Conjuntura da Semana. Uma leitura das ‘Notícias do Dia’ do IHU de 26 de novembro a 02 de dezembro de 2008
Publicado em dezembro 4, 2008 por HC
Tags: conjuntura
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A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as “Notícias” publicadas de 26 de novembro a 02 de dezembro de 2008. A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Sumário:
Enchentes em Santa Catarina
Crônica de um desastre anunciado
Enchentes e aquecimento global
Mobilização nacional
Planeta Social
Pensar global, agir local?
Hiperconsumo na origem das crises financeira e climática
A crise e os movimentos sociais
Conjuntura da Semana em frases
Eis a análise.
Enchentes em Santa Catarina – crônica de desastre anunciado
As chuvas torrenciais que caíram em tempo recorde sobre o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, no Sul do país, vão engrossar os registros históricos. Elas fazem parte de uma estatística de enchentes – e de tragédias – que não é de hoje. As enchentes e conseqüentes tragédias são notícias ainda da primeira metade do século XIX, atravessam todo o século XX e entram forte no século XXI. Por exemplo, num período de 24 anos (1980-2004) só na cidade de Blumenau foram 32 inundações.
A natureza não se cansa de dar “avisos” desse fenômeno e de que ele se repetirá, e se de fato estiver associado ao aquecimento global, esses extremos – chuvas torrenciais ou secas prolongadas, fenômeno que está se dando simultaneamente no mesmo Estado – vão se tornar cada vez mais freqüentes.
Mas, os “avisos” dados pela natureza são ignorados por todos: população e autoridades políticas locais e federais. Como escreve Wagner Costa Ribeiro, professor no departamento de geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e coordenador do grupo de estudos de ciências ambientais do Instituto de Estudos Avançados “a banalização do risco é uma das características da sociedade contemporânea”, numa clara referência ao sociólogo Ulrich Beck.
Não se trata em nenhum momento de afirmar que seja uma “vingança” da natureza, o que seria transpor um sentimento humano para a natureza, além de uma injustiça para com ela. Trata-se antes de perceber as teias, as relações e os limites que a natureza tece e impõe e que foram desrespeitados pelos humanos. Convém atentar para o ecossistema que foi quebrado e que se encontra em grave desequilíbrio. Edgar Morin diria que é preciso ficar atento aos efeitos não desejados de uma determinada ação, isto é, “a ecologia da ação”. Perceber que as ações humanas se inscrevem numa complexa rede de relações e interpenetrações, que envolvem não apenas a comunidade humana, mas também o ambiente.
Um grupo de especialistas de Santa Catarina enumerou o que, ao seu ver, seriam as razões do desastre: a quantidade de chuva na região, o local da concentração da chuva, o tipo de rocha do Vale do Itajaí, a forma como vem sendo feita a ocupação desordenada do local e o desmatamento da vegetação local. Como se vê, o desastre mescla razões de ordem natural, mas também de ordem humana, o que está sendo ignorado. “Estamos cansados de ver a reconstrução repetindo os mesmos erros do passado. É preciso aprender com os erros. Está na hora de reinventarmos a região e erguer as cidades a partir das lições que tivemos”, diz Beate Frank, uma das especialistas.
Na hora de fazer uma ocupação humana, as formações morfológicas da região foram simplesmente ignoradas tanto pela população, como pelas autoridades públicas em suas diversas instâncias (local, estadual e federal). Assim, “áreas de risco e áreas de preservação são invadidas, loteadas, ocupadas em nome de interesses e conveniências privados e, não raro, em nome de direitos sociais”, como alerta José de Souza Martins. Ou mesmo é incentivada por vereadores
“A causa da tragédia catarinense não é a chuva, mas a irresponsabilidade de quem permitiu que milhares de pessoas vivessem em locais perigosos, nas encostas dos morros ou nas várzeas dos rios. A maioria dos mortos não foi vítima da água, mas, sim, da terra ou do tijolo que caiu sobre suas cabeças. Era obrigação do poder público mapear as áreas de risco, combater o desmatamento nos morros, fazer obras de prevenção onde isso era possível ou simplesmente impedir a ocupação onde não era”, escreve Rogério Gentile.
