementares. A história econômica, lembra Belluzzo, mostra que invariavelmente países ricos em recursos naturais tendem à desindustrialização – situação descrita nos livros de economia como “doença holandesa”.

Para evitar esse tipo de epidemia, diz Belluzzo, o governo pensa em criar uma empresa estatal ao estilo da Noruega, que seja capaz de planejar o ritmo de exploração das reservas e, ao mesmo tempo, induzir outros ramos da indústria a trabalharem juntos no fornecimento de equipamentos, plataformas e navios.

Do lado fiscal, acredita o economista, o Brasil deve aproveitar as receitas do petróleo para usá-las como antídoto contra crises externas, investir em políticas que beneficiem as gerações futuras e promover uma reestruturação tributária.

A denúncia da Aepet

Outro tema co-relacionado à polêmica da criação da Petrosal foi levantado esta semana pela Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet).

A Aepet acionou o Ministério Público Federal para questionar um contrato firmado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) com a empresa norte-americana Halliburton – que já foi presidida pelo vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, e é alvo mundial de protestos por conta de obras bilionárias no Iraque. A Landmark Digital and Consulting Solutions, subsidiária da Halliburton no Brasil, é responsável pelo gerenciamento do Banco de Dados de Exploração e Produção (BDEP) da ANP desde 2001.

Em dezembro de 2005, a diretoria da agência aprovou a renovação do contrato, sem licitação. Em nota, a ANP informou que o sistema de gerenciamento de dados da Halliburton já era utilizado pela Petrobras quando foi transferido para a agência, em 2000. O BDEP é o principal banco de dados sobre as atividades de pesquisa e exploração de petróleo no país. Reúne todas as informações coletadas pela Petrobras e por empresas privadas em bacias, campos e poços. Esse acervo ficou ainda mais valioso depois da descoberta do campo de Tupi, anunciado em novembro do ano passado e que descortinou um imenso potencial de exploração na costa brasileira. Só para Tupi, são estimadas reservas de até 8 bilhões de barris.

No BDEP, ficam armazenados os dados de sísmica (que indicam o caminho para a perfuração e a localização dos reservatórios de petróleo) e as informações relativas aos métodos usados nas pesquisas. As empresas são obrigadas a enviar esses dados à ANP. Muitas dessas informações são sigilosas – a divulgação só é permitida após determinado prazo, que pode chegar a cinco anos, dependendo da informação.

“Sempre questionamos esse contrato, mas agora, com a descoberta do pré-sal, o acesso aos levantamentos feitos pela Petrobras passa a ser uma questão crucial. É resultado de 30 anos de pesquisas. E não sei se essa informação está segura sendo administrada pela Halliburton”´, diz Fernando Siqueira, diretor da Aepet.

O gerenciamento dos dados é feito por meio de um sistema chamado “petrobank”´, que foi desenvolvido pela IBM e depois comprado pela empresa PGS Data Management. Originalmente, o contrato da ANP foi firmado com a PGS. Mas, em 2001, a empresa norueguesa foi comprada pela Halliburton – que herdou o banco de dados da ANP.

O diretor da Aepet afirma que a questão é de segurança de informações estratégicas: “O diretor da ANP hoje responsável pelo banco de dados é um ex-diretor da própria Halliburton (Nélson Narciso, nomeado em 2006)”, diz Siqueira.

A conjuntura da semana em frases

Política

“Lula não compra briga. Não gosta de briga nem de graça. É sentimental, homem de coração, cordial, adepto da “realpolitik” brasileirinha. Lula conciliou na política monetária. Gasta muito, mas não estoura as contas públicas. Comprou as centrais sindicais. Apóia a “internacionalização” da grande empresa nacional. Patrocina a reorganização do grande capital por meio do apoio a fusões e aquisições. Pacificou a massa miserável com benefícios sociais. Cativou o agronegócio. Etc. Em quase tudo enfiou uma cunha neoestatal ou o social-negocismo do PT. Mas com jeitinho. A coisa seria mais salgada no caso do petróleo?” – Vinicius Torres Freire, jornalista – Folha de S. Paulo, 17-08-2008.

“Espero que ele ganhe bastante dinheiro para alguém ficar rico nesta família. Porque na política só corrupto fica rico. No futebol, dá para ganhar dinheiro sem fazer sacanagem” – Luciana Genro, candidata à prefeitura de Porto Alegre – PSOL – falando sobre o filho Fernando, 20 anos, centroavante júnior do Grêmio, prestes a ser vendido para um time da Europa – Zero Hora, 18-08-2008.

Lei de Anistia

“Toda vez que falamos dos estudantes e operários que morreram, falamos xingando alguém que os matou. Esse martírio nunca vai acabar se a gente não aprender a transformar os nossos mortos em heróis, não em vítimas” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo, 13-08-2008.

“Os comandantes militares carregam na mochila crimes alheios. (A tortura, assim como o seqüestro, pode ter sido coberta pela anistia, mas crime foi.) Não são as vítimas nem seus parentes que devem calar. São os comandantes que devem se acostumar ao convívio com a história” – Elio Gaspari, jornalista, Folha de S. Paulo, 13-08-2008.

“O presidente sempre sabe o que faz. O assunto está encerrado” – Juniti Saito, comandante da Aeronáutica, falando sobre a proposta de Tarso Genro sobre os crimes de tortura praticados pela ditadura militar – O Estado de S. Paulo, 13-08-2008.

