Mandacaru, um remédio paliativo, artigo de Juracy Nunes

Publicado em outubro 22, 2012 por

Tags: agricultura, semiárido

 

[EcoDebate] Mandacaru é uma planta arbustiva, xerófita, nativa do Brasil, disseminada no Semiárido do Nordeste. Pertence à família das cactáceas, gênero cactus ou cacto e o nome científico da espécie é Cereus Jamacaru, conhecida também na região em destaque pelo nome “cardeiro”. A cactácea nasce e cresce no campo sem qualquer trato cultural. A semente espalhada pelas aves ou pelo vento, não escolhe lugar para nascer. Até sobre telhados de casas rurais pode-se ver pé de mandacaru. O crescimento fica na dependência dos nutrientes do solo em que germina. A espécie típica do Bioma Caatinga pode atingir 5 até 6 metros de altura. Adaptada a viver em ambiente de clima seco, com quantidades de água reduzidas, suas folhas se transformaram em espinhos que são elementos de defesa frente aos animais herbívoros. Por ter espinhos no lugar das folhas não faz sombra nem dá encosto para pessoas ou bichos. Com base nessas características morfológicas, gerou-se uma sentença popular. Quando alguém quer detrair pessoa destituída de espírito solidário, usa o seguinte simbolismo verbal: “fulano é igual a mandacaru, nem dá sombra nem encosto”.

Fig. 1 - Pé de Mandacaru
Fig. 1 – Pé de Mandacaru (Cereus Jamacaru), foto do autor

Suas raízes são responsáveis pela captação de água no lençol freático. O caule ou tronco colunar serve de eixo de sustentação e sua parte central, o miolo, contém vasos condutores da água e outras substâncias vitais à planta. Lateralmente ao caule, saem peças articuladas facetadas cuja morfologia lembra um candelabro. A parte externa seja do tronco ou das brotações laterais, é protegida por uma grossa cutícula que impede excessiva perda de água por transpiração. As flores desta espécie de cacto sãobrancas, muito bonitas e medem aproximadamente 12 cm de comprimento. Desabrocham à noite e murcham ao nascer do sol. Alimentam as abelhas, especialmente de arapuá. Seus frutos têm uma cor violeta forte, um formato elipsoide, alcança 15 cm de comprimento e 12 cm de diâmetro em média. A polpa é branca com sementes pretas minúsculas, que servem de alimento para diversas aves típicas da Caatinga, a exemplo da gralha-cancã, popularmente conhecida por canção, e periquitos – da – Caatinga.

 

Fig. 2 - Flor do mandacaru. Foto de autor desconhecido

Fig. 2 – Flor do mandacaru. Foto de autor desconhecido                                  

 

Fig. 3 - Fruto do mandacaru
Fig. 3 – Fruto do mandacaru. Foto do autor

 

Dentre as utilizações da planta, o mandacaru se mostra versátil. A espécie tem sua defesa natural ante a formiga e é resistente à cochonilha do carmim, doença que mata a palma forrageira. É utilizado na ração animal em tempos de crise. De acordo com a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (2007), “o destaque dessas plantas consiste na eficiência do uso de água convertida em matéria seca (MS), baseado em seu mecanismo fotossintético especializado, o Metabolismo Ácido Crassuláceo (MAC),” permanecendo suculenta durante a seca, produzindo continuamente forragem1. No Estado Paraná (UTFPR) mandacaru também abre um novo caminho para otratamento de água e já dá sinais de redução da poluição ao final do processo2. Na conexão homem – vegetal o mandacaru aparece como planta ornamental especialmente o mandacaru sem espinho. Há referências na literatura de uso medicinal da cactácea e utilização da fruta como alimento humano.

A forragem para ser melhor aproveitada pelos animais, precisa ser cortada e os espinhos eliminados, através da queimação. Um bom rendimento é alcançado passando o segmento já sem espinho na máquina forrageira. Até chegar ao cocho dos animais a ração tem percorrido um longo caminho. O crescimento é lento; o custo da mão de obra no processamento com o corte, transporte, queima do espinho, e trituração do material é muito alto. Adicione-se ainda, como inconvenientes, risco de acidentes de trabalho no preparo da ração e o impacto ambiental. Essas condições merecem atenção da Medicina do Trabalho e da Ecologia. Todavia, o maior impacto que se vislumbra é o social, advindo com a possibilidade da extinção da espécie, que precisou de milhões de anos para ser adaptada ao clima semiárido.

