Transposição do Rio São Francisco: Lula quer entregar parte de obras da em 2010

Publicado em janeiro 5, 2009 por

Tags: transposição do rio São Francisco

Mapa do projeto de transposição do rio São Francisco
Mapa do projeto de transposição do rio São Francisco

Objetivo é tornar a transposição do rio, que tem custo total de R$ 5 bi, num projeto irreversível para o próximo presidente. Criticada por políticos, índios e religiosos, construção dos túneis e das barragens pelo Exército ocorrem de forma tranquila nos últimos meses.

O governo diz que concluirá o eixo leste da transposição do São Francisco em outubro de 2010, no fim do mandato de Lula. Pelo cronograma, também será terminada parte do eixo norte, além de 18 barragens, nove aquedutos, três túneis e nove estações de bombeamento, que farão a água chegar às regiões mais altas. Matéria de Hudson Corrêa e Sérgio Lima, enviados especiais a Pernambuco e Paraíba, da Folha de S.Paulo, 04/01/2009.

A intenção é tornar a obra, de R$ 5 bilhões, um projeto irreversível para o próximo governo, que, até outubro de 2012, concluiria mais 356 km do eixo norte, nove barragens, quatro aquedutos e dois túneis.

O atraso nas obras foi resultado das chuvas no início do ano em Cabrobó (PE), segundo o secretário de infraestrutura hídrica do Ministério da Integração Nacional, João Reis Santana Filho, em relato no Senado em setembro de 2008.

Ele também citou como obstáculos a fiscalização do Tribunal de Contas da União, as exigências ambientais e a disputa judicial de empresas que participaram da licitação, além da regularização fundiária para indenizar desapropriados.

Andamento das obras

Criticada por políticos, índios, religiosos e artistas, a transposição -que já gerou atos polêmicos, como as duas greves de fome do bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, e a paralisação das obras, derrubada pelo Supremo Tribunal Federal- tem ocorrido tranquilamente nos últimos meses.

O Exército constrói sem maiores obstáculos os canais de aproximação, para captar água nas margens do São Francisco, e os primeiros reservatórios em Cabrobó e Floresta.

A desistência da empresa Camargo Corrêa de construir um dos trechos levou o governo a pedir pressa na instalação do canteiro de obras pelo novo consórcio contratado: as empresas Camter e Egesa. Ao todo são 1.268 pessoas trabalhando na obra, mas o governo espera chegar a 7.000 neste ano.

A água do São Francisco será transportada em dois eixos. O norte partirá de Cabrobó e chegará a Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, numa extensão de 426 km. O eixo leste sairá de Floresta e chegará a Monteiro (PB), percorrendo 287 km. A ideia é levar água às bacias de rios nas regiões secas do sertão, cariri paraibano e agreste pernambucano.

A menos de 40 metros da margem do rio São Francisco, em Cabrobó, o Exército abre um canal de 2.080 metros de comprimento para captar a água. Nessa fase, ela será transportada ao reservatório de Tucutu, o primeiro no eixo norte, que ocupará a área de 354 hectares onde houve desmate da vegetação seca, espinhosa e cinza da caatinga. A madeira do desmatamento está acumulada em pilhas no local.

Nesse trecho da obra trabalham 380 pessoas, movimentando 49 caçambas e 18 tratores e escavadeiras.

No eixo leste, em Floresta, o canal de aproximação terá cerca de 5.800 metros. A barragem do reservatório de Areias alcançará 15 metros de altura e 1 km de comprimento. “Ninguém sabe que isso está assim, se vissem o tamanho do buraco [do canal], ficariam impressionados”, diz o tenente do Exército Daniel Carvalho de Britto. (HUDSON CORRÊA E SÉRGIO LIMA)

Rota da transposição do São Francisco tem obras paradas

Moradores de onde passarão os canais com água cobram indenização e usam “disque-jegue”. Governo corre para entregar a maior parte do projeto em outubro de 2010, como o previsto, e afirma que construção será acelerada

Um ano e meio após ser iniciada, a obra da transposição do rio São Francisco, em trechos ao longo de sua rota, ainda se resume a estacas de madeira que, fincadas em meio à caatinga, marcam onde passarão os canais levando água a regiões secas. Por enquanto, carroças puxadas por jegues levam tambores com água barrenta a moradores dessa parte da obra.

Eles têm antenas parabólicas e podem chamar a carroça por celular, no serviço “disque-jegue”, mas enfrentam racionamento de água para beber.

Nos dois trechos onde haverá captação da água no rio, em Cabrobó e Floresta, no sertão pernambucano, desde junho de 2007 o Exército abre canais e constrói reservatórios. É a parte mais adiantada do projeto.

Responsável pela transposição, uma das principais vitrines do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o Ministério da Integração Nacional corre para substituir estacas por obras e entregar a maior parte do projeto em outubro de 2010, como previsto. O governo admite atrasos, mas diz que a construção será acelerada.

As obras têm dois eixos: o norte, que parte de Cabrobó, com 426 km de extensão, e o leste, de Floresta, com 287 km.

Ao longo desses dois ramais, 1.998 áreas serão desapropriadas, mas as indenizações de 1.509 ainda não foram pagas -628 proprietários não têm sequer títulos de posse.

Antes de pagar indenizações e avançar com a obra, é preciso regularizar as terras. Nesse processo, o governo já pagou R$ 30 milhões e deve desembolsar mais R$ 24,1 milhões.

