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Produtos à base de própolis mostram eficácia no tratamento e na prevenção de doenças bucais

 

Produtos à base de própolis mostram eficácia no tratamento e na prevenção de doenças bucais

A palavra própolis vem da junção dos termos “pró”, que significa antes, e “pólis”, que quer dizer cidade. A terminologia grega, “antes da cidade”, remete ao principal papel desempenhado pela própolis: proteger a colmeia. Graças a ela, as abelhas não adoecem e suas “casas” permanecem sempre à temperatura ideal e livres de micro-organismos e insetos invasores. Qualquer pequeno animal que tentar invadir a colmeia é embalsamado.
Isso se deve às muitas propriedades da própolis. Produzida pelas abelhas, a partir de material extraído de plantas e flores, ela é uma resina constituída de cera e mais de 400 componentes químicos.

São, entre outros, álcoois, vitaminas, minerais e principalmente flavonoides e flavonas, que inibem o crescimento de micro-organismos. Com tantos elementos, a própolis pode ser considerada um verdadeiro coquetel de benefícios. Entre outras propriedades, tem ações anti-inflamatória, antifúngica, antibacteriana, cicatrizante e anestésica.

Atentos às aplicações da resina na natureza, pesquisadores se interessaram em investigar seu uso em favor do homem. Um grupo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) estuda o assunto desde 1996 e hoje é referência mundial no uso da própolis em tratamentos de doenças bucais. São professores e estudantes das áreas de odontologia, biologia e química, coordenados pelo pesquisador e presidente da Sociedade Brasileira de Apiterapia (SBA), Vagner Rodrigues Santos.

As pesquisas começaram com o incentivo do professor Arnaldo Garrocho, na época professor da Faculdade de Odontologia da UFMG. Ele chamou a atenção para a eficácia do extrato de própolis no tratamento de micoses nos dedos dos pés. Foi então que uma aluna de odontologia resolveu testar o produto contra micro-organismos que vivem na boca, principalmente o fungo conhecido como Candida albicans, responsável pela candidose, o popular “sapinho”. É uma doença conhecida principalmente por ser comum em recém-nascidos, idosos e pacientes com comprometimento da defesa imunológica, como portadores do vírus da AIDS e transplatados de medula óssea. Foram testadas, em laboratório, 14 amostras de própolis encontradas no mercado de Belo Horizonte e sua eficácia contra micro-organismos presentes na boca. Os resultados foram positivos e os estudiosos partiram para pesquisas com pacientes.

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A própolis verde, produzida a partir do alecrim o campo, é a mais comum no Brasil

Com a parceria da farmácia de manipulação Pharmanéctar, que fornece a própolis bruta e participa de algumas pesquisas, o grupo desenvolveu um gel à base da resina para prevenção e tratamento da mucosite (inflamação da mucosa). O gel lubrifica a cavidade bucal levando mais conforto aos pacientes. Segundo explica Vagner Santos, para ter boa eficácia, a própolis precisa ser diluída em álcool, o que, no entanto, pode gerar alterações na mucosa do paciente, além de provocar ardor na aplicação. “Pensamos em algo que traga mais conforto e desenvolvemos o gel. Ele tem água e uma substância emoliente que, misturados à própolis, não alteram suas propriedades”, esclarece.

O novo produto passou a ser testado em pacientes da Clínica da Faculdade de Odontologia da UFMG. Para a pesquisa, de 2002 a 2006, foram tratados e acompanhados cerca de 30 pacientes portadores de candidose associada ao uso de dentadura. Santos explica que a candidose associada à prótese, também conhecida como estomatite protética, é uma infecção, na maioria das vezes, sem sintomas evidentes e, se não tratada, pode levar a infecções. É caracterizada por lesões vermelhas, brilhantes e indolores. Quando o paciente faz uso de dentadura, normalmente surge entre os limites da prótese e da boca.

Os pacientes foram divididos em dois grupos. Um deles recebeu tratamento com nistatina, antifúngico de uso habitual, e o outro com gel de própolis aplicado três vezes ao dia, durante dez dias. “No final desse período, observamos que os pacientes que utilizaram própolis apresentaram resultado melhor ou igual ao dos que usaram nistatina”, diz Santos.