Portanto, medidas preventivas poderiam e deveriam ter sido tomadas. “Medidas preventivas não evitam as turbulências da natureza, mas podem disciplinar e organizar a relação do homem com ela, atenuando efeitos adversos”, adverte José de Souza Martins. O que remete à sucessão de inoperâncias, descasos, que vêm se repetindo ano após ano, governo após governo, século após século.
“Cabe ao Estado se antecipar e proteger a população de acontecimentos como os que ocorreram, mas cabe, antes de mais nada, impedir a ocupação de áreas de risco”, sentencia Wagner Costa Ribeiro.
Mas, a responsabilidade segue sendo empurrada adiante, como se constata na fala do Major Márcio Luiz Alves, Coordenador da Defesa Civil de Santa Catarina: “Qualquer um sabe que não pode ocupar as áreas, que tem de tirar a população. Mas quero ver quem é que vai fazer”. O grande perigo é que, depois do momento de comoção, as coisas voltem à sua rotina sem que os grandes desafios sejam enfrentados e, mais uma vez, os “sinais” não sejam percebidos.
José de Souza Martins chama a atenção para a necessidade de uma revisão do direito fundiário para um uso mais “racional” do solo urbano: “Os desastres climáticos e ambientais, cada vez mais freqüentes, agravados pela superocupação irracional do solo nas cidades, pedem uma revisão do direito fundiário urbano e uma igualmente profunda mudança na política urbana, com interdição definitiva das áreas de risco, o que implica a revisão e regulamentação do direito de propriedade”.
O direito fundiário, por sua vez, deve estar associado a uma política de habitação que dê conta dos desafios naturais e sociais da região. A sua falta, contribuiu para o desastre no Vale do Itajaí.
Como se vê, o desastre provocado pelas enchentes em Santa Catarina é multifacetado. Mas, o descaso dos poderes públicos tem peso significativo na amplitude de suas conseqüências. Isso fica evidente também quando se observa que o governo federal tem negligenciado investimentos em obras de prevenção a desastres. Este ano, de toda a verba destinada a obras de prevenção de secas, enchentes, incêndios e outras emergências, o governo só gastou 8% do previsto.
Enchentes de Santa Catarina e aquecimento global
Tem a enchente do Vale do Itajaí alguma relação com a mudança climática? Pesquisadores e opinião pública se faz a pergunta, que, acaba recebendo uma resposta afirmativa, apesar da cautela e das ressalvas. Segundo meteorologistas, há indícios de que seja possível vincular a catástrofe catarinense à mudança climática. As chuvas nesta região e neste período do ano são incomuns e não tem nenhuma relação com o fenômeno El Niño, que foi o caso de algumas enchentes anteriores (1983 e 1998).
Também Carlos Nobre usa de cautela para relacionar a enchente à mudança climática, ainda que reconheça igualmente a impossibilidade de descartar tal vinculação. “Esse é o tipo de fenômeno extremo que vai ocorrer mais no futuro. A grande pergunta é: o futuro já chegou?” A falta de uma série histórica para os eventos climáticos no Brasil de pelo menos 150 anos impede um julgamento mais definitivo. “Em muitas partes do mundo [onde existem séries históricas], já se consegue apontar o aquecimento global como culpado por eventos climáticos extremos. Aqui, isso ainda não é possível”, diz Nobre.
De maneira isolada, no entanto, se pode explicar a enchente de Santa Catarina ao fato de a temperatura dos oceanos estar 1 ºC acima do normal.
Além disso, a ciência já identificou – apesar de não explicar completamente – a complexa relação que vincula as alterações na troca de umidade entre a floresta e a atmosfera na região amazônica tanto com o regime pluvial na bacia do Prata quanto com a convecção do vapor que afeta a temperatura da camada superficial dos oceanos, importante fator na geração de furacões e outros eventos catastróficos.
Mas, como alerta Roberto Smeraldi, da Ong Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, “a vulnerabilidade extrema do território de Santa Catarina – e de outras importantes regiões do país – é devida principalmente a desmatamento local, com alterações expressivas no uso do solo e na gestão das águas”, arrazoado que nos remete novamente às questões acima abordadas.
Mobilização nacional
O desastre em produzido um fenômeno social curioso: a solidariedade nacional decorrente da comoção que se produziu em torno desta tragédia natural, social e humana, que contrasta com a percepção de que vivemos cada vez mais numa sociedade individualista. Trata-se de um fenômeno midiatizado em tempo real. Os jornais televisivos estão dando cobertura ímpar ao acontecimento que, pelo visto, se transformou também em corrida por audiência. O fato é que as pessoas comuns, ao menos em momentos extremos, são capazes de gestos de solidariedade. Doações vêm chegando de todas as partes do Brasil, inclusive das regiões mais distantes.