Eixo leste

De 12 a 17 de dezembro, a Folha percorreu municípios na rota da transposição.

No povoado de Waldemar Siqueira, em Sertânia (PE), a fonte de água são açudes formados pelas chuvas e já com nível baixo. O local fica a 200 km de onde ocorrerá a captação no rio, em Floresta, no eixo leste.

Embora recentemente tenha começado a montagem do canteiro de obras próximo ao povoado, moradores conhecem a transposição mais pelas estacas de madeira, pintadas de azul, que marcam o traçado da obra.

O borracheiro Bartolomeu Moreno Santos, 52, afirma que há três meses viu serem fincados esses marcos no fundo de sua borracharia, à beira da estrada. Ele paga R$ 100 por mês por um sobrado em ruínas onde toca o negócio de poucos clientes. “Só espero eles falarem quando vão demolir para eu sair daqui. Chegam aqui, mas nunca falam comigo.”

Uma das estacas está no quintal de Cícera Maria Conceição, 60. Ela diz não saber quando a obra chegará e nem quanto receberá de indenização. “Falaram em R$ 23 mil, mas isso foi há três anos.”.

Enquanto espera, Conceição paga de R$ 25 a R$ 30 por semana a carroceiros que transportam água. “A pessoa tem que tomar um pouquinho e ficar lambendo o dedo.”

O povoado possui casas de tijolos com antenas parabólicas, ruas pavimentadas, posto de gasolina, comércio, prédio de escola, e seus moradores usam celulares de modelos novos. O acesso a esses bens e serviços contrasta com o racionamento de água para beber.

Para lavar roupas e pratos e tomar banho, moradores contam com a barrenta dos açudes. Água potável só nos reservatórios da prefeitura, que, com máquinas, tira o excesso de sal.

Funcionário do município, Severino Paulino, 51, passa cadeado nas torneiras do reservatório. A distribuição só ocorre às segundas, às quartas e aos sábados, limitando-se, nesses dias, a 40 litros por casa.

Paulino exibe à reportagem um cartão no qual se leem “disque-jegue” e o número de seu telefone. Ele é um dos que entregam tambores com água.

Thiago Soares de Araújo, 20, trabalha com isso desde criança. Ganha R$ 4 por tambor entregue em casa. Chega a fazer oito entregas por dia. Além dele, outros 11 carroceiros recorrem ao açude. Araújo diz que muita gente, sem alternativa, bebe a água barrenta. Quando a Folha estava no açude, Ítalo de Souza Neves, 11, enchia um garrafão de cinco litros. Segundo ele, para lavar pratos.

“Se Deus quiser sai [a transposição]. Desse projeto, ouvi falar depois de Lula, que é nordestino, pernambucano, [se eleger]. Será que o [próximo] presidente vai acabar essa obra?”, pergunta Antônio Alves Rocha, 54, que cuida de outro reservatório e cobra R$ 0,10 por 20 litros de água potável.

No trecho final do eixo leste, em Monteiro (PB), o canal deve passar nas propriedades de Antônio Ferreira dos Santos, 69, o Nego Gringo, e de José Teodoro da Silva, 71, que cresceram na região do cariri paraibano.

Numa manhã de sol forte, Silva puxava pela BR-110 o jegue atrelado à carroça com um tambor abastecido a 1 km da sua casa. Na estrada, cruza uma linha branca, pintada no asfalto, que indica a rota da obra.

Nego Gringo e Silva dizem que ainda não foram procurados para tratar de indenização. “A obra vem mesmo?”, pergunta Silva à reportagem.

Segundo o governo, há estudo para mudar parte da rota da transposição em Monteiro. Por essa razão, o processo de indenização está suspenso.

Eixo norte

Em Salgueiro (PE), a 80 km do ponto em Cabrobó onde haverá a captação do canal norte, o agricultor José Santiago dos Anjos Neto, 53, reunia duas pilhas de tijolos para construir alpendre e parede para sua casa, na comunidade de Uri de Baixo, quando um funcionário do governo “passou e disse: “Se eu fosse o senhor, esperava um pouco por causa da transposição””. Quase quatro anos depois, a pilha de tijolos apodrece -e as obras não chegaram.

Os sitiantes do local esperam ansiosos, pois o povoado será transferido para outro lado de uma rodovia, dando espaço para um reservatório. Na espera, muitos deixaram de plantar.

José Bernardino dos Santos, 84, está desconsolado. “Para os mais velhos, é como uma morte ter que deixar a terra”, afirma.

Frases

“Não posso é ficar parado. Disseram que neste ano ainda pode plantar. Fiquei mais animado”
JOAQUIM FERREIRA NETO, agricultor em Salgueiro (PE)

“Só espero eles falarem quando vou demolir para eu sair daqui. Chegam aqui, mas nunca falam comigo”
BARTOLOMEU MORENO SANTOS, borracheiro em Sertânia (PE)

[EcoDebate, 05/01/2009]

Inclusão na lista de distribuição do Boletim Diário do Portal EcoDebate
Caso queira ser incluído(a) na lista de distribuição de nosso boletim diário, basta que envie um e-mail para newsletter_ecodebate-subscribe@googlegroups.com . O seu e-mail será incluído e você receberá uma mensagem solicitando que confirme a inscrição.


Comments are closed.