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O pesquisador Vagner Santos estuda os diversos tipos de propólis há mais de 10 anos

Outra pesquisa avaliou a atuação da própolis contra micro-organismos causadores da cárie. A principal vilã, nesse caso, é a bactéria Streptococcos mutans que, em pessoas com alta suscetibilidade à doença, pode chegar à concentração de 1 bilhão/ml de saliva. Os testes foram feitos com 60 pacientes, acompanhados de 2003 a 2005. Após escovação com o gel durante 15 ou 20 dias, os resultados apontaram uma diminuição drástica dos micro-organismos na boca. Em alguns casos, a redução foi de 1 bilhão para 100 mil bactérias por ml de saliva.

Hoje, o gel é testado em pacientes portadores de câncer que recebem irradiação na área da cabeça e do pescoço, encaminhados do Hospital das Clínicas para a Clínica de Odontologia da UFMG. Segundo explica Santos, a irradiação provoca xerostomia (boca seca), devido a alterações nas glândulas salivares, que diminuem a produção de saliva, levando à mucosite e à candidose. “É uma lesão incômoda e pode formar úlceras, dificultando a ingestão de alimentos, provocando incômodo, dor e mal estar”, descreve o pesquisador. Com a aplicação do gel desde os dias que antecedem até os que sucedem o tratamento com irradiação, o paciente não desenvolve a candidose e conta com uma proteção extra. Atualmente, não há produto específico para esse tipo de tratamento e aqueles que podem ser utilizados não têm o mesmo efeito. “O gel é antimicótico, antibacteriano, anti-inflamatório, analgésico, traz conforto e lubrifica a boca seca”, diz.

Mas não só contra a candidose serve a própolis. Na área odontológica são muitas as doenças que podem ser tratadas com esse medicamento natural. Ela combate, principalmente, lesões de origem bacteriana e fúngica. Algumas delas são a gengivite, a periodontite, a cárie e as bolsas periodontais, sendo essas duas últimas as maiores causas de perda dentária no mundo. A bolsa periodontal se desenvolve a partir do acúmulo de micro-organismos (placa dental) que agridem a gengiva, provocando a gengivite. Se não for tratada, a doença evolui para a periodontite, com a destruição do osso e a formação de uma bolsa. Conforme destaca Santos, com o gel de própolis, em um mês, a bolsa já foi destruída e a gengiva volta ao normal.

A própolis é ainda uma boa arma contra herpes labial, acelerando o processo de cicatrização. “Se o normal seria de sete a dez dias, a própolis faz a lesão desaparecer com cinco”, diz o pesquisador. A resina também traz bons resultados quando aplicada em aftas. “Ela provoca contração das terminações nervosas e vasos sanguíneos. Dói bastante, mas depois dá alívio imediato e a cura é rápida”.

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A própolis vermelha, descoberta em 2005 na Paraíba, é foco de pesquisas sobre o cancêr

Novos produtos
Com o bom desempenho do gel, a equipe da UFMG pretende desenvolver novos produtos à base da própolis. “Pesquisadores de outras áreas estão nos procurando para tentarmos desenvolver produtos em parceria”, conta Santos. Segundo ele, a ideia é criar um medicamento que associe um ou dois tipos de própolis à outra planta medicinal, a fim de que um potencialize o outro. “Se encontrarmos duas substâncias com princípios ativos que interagem será ainda melhor”, diz. O pesquisador adianta que, em breve, terá início um projeto que inclui a fabricação de enxaguantes bucais, cremes e géis que possam ser utilizados em lesões de mucosas e vernizes cavitários (usados para proteger a cavidade dentária antes da remoção da cárie) e substâncias para o tratamento de canais.

Já está em andamento uma pesquisa que vai desenvolver e testar um enxaguante bucal à base de própolis, seguindo todas as normas da American Dental Association (ADA). Serão seis meses de experimentos com pacientes que usarão diariamente o enxaguante de própolis, comparado ao grupo que usará um enxaguante conhecido no mercado. Conforme observa o professor, a maior dificuldade da pesquisa clínica é que muitas pessoas interrompem ou não seguem o tratamento corretamente, o que pode gerar falsos positivos ou falsos negativos. Uma das razões da indisciplina dos pacientes é o sabor desagradável da própolis. Para amenizar o problema, os pesquisadores já procuram fazer produtos associados a aromas como menta e hortelã.

Além dos novos produtos, duas outras pesquisas pretendem avaliar diferentes aplicações da própolis na odontologia. Uma delas vai associar a resina natural ao biovidro, formado por pequenas partículas que podem ser colocadas no tecido humano, principalmente em casos de enxerto ósseo. Esse estudo está sendo feito em parceria com o professor Walison Artuso, da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Quando o paciente precisa de um implante dentário, mas teve perda óssea, há necessidade de enxerto na região. Algumas vezes, é necessário retirar material de outra parte do corpo, como do osso ilíaco, na região pélvica, o que é um procedimento doloroso. O biovidro colocado no corte cirúrgico poderá estimular a formação do osso e, associado à própolis, pode oferecer recuperação mais rápida e confortável. De acordo com o pesquisador, em breve, o projeto será submetido à FAPEMIG.