Até o começo deste mês, a Defesa Civil de Santa Catarina recebeu cerca de 800 toneladas de alimentos e 1 milhão de litros de água. Mas, o que faz parte da solução, tornou-se um problema a mais: onde estocar os donativos que vão chegando? “Nós pedimos que não mandem mais nada diretamente para Santa Catarina porque não temos mais lugar para guardar”, vem a público dizer Emerson Neri Emerim, secretário-executivo do Conselho Estadual da Defesa Civil de Santa Catarina.
A Força Aérea Brasileira, por sua vez, montou a maior operação aérea da Defesa Civil na história do Brasil e tem como QG uma das salas do Aeroporto Internacional de Navegantes, onde há mapas afixados com cartas aeronáuticas, quadros com missões a serem cumpridas por pilotos e tripulantes de 12 instituições estaduais e federais, incluindo Exército e Aeronáutica. Os helicópteros auxiliam no resgate de vítimas dos soterramentos e das enchentes.
O cenário pós-desastre assemelha-se a uma guerra, que deixou atrás de si destruição, escombros… e lixo. Muito lixo. Só em Itajaí, a estimativa é de que a enchente tenha gerado 100 mil metros cúbicos de entulho, o que encheria 10 mil caminhões.
Também noutro aspecto há semelhanças com uma guerra: a saúde. Mais de uma semana depois do início das chuvas, a FAB acredita que terá de enfrentar uma situação de “calamidade na saúde pública”, uma vez que mais de 100 mil pessoas, segundo a Superintendência de Hospitais Públicos de Santa Catarina, tiveram contato com água contaminada. “Dá um frio na espinha não saber o que vamos encontrar aqui a partir de agora”, diz o capitão farmacêutico Cidcley Samia, que ajudava a montar um dos módulos do Hospital de Campanha (Hcamp). “Ninguém sabe quando essa tragédia vai acabar.”
Resta torcer para que as mais de cem vidas ceifadas por esta enchente, que não precisava ter redundado em tragédia, sirvam de lição para retomar a capacidade reflexiva que a sociedade de risco desenvolveu sobre sua condição e esperar que pode levar a uma mudança de atitude de todos, especialmente dos responsáveis por políticas públicas.
Pensar global, agir local?
A divisa ‘pensar global, agir local’ como método de ação diante dos grandes temas e problemas mundiais é insuficiente. É o que se pode depreender da análise do sociólogo Zygmunt Bauman em entrevista ao La Repubblica, para quem “os poderes que decidem sobre a qualidade da vida humana e sobre o futuro do planeta são hoje globais”, e “esperar que os indivíduos encontrem e coloquem em prática soluções individuais para problemas produzidos pela sociedade no seu complexo” é um erro. Segundo ele, os problemas que enfrentamos nos territórios locais, como a crise financeira e climática, entre outros, são de origem global e, portanto, as resoluções dos mesmos passam pela criação de uma agenda política planetária e instituições políticas globais eficazes e dotadas de recursos que lhes permitam enfrentá-los.
Algo semelhante afirma o sociólogo alemão Ulrich Beck: “De ora em diante, nada do que acontece é somente um evento local. Todos os perigos essenciais se tornaram perigos mundiais, a situação de cada nação, de cada etnia, de cada religião, de cada classe, de cada indivíduo em particular é também o resultado e a origem da situação da humanidade. O ponto decisivo é que, de agora em diante, a principal tarefa é a preocupação pelo todo. Não se trata de uma opção, mas da própria condição. Ninguém jamais o previu, desejou ou escolheu, mas brotou das decisões, da soma de suas conseqüências, e se tornou conditio humana”.
Na análise de Bauman, a “interdependência planetária” revela que os problemas mais terríveis e assustadores que nos atormentam nos levam a provar uma sensação de insegurança e incerteza com relação a tudo o que nos circunda. É o que Ulrich Beck chama de ‘Sociedade de risco’, ou seja, o fato de “que vivemos em um mundo fora de controle e não há nada certo além da incerteza”. Beck afirma a que “risco” é um conceito moderno: “Pressupõe decisões que tentam fazer das conseqüências imprevisíveis das decisões civilizacionais decisões previsíveis e controláveis. A novidade da sociedade de risco repousa no fato de que nossas decisões civilizacionais envolvem conseqüências e perigos globais, e isso contradiz radicalmente a linguagem institucionalizada do controle. Na era do risco, as ameaças com as quais nos confrontamos não podem ser atribuídas a Deus ou à natureza, mas à própria modernização e ao próprio progresso”.