Mandacaru é tema de manifestações culturais em todo Nordeste. Foi título de novela da extinta Rede Manchete de Televisão. O Xote das Meninas, música de Luiz Gonzaga - “mandacaru quando fulora na seca” - faz analogia entre a fase da puberdade e o surgimento da flor pouco antes da chagada das chuvas no sertão. A poesia, o romance, o folclore e a prosa sertaneja são extremamente ricos em referências às três espécies vegetarianas do semiárido. O mandacaru de quem a natureza tirou as folhas para guardar mais água; a braúna com sua dureza que simboliza a resistência do homem do sertão e o juazeiro que dá sombra o ano inteiro para abrigar gente e bicho na inclemência do sol. Sítios, povoados, bairros, cidades são batizados com o nome Mandacaru.

E a saúde da planta?

No sertão, a cactácea que resiste à seca é considerada planta de alto nível de sanidade. Pesquisadores da Embrapa do Estado do Ceará3 comentaram que “a despeito de sua aparente rusticidade o mandacaru pode ser afetado por inúmeros patógenos”. Segundo o comunicado técnico, intitulado “Patógenos Associados ao Mandacaru”, várias doenças provocadas por fungos são identificadas no mandacaru, entre elas a Podridão – Azul, a Antracnose. Em nossa caminhada olhando pés de mandacaru no Sítio Mocó, do município de Monteiro/PB, não vimos doenças semelhantes às citadas, todavia, encontramos plantas doentes com lesões necróticas conforme figuras a seguir e que precisam ser estudadas com suporte laboratorial.

Fig. 4 - Doenças do mandacaru
Fig. 4 – Doenças do mandacaru. Foto do Autor

Fig. 5 – Doença do mandacaru.
Fig. 5 – Doença do mandacaru.

 

Além da seca, do desmatamento, das doenças, as cactáceas correm risco de extinção por atividade predatória do homem. É comum em momentos de crise, o sertanejo utilizar a planta como ração animal. Pedro Nunes Filho, no artigo “Tempos Cruéis”4, faz referência a um crime ecológico com queima indevida do mandacaru. “Desesperados, os pecuaristas tentam salvar pequenos rebanhos, assando mandacaru, prática secular utilizadas nas grandes secas. Como não existe mão de obra disponível, na hora de socorrem-se do cacto miraculoso, alguns criadores queimam os espinhos utilizando lança-chamas direto no pé de mandacaru, o que causa a morte imediata da planta forrageira salvadora, podendo até mesmo levar a espécie à extinção. Consta que autoridades do IBAMA andam proibindo a utilização de mandacaru para alimentar rebanhos de gado, qualquer que seja a forma de colher o cacto. E agora? Sinceramente, não vejo saída”, comenta o autor.

Não vimos indícios de queima de mandacaru no pé por onde andamos, mas “onde há fumaça há fogo”. Se existe publicação sobre essa prática condenável, precisamos ficar atentos e alertar o homem do campo sobre o dano ecológico, pois queimar mandacaru no pé é um crime socioambiental igual a queimar um juazeiro cuja sombra é uma dádiva da natureza. Para os pecuaristas sertanejos, relembrar os conhecimentos rudimentares da botânica, o lado romântico da planta, ou a sua patogenicidade não é a prioridade do momento. Em anos de bom de inverno, a planta fica no mato como reserva a ser usada na seca. Mas, a dureza do tempo presente, em três anos seguidos de pluviosidade abaixo da média, com os açudes secos, com a extinção da palma forrageira dizimada pela praga da cochonilha do carmim, com a morte da pastagem nos terrenos altos e nas várzeas, volta o povo a dizer: “chegou a hora da onça beber água”.

Infelizmente, retornaram lembranças indesejadas, de anos difíceis, de secas devastadoras em que os juazeiros (ZiziphusJoazeiro) e as cactáceas, foram utilizados até a exaustão para salvar animais. Nas propriedades rurais do Cariri Paraibano é fácil encontrar um amontoado de mandacaru cortado junto à lenha que acende o fogo e um homem com um espeto enfrentando a labareda. O retorno ao passado só não é mais trágico, pela existência atual dos poços profundos e da eletrificação rural. As consequências da seca são perversas, degradam o perfil socioeconômico dos habitantes do lugar e comprometem o patrimônio natural.

Conversei com um pequeno criador de gado bovino no Sítio Bom Jesus, no município de Monteiro/PB, a respeito da insalubridade e periculosidade de trabalhar queimando espinho. Da conversa resultou a seguinte frase: “Doutor eu não tenho pra onde correr. Se não fosse o mandacaru, que eu cato aqui e acolá, eu não ia ficar com uma só rês pra semente”. Falei com outro trabalhador rural sobre o mesmo assunto e ele revelou : se não fosse o mandacaru eu estaria demitido porque nesta fazenda não tem outra coisa para fazer. Este serviço é pesado, mas como diz o ditado: “ruim com ele pior sem ele”. Das conversas tiramos os seguintes questionamentos: uma forragem escassa e laboriosa é compensatória? E os nutrientes são suficientes para a alimentação dos animais?