A forma altissonante e fútil com que o presidente da República encerrou o debate (no discurso na antiga sede da UNE, destruída pela ditadura) mostra a força do medo, como se o poder civil desconfiasse dos militares e os ilhasse numa redoma, longe de tudo” – Flávio Tavares, jornalista – Zero Hora, 17-08-2008.

““Se Rubens Paiva foi jogado de um helicóptero na Baía de Guanabara, é preciso saber que oficiais comandaram a ação, a identificação do helicóptero, quem o pilotava” – Paulo Vannuchi, ministro da Secretaria de Direitos Humanos – O Estado de S. Paulo, 19-08-2008.

Economia

“Eu falei para o Agnelli: o Brasil não pode se dar ao luxo de se transformar em importador de aço. O maior exportador de minério do mundo é importador de aço. É como se tivéssemos que comprar feijão para comer. É como se vocês aqui do Pará fossem comprar açaí de São Paulo” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Globo, 15-08-2008.

Petrosal

“Eu não tenho inveja da Noruega porque lá tem petróleo ou tecnologia. Eu tenho inveja porque a renda per capita lá é de US$ 76 mil (por ano). Quem sabe, com mais o pré-sal, a gente possa fazer com que a renda per capita suba e faça o povo brasileiro mais feliz” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo, 15-08-2008.

“Precisamos resistir a isso. Nacionalismos não são bons para ninguém” – Rex Tillerson, presidente da Exxon, criticando as mudanças no marco regulatório de exploração de petróleo na camada de pré-sal – O Estado de S. Paulo, 15-08-2008.

“O assunto petróleo, o mitológico “ouro negro”, é a seiva de todas as conspirações. São muitos os que sempre acreditaram que ele existia; outros tantos, mais inocentes, pensavam que era nosso. Mas não se pode confiar em mais ninguém, até a Petrobras, quem diria, é tida como uma empresa estrangeira e globalizada” – Gustavo Franco, ex-presidene do Banco Central – Folha de S. Paulo, 16-08-2008.

“A Petrobras tem 65% do campo de Tupi (8 bilhões de barris) e a União tem 40% do capital da Petrobras, logo o povo tem apenas 26% daquele poço” – um dos ministros da comissão do pré-sal explica a proposta de criar a Petrosal – O Globo, 17-08-2008.

América Latina

“Evo Morales está mais legitimado do que qualquer dos outros ganhadores. Afinal, o presidente obteve cerca de dez pontos percentuais a mais do que na eleição presidencial de 2005. Única leitura possível, de resto óbvia: há mais bolivianos que aprovam Evo hoje do que os que nele votaram em 2005, apesar de todo o alto grau de conflitividade em seus dois anos e meio de gestão” – Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 13-08-2008.

“Fernando Lugo, um presidente sem salário, de sandálias e sem primeira dama” – título de primeira página do boletim eletrônico espanhol – Periodista Digital – 15-08-2008.

“Lugo referendou a sua opção pelos pobres” – título do jornal argentino – Página/12, 16-08-2008.

“Lugo chega com a utopia da velha esquerda católica, para rezar na missa de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales, que vêem o Brasil como um “ianque tupiniquim”, culpado por todos os erros e desigualdades” – Eliane Cantanhêde, jornalista – Folha de S. Paulo, 14-08-2008.

“Ele (Fernando Lugo) consegue dar um tapinha nas costas da burguesia e uma piscadela para o militante de esquerda” – Alfredo Boccia Paz, cientista político – O Estado de S. Paulo, 15-08-2008.

“Lugo prometeu muito para o povo. Se cumprir a metade do que prometeu, já está bom. Mas os que estão saindo lhe estão deixando problemas. Os colorados são malandros” – Celestina, apertada dentro de um ônibus que vai da cidade de Luque até Assunção – Página/12, 15-08-2008.

“Lugo já disse que não irá morar em Mburuvichá Roga (palácio presidencial), porque é muito luxuoso. Ele é um homem simples, honrado. Isto está claro, e por isso votamos nele” – mulher viajando num ônibus, lotado, que vai da cidade de Luque até Assunção – Página/12, 15-08-2008.

“Semana passada, na posse de Fernando Lugo, dois jatinhos ficaram o tempo todo, um ao lado do outro, no aeroporto de Assunção. Um modelo francês (Airbus), a serviço de Lula. Outro, brasileiro (Embraer), à disposição de Rafael Correa, do Equador” – Ancelmo Gois, jornalista – O Globo, 19-08-2008.

Ivo viu a uva

“Só há uma explicação para o porta-voz da Arquidiocese de SP, padre Juarez de Castro, condenar com veemência a Carol Castro por aparecer nua com um terço na mão na “Playboy”: Ivo viu a uva. Como ex-coroinha e, acredito, o único repórter brasileiro a fazer uma entrevista exclusiva com João Paulo II, aviso: se a Igreja excomungar a atriz, vou para a Universal. E ainda levo o Aécio comigo, e aí quero ver quem vai recuperar as igrejas de Minas!” – Jorge Moreno, jornalista – O Globo, 16-08-2008.

(www.ecodebate.com.br) análise publicada pelo IHU On-line, 20/08/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



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