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Artigo

As contradições e as gravidades do agronegócio nos Cerrados Maranhenses, artigo de Mayron Régis

soja no cerrado
Foto: Dida Sampaio/AE

[EcoDebate] A falta de chuva nos Cerrados maranhenses, em 2010, diverge totalmente da noção de “sobras” de terras tão redondamente divulgada pela mídia e pelo agronegócio nos últimos anos como se fosse um axioma. Talvez a mídia e o agronegócio desconheçam o que seja um axioma, mas o entrelaçamento desses dois setores no momento atual da economia brasileira carrega de protótipos de axiomas a consagração de seus discursos perante a sociedade.

Tudo bem, o desconhecimento sobre o axioma é geral, se bem que a sociedade rende graças a essa construção da linguagem todo santo dia porque a humanidade agrava verdades que soem enclausuradas. Só mesmo nos contos de fadas que alguém muito metido ou muito curioso sai de sua rotina medíocre para salvar o mundo ou uma donzela em perigo. Ocorre o inverso no mundo real e no mundo performático em que se vive. Quanto mais se enclausura a “verdade” menos esforços se gasta para desvendar as suas contradições e as suas gravidades.

Isaac Newton, físico inglês do século XVII, internou a teoria da gravidade ao ver a queda de uma maçã. A gravidade impede que o homem saia voando pelos céus. O que vem primeiro é a constatação para depois alguém reivindicar uma verdade. Os estudos referentes ao agronegócio sempre foram incompletos e tendenciosos, ou seja, favoráveis ao plantio de monoculturas em larga escala e em grandes faixas de terra.

As variedades X, Y e Z da soja resistem à seca e as variedades K, L e M resistem à praga do inseto. Descartaram nos estudos os impactos dessas variedades em relação ao meio ambiente em longo prazo. Só o fato de que o aumento dos plantios de monoculturas nos Cerrados de alguns para cá se devem aos gastos das empresas de sementes e de agroquímicos em pesquisas redunda num impacto tremendo. E esse impacto vai ser mais sentido daqui pra frente em regiões propensas a desertificação como é o caso dos Cerrados do Maranhão, do Piaui, do Tocantins e da Bahia.

O que importa para a mídia é o axioma ou o protótipo dele. “Investidores estrangeiros exploram um terço das lavouras de soja no Maranhão” foi o título de uma matéria do Jornal da Globo em fevereiro de 2010 que ouriçou jornalistas do Brasil todo. O jornalista, no conteúdo da matéria, poderia enveredar por outras questões até colocar à prova o próprio título, mas ele esgota todas as possibilidades numa só. Os investidores provêm da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos. Arrendam terras num total de 150 mil hectares. Empresários argentinos arrendaram seis mil hectares.

Seria bom perguntar por que o produtor arrendou seus seis mil hectares para um grupo de empresários argentinos. Seria bom perguntar por que os argentinos arrendaram e não compraram. Seria bom perguntar quem vendeu essas terras originalmente, afinal o Maranhão é tudo terra pública. Seria bom perguntar, pra fechar, onde ficam essas terras que o jornalista não soube informar.

Mayron Régis é assessor do Fórum Carajás

EcoDebate, 22/03/2010

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