Segundo Beck, “os riscos com os quais nos confrontamos não podem ser delimitados espacialmente, temporalmente, ou socialmente; eles abrangem estados-nação e todas as classes sociais, e, por sua natureza, apresentam novos tipos de desafios às instituições designadas para seu controle”. O mesmo diz Bauman: “Os problemas têm origem no espaço global e está além do alcance de qualquer instituição política ora existente”.
O sociólogo polonês adverte que “a esfera política local é sobrecarregada de tarefas e não é suficientemente forte ou dotada de recursos para resolvê-las”. Para ele, apenas “instituições políticas e jurídicas internacionais – até agora ausentes – poderão reter as forças planetárias atualmente desreguladas e alcançar as raízes da insegurança global”.
O Estado Social fracassou e não constitui mais uma alternativa válida, diz ele. Segundo Bauman, somente um ‘Planeta social’ poderia recuperar as funções que, há não muito tempo, o Estado buscava desenvolver, com destinos diferentes. “Acredito que o que pode ser capaz de se dirigir por meio desse imaginário ‘Planeta social’ não são os Estados territoriais e soberanos, mas principalmente as organizações e as associações extra-territoriais, cosmopolitas e não-governativas, que alcançam de maneira direta quem se encontra em uma condição de necessidade, sobrevoando as competências dos governos locais e soberanos e impedindo-os de interferir”, destaca.
Bauman retoma a tese defendida por Ulrich Beck, ao afirmar que os Estados-nação já não conseguem responder aos desafios da ‘sociedade do risco’. Para Beck, ”o Estado-nação até o momento continua sendo o paradigma da política, mas não tem todo o poder estratégico frente ao capital que se move”. Partindo do princípio de que não podemos continuar usando o Estado-nação e a sociedade do Estado-nação como unidade de abordagem para o debate dos grandes temas mundiais, Beck propõe o cosmopolitismo como um novo paradigma.
Soma-se à reflexão de Bauman e Beck, a de outro pensador: Edgar Morin. O sociólogo francês afirma que “devemos tomar consciência de que vivemos uma comunidade de destino planetário” e sugere uma “política de civilização” diante do mal-estar que vive o mundo hoje. “A nossa civilização ocidental produziu muitas conseqüências positivas, mas também negativas. Estas últimas se tornaram cada vez mais importantes: aquecimento climático e degradação da biosfera, problemas das metrópoles, cultura intensiva da agricultura. Tudo isso coloca em evidência os problemas nascidos do desenvolvimento da nossa civilização científica, técnica, econômica. Acrescento ainda que a abundância do bem-estar material não foi acompanhado de em viver bem, de um bem-estar ecológico e moral. Há um grande mal-estar entre os cidadãos que mais se beneficiam da nossa civilização”, diz Morin.
A partir deste diagnóstico, Morin sugere uma série de propostas que visam corrigir os males da nossa sociedade e, entre as principais, a ecologia da ação: “Uma ação não depende somente da vontade daquele que a pratica, depende também dos contextos em que ela se insere, das condições sociais, biológicas, culturais, políticas que podem ajudar o sentido daquilo que é a nossa intenção. Dessa forma, as ações podem ser praticadas para se realizar um fim específico, mas podem provocar efeitos contrários aos fins que pretendíamos”, diz Morin.
Contrário a Bauman, e de certa forma a Beck, poder-se-ia dizer que Morin, embora não negue a necessidade de organismos supranacionais para enfrentar os grandes temas mundiais, aposta ainda no espaço local como método importante ao enfrentamento dos grandes problemas que afligem o planeta.
As reflexões dos sociólogos Zygmunt Bauman, Ulrich Beck e Edgar Morin, autores sempre presentes no sítio do IHU, são extremamente oportunas em função do momento singular por que passa a humanidade. Como bem diz Morin, “o sistema planetário está condenado à morte ou à transformação. Nossa época de mudanças tornou-se uma mudança de época”.
Hiperconsumo na origem das crises financeira e climática
Entre os grandes conteúdos que dão conta do mal-estar planetário, encontram-se a crise financeira e a crise climática. Essas crises estão entrelaçadas e são decorrentes de um tipo de civilização engendradas especialmente ao longo dos últimos dois séculos baseadas no paradigma do crescimento econômico ilimitado. Ambas as crises têm na sua origem, como um dos principais elementos, o consumo desenfreado. “Foi a onda consumista que levou o planeta à mudança climática e, finalmente, agora, nos levou a esta enorme crise financeira e econômica que estamos vivendo, a maior de toda a história da humanidade”, afirma Kalle Lasn, um militante anticonsumo.
Segundo ele, o consumo é uma doença e está destruindo o planeta, embora não responsabilize a todos igualmente: “O problema é o consumo do grupo formado pelo um bilhão de pessoas mais ricas do planeta que consomem 86% de tudo o que é produzido. O que significa que cinco bilhões ficam, teoricamente, com os 14% restantes da produção, o que não é justo”. Esses, diz ele, “compraram mais do que poderiam. Pegaram dinheiro emprestado ou usaram as economias para comprar casas, carros, ou seja, mergulharam as suas vidas nisso e chafurdaram-se em dívidas nos últimos 20 anos”.
Kalle Lasn é o responsável por uma das maiores campanhas mundiais anticonsumo: a Buy Nothing Day (Dia de Não Consumir) que sugere que no dia 29 de novembro de cada ano não se consuma absolutamente nada. Segundo Lasn, “foi criada uma única cultura consumista que tomou todo o planeta. É preciso mudar a maneira como a informação atinge as pessoas, como o mundo corporativo e as agências de publicidade emanam informações para as pessoas comuns. O mercado publicitário é uma das principais máquinas geradoras da cultura de consumo, movimentando US$ 1 trilhão por ano. Enviam mensagens de ‘comprar, comprar, comprar’’ e afirmam que vamos ser felizes se comprarmos”.
Uma idéia da voragem do consumo pode ser observada na Meca do capitalismo mundial, os EUA, que mesmo chafurdado na crise, consomem avidamente. “Eles [os americanos] gastam muito”, afirma Alberto Tamer amparando-se em dados oficiais de instituições americanas. Por ocasião pós-dia de Ação de Graças que marca o início do natal americano, e no qual as lojas oferecem promoções, a “onda de compras foi violenta e furiosa. Um empregado da Wall Mart morreu pisoteado pela multidão enfurecida, que desde as 4 horas da manhã se aglomerava em filas, à espera da abertura das portas. Outras pessoas ficaram feridas, inclusive mulheres grávidas”, destaca Tamer.
O economista destaca alguns dados do consumo americano: até outubro só para ir ao cinema gastaram US$ 7,6 bilhões; para viajar nas férias, US$ 460,2 bilhões; a dívida atual das famílias americanas, incluindo hipotecas é de US$ 13,8 trilhões. Esse valor, diz Tamer, equivale a dez vezes o PIB brasileiro, ou seja, toda riqueza gerada no Brasil, no ano. “Dez vezes”, sublinha o economista. Os americanos acreditam que o consumo pode ser uma resposta à crise. Porém, na origem da mesma crise está o boom imobiliário e as famosas hipotecas subprime, aquelas que não tinham lastro real porque resultavam de um grande endividamento das famílias americanas.
Nesse contexto, e tendo presente a realidade brasileira, a tese do “comprar, comprar e comprar” como uma resposta à crise é uma irresponsabilidade, adverte Marilena Lazzarini, uma das criadoras do Procon e do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). Diz ela: “Acho uma irresponsabilidade o governo estimular o consumo sem garantir mecanismos de proteção a esse consumidor caso ele se endivide. Se entrar numa situação complicada, que garantia vai ter? O governo diz: ‘Consuma, porque estou criando um mecanismo que dá moratória ao consumidor endividado’. O consumidor endividado vai parar no SPC, no Serasa. Agem como se ele fizesse parte de um rebanho a ser usado pelo sistema para uma coisa ou para outra”.