O resultado das análises laboratoriais mostra que o cacto isolado é uma fonte incompleta de alimentos. É necessário ofertar, conjuntamente, alimentos fibrosos que previnam distúrbios digestivos dos animais e alimentos que tenham maior suporte protéico. Uma alternativa seria comprar ração suplementar. A compra de ração está limitada a quem dispõe de renda oriunda de outra fonte que não seja o campo e o motivo é o desequilíbrio custo x benefício. Um saco de 60 kg de milho por R$ 52,00; um saco de farelo de soja de 50 kg custando R$ 80,00; um saco de 50 kg de torta (farelo de caroço de algodão) por R$ 57,00; um saco de farelo de trigo com 30 kg por R$ 32,00; um quilo de cama de galinha por R$ 0,40, um quilo de bagaço de cana de açúcar por R$ 0,20 e uma vaca parida com sua cria, valendo apenas R$ 400,00, são dados de mercado que levam à falência, qualquer criador que por motivos diversos insista em comprar ração para manter vivos seus animais. Lembrando que a pesquisa foi realizada por base em cotação de preço durante o mês de outubro de 2012, no município de Monteiro/PB.

Para afastar o fantasma da escassez da cactácea, a solução é o reflorestamento. Reflorestar é atividade agrária que requer recursos financeiros vultosos e mudança cultural do homem do campo, que não tem costume de plantar mandacaru seja na seca ou no inverno. A suplementação da forragem é o grande obstáculo a vencer no momento.

 

 

Fig. 6 Tronco de mandacaru cortado a altura de 2m
Fig. 6 Tronco de mandacaru cortado a altura de 2m.

 

Fig.7 Transporte do mandacaru em carroça de jumento
Fig.7 Transporte do mandacaru em carroça de jumento

 

Fig.8 Transporte do mandacaru em carroça de jumento
Fig.8 Transporte do mandacaru em reboque

 

Fig. 9 Mandacaru cortado e lenha para a fogueira
Fig. 9 Mandacaru cortado e lenha para a fogueira.

 

Fig. 10 Galho de mandacaru suspenso com espeto para queima do espinho
Fig. 10 Galho de mandacaru suspenso com espeto para queima do espinho.

 

Fig. 11 Trituração do mandacaru na máquina forrageira
Fig. 11 Trituração do mandacaru na máquina forrageira.

 

Fig. 12 Queima do espinho com lança chamas
Fig. 12 Queima do espinho com lança chamas.

Fotos do autor.

 

A utilização do mandacaru sem outros elementos de forrageamento é um remédio paliativo que alivia, mas não resolve a carência nutritiva dos animais em tempo de seca.

 

Referências

  1. UTILIZAÇÃO E MANEJO DO XIQUEXIQUE E MANDACARU COMORESERVA ESTRATÉGICA DE FORRAGEM. Disponível em: www.emparn.rn.gov.br/Acesso em:out 2012.
  2. COM MANDACARU NÃO TEM ÁGUA TURVA. Disponível em: http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/biodiversa/com-mandacaru-nao-tem-agua-turva. Acesso em: out 2012.
  1. PATÓGENOS ASSOCIADOS AO MANDACARU (Cereus Jamacaru). Disponível em: www.cnpat.embrpa.br/cnpat/cd/jss/acervo/Ct­_148.pdf. Acesso em: out 2012
  2. TEMPOS CRUÈIS. Folha – PE | Edição Impressa. Disponível em: www.folhape.com.br/cms/opencms/folhape/pt/…/20…/0065.html . Acesso em: out 2012.

Dados do autor
Juracy Nunes é médico e pequeno produtor rural em Monteiro/PB.
End. Rua Desembargador Feitosa Ventura, 30 Centro – Monteiro/ PB
CEP 58500-000
E- mail: juracysnunes@gmail.com ,
F. (83) 3351.2257

 


Foto de Juracy de Sousa Nunes – 2011

 

EcoDebate, 22/10/2012

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Comentários (2)

 

  1. francisco negrao disse:

    Parabens pelo seu artigo Dr. Juracy. Se não se deve cortar um jacarandá na Mata Atlântica por que cortar mandacacu na caatinga? O valor ambiental das duas plantas precisam ser os mesmos para a educação ambiental.

  2. laura r soares disse:

    Ótima matéria, Dr.Juracy, eu ouvi falar do mandacaru, mas ainda não sabia nada sobre as formas de utilização muito menos sobre o risco de extinção. Procurarei mais informações sobre o assunto.