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Os pesquisadores estudam o desenvolvimento de novos produtos à base de própolis, com géis e enxaguantes bucais

Outra pesquisa pretende associar a própolis à resina de dentaduras. Segundo explica Santos, é comum que, por razões estéticas, pessoas que precisam extrair todos os dentes queiram colocar a prótese no mesmo dia. Chamada de prótese imediata, ela é adaptada ao paciente imediatamente após a remoção dos dentes. Nesse caso, há grande risco de inflamação, pois a dentadura é colocada sobre uma ferida cirúrgica. “Fizemos o teste que apontou que a própolis associada à resina mantém suas propriedades. Assim, ela pode evitar o crescimento de micro-organismos e uma inflamação. Em breve, começaremos a trabalhar com camundongos para verificar se haverá uma resposta biocompatível com o tecido”, diz.

Para Vagner Santos, uma das grandes vantagens da própolis é o baixo custo. Segundo ele, mesmo se o medicamento for feito em cápsulas, o custo sai abaixo dos tratamentos convencionais. “Por exemplo, se um paciente tem mucosite ou candidose, ele precisa tomar cerca de 40 comprimidos de cetoconazol, o que fica em torno de R$ 400. As propriedades da própolis aliadas à preço são uma grande vantagem”, comenta. Comparada a outros antibióticos, a própolis também sai na frente. “Como ela é formada por muitos componentes químicos que podem fazer efeito antibiótico sinergicamente, é muito mais difícil um micro-organismo ficar resistente a ela. Fizemos um trabalho que indicou que, quando separamos esses componentes, os resultados não são tão bons como quando estão todos reunidos”, destaca Santos.

Diante de todos os benefícios, o professor chama atenção para os cuidados no uso da própolis. “É um medicamento natural, mas não pode ser usado de qualquer jeito. É um antibiótico e um antifúngico potente e, por isso, não deve ser aplicado de maneira indiscriminada. É importante que saibamos utilizá-lo com rigor dentro das normas que qualquer medicamento exige. Hoje, a grande maioria dos produtos farmacêuticos veio de produtos naturais que foram aperfeiçoados e tiveram seus princípios ativos isolados e desenvolvidos para terem maior eficácia”, alerta.

O pesquisador também atenta para a escolha da própolis. Ele diz que é importante comprar o produto em estabelecimentos que façam o controle de qualidade e que garantam a boa origem. “Se a abelha retira material de uma planta que recebeu inseticida ou está em ambiente poluído, ela vai levar isso para a própolis e, se ela vem com sujeira, poluentes ou grão de pólen, pode causar alergia.”, destaca Santos.

Tipos de própolis

As propriedades e a qualidade da própolis variam de acordo com a planta de onde as abelhas retiram o material para sua fabricação. Na Europa, ela é extraída principalmente de pinheiros e savanas. A própolis brasileira é hoje a melhor e a mais rica do mundo. O país também é o maior produtor mundial da resina. Um estudo desenvolvido na Universidade de Campinas classificou a própolis brasileira em 13 tipos, que variam conforme a cor, a composição e a consistência.

A mais comum é a própolis verde, originada do alecrim do campo (Baccharis dracunculifolia), que tem diversas propriedades terapêuticas, entre as quais se destacam a anti-inflamatória e a antimicrobiana.  A própolis de Copaíba (Copaifera landesdorffi) tem aspecto marrom escuro, quase negro. Em meados de 2005, foi descoberta, no litoral da Paraíba, a própolis vermelha, originada do marmeleiro da praia (Dalbergia ecastophyllum), que tem causado entusiasmo nos pesquisadores. Ao que tudo indica ela é bem mais forte que as demais e tem excelente atuação sobre células cancerosas. Pesquisadores do mundo inteiro, especialmente japoneses, têm se debruçado em torno de pesquisas sobre a própolis brasileira e seus benefícios à saúde do homem.

* Matéria de Ariadne Lima, da Revista Minas Faz Ciência Nº 36, publicada pelo EcoDebate, 19/06/2009.

** Indicada por Edinlson Takara, leitor e colaborador do EcoDebate

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