Segundo Marilena Lazzarini, o nosso modelo de consumo é uma cópia do modelo americano, embora lá seja mais exacerbado. “O brasileiro vai gastar o que não pode para comprar um tênis de marca, uma calça, que basicamente são todos iguais, exceto pela etiqueta. Esses jovens vão se matar ou matar alguém para ter aquele artigo. Os modelos não são mais difundidos pela vizinhança. Antigamente, havia uma similitude na comunidade. Hoje, não. Os padrões entram nas casas pela televisão. Só que esse modelo de consumo desregulado falhou, e estimulá-lo parece loucura. Imagine que você está dirigindo um automóvel com um defeito. Em vez de parar o carro, põe o pé no acelerador. Estimular a população a consumir tem correlação com essa situação. Pedem que a população acelere e vá em frente. Ela vai acabar num abismo, vai se arrebentar”, diz ela.
A resposta à crise econômica é aumentar a produção e o consumo, retomando assim o círculo virtuoso que empurra o capitalismo. Nessa equação, o meio ambiente não tem vez. Retomamos aqui o alerta de André Gorz feito ainda na década de 1970 acerca da concepção de crescimento ilimitado num planeta de recursos limitados: “É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que reinam há 150 anos”. Segundo ele, um outro paradigma de desenvolvimento “supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais. Na sua ausência, o derrocamento só será evitado impondo restrições, racionamentos, alocações autoritárias de recursos característicos de uma economia de guerra. A saída do capitalismo, portanto, se dará de uma ou outra maneira, de modo civilizado ou bárbaro”.
A crise e os movimentos sociais
Alheio aos temas acima suscitados, a grande maioria dos economistas analisam a crise a partir de equações matemáticas, como Michael Pettis, para quem “os dois principais atores do desequilíbrio global são Estados Unidos e China. Os Estados Unidos porque durante dez anos consumiram muito além do que produziam e a China porque durante dez anos produziu muito além do que consumia”, afirma.
Segundo o economista, “os excessos desse arranjo levaram à crise no sistema bancário americano e à redução forçada do consumo nos Estados Unidos e agora faz-se necessário o ajuste na China e nos países superavitários, que terão de reduzir de maneira expressiva a sua produção para se ajustar à demanda decrescente do restante do mundo”.
Nessa equação produção-consumo não há alternativas. “Há três opções: contrair a produção – e o pior ainda está por vir –, vender mais dentro do país ou exportar. Se a China decide exportar, isso significa que outros países que também têm mais produção que demanda terão de suportar o custo do ajuste e fechar suas fábricas”, diz o economista.
Sobre o Brasil, o economista traça um cenário pessimista: “Eu sempre me preocupo com o Brasil quando ajustes ocorrem. Nos anos 50, 60 e 70, o Brasil lutou com grande dificuldade para superar sua dependência de commodities e desenvolver uma base manufatureira. Infelizmente, a enorme alta no preço das commodities nos últimos 10 anos levou muita gente a dizer: sabe de uma coisa, as commodities são um ótimo negócio. Mas o boom nunca dura para sempre. Em algum momento, acaba. Temo que o Brasil tenha de aprender por que o País lutou tanto no passado para se afastar da exportação de commodities. Quando o boom acaba, o ajuste é muito dolorido para os exportadores”, afirma Michael Pettis.
O fato é que a economia brasileira se mostrou mais vulnerável do que se acreditava e as conseqüências da crise chegaram mais cedo do que se imaginava. Os indicadores econômicos sinalizam para a possibilidade de recessão em 2009. “Recessão é um declínio significativo na atividade econômica espalhado pela economia, que dura mais que alguns meses, é normalmente visível na produção, no emprego, na renda pessoal e em outros indicadores”, define o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER, na sigla em inglês).
A previsão não é irreal considerando-se as notícias das últimas semanas. A criação de emprego com carteira desabou e demissões não param de ser anunciadas. Na análise da conjuntura da semana passada destacávamos uma série de notícias dando conta de cortes em vários setores da economia. Ao longo dessa semana, para quem acompanha o sítio do IHU, uma série de outras notícias manifesta que a espiral de demissões vem crescendo.
É nesse contexto, que mesmo tardiamente, o movimento social passou a reagir. Mais de 50 movimentos sociais, centrais sindicais, organizações de estudantes e entidades da sociedade civil assinam documento com propostas para o governo federal diante da crise econômica mundial. No documento, os movimentos sociais afirmam que “o conjunto dessas propostas se insere no espírito geral de que devemos aproveitar a brecha da crise para mudar a política macroeconômica de natureza neoliberal e construir um novo modelo de desenvolvimento nacional, baseado em outros parâmetros, sobretudo na distribuição de renda, na geração de emprego e no fortalecimento do mercado interno”.
Afirmam os movimentos: “Já estamos cansados de tanta dominação capitalista, e agora assistimos às crises financeiras e à ofensiva dos interesses do império que controla as riquezas naturais, minerais, a água, as sementes, o petróleo, a energia e o resultado de nosso trabalho”.
Nessa perspectiva, um texto assinado por padres e teólogos assessores da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), alerta para o fato de que a política do governo Lula “continua dando força ao agronegócio e a mineração, sem atentar para os danos ambientais”. Chama a atenção ainda que “tudo se passa como se o aumento da produção para a exportação fosse uma solução e não um paliativo que adia a crise econômica, mas antecipa a crise ecológica, que é muito mais grave e que prejudicará mais os mais pobres do que os ricos”.
Ainda nessa semana a Central Única dos Trabalhadores (CUT), organiza a Marcha da Classe Trabalhadora à Brasília. O objetivo da marcha “é pressionar o governo federal, os parlamentares e o poder Judiciário para incluir nas discussões e decisões nacionais a agenda dos trabalhadores e trabalhadoras. Temos o dever de pressionar para que a crise não seja abordada apenas a partir da visão de banqueiros, empresários e jornalistas neoliberais”.
Resta saber, entretanto, se o governo está disposto a grandes mudanças em sua política econômica. A bandeira de mudança do modelo econômico, levantada pelos movimentos sociais ainda no primeiro mandato do governo Lula, foi derrotada. O governo Lula não irá alterar o seu modelo, já definido aqui inúmeras vezes como o modelo do Pós-Consenso de Washington – por um lado, a aplicação dos fundamentos da disciplina fiscal e monetária e, por outro, políticas sociais de caráter compensatórias.
Tampouco, o Partido dos Trabalhadores (PT) encontra forças de alterar o rumo do governo. O Partido se desfibrou, “envelheceu” e se “esgotou”, como afirma o sociólogo Emir Sader. A apatia do PT já virou até mesmo motivo de chacota, como o descrito na coluna do jornalista Jorge Moreno. Em tom jocoso, o texto simula uma conversa de “capas pretas” do PT e é indicador do embaralhamento ideológico do partido ao revelar que as diferenças programáticas entre Dilma Rousseff e José Serra são praticamente inexistentes.
Conjuntura da Semana em frases
Tragédia em Santa Catarina
“O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, a quem caberia rápida reação já aos primeiros sinais da calamidade, foi de uma lerdeza muito expressiva. É até improvável que soubesse o que é e onde é o Vale do Itajaí” – Jânio de Freitas, jornalista, Folha de S.Paulo, 26-11-2008.
“Dólares para o mercado jorram com rapidez e facilidade, mas e água e comida para flagelados diante de uma tragédia destas dimensões? Demora, não tem, tem pouco” – Luciana Genro, deputada federal – PSOL-RS – Folha de S. Paulo, 29-11-2008.
“Penso nesses saques em Santa Catarina. Chamou atenção uma pessoa que se aproveitou da tragédia e encheu o carrinho com R$ 3 mil em mercadorias. “Todo mundo está pegando, também vou aproveitar”, como se não tivesse problema. São padrões que se reproduzem. Se o banco saqueou a poupança no Plano Verão, por que não fazer o mesmo? É certo que, em Santa Catarina, era uma situação-limite. Uma crise também aproxima as pessoas de situações-limite. Aí elas vão se mostrar” – Marilena Lazzarini, uma das criadoras do Procon em 1976 e do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) – O Estado de S. Paulo, 30-11-2008.
“Mudança”
“As indicações do presidente eleito Barack Obama para as áreas de relações internacionais, defesa e segurança, somadas às já conhecidas no campo econômico, parecem definir claramente o que significava para ele a palavra “mudança”: trata-se de voltar ao passado, mais exatamente para a era Clinton” – Clóvis Rossi, jornalista – Folha de S. Paulo, 02-12-2008.
Remorso
“O que mais lamento de toda a minha presidência é, certamente, o fracasso do serviço de inteligência no Iraque. Muita gente jogou a sua reputação afirmando que as armas de destruição de massa eram um motivo para remover Saddam Hussein. Não somente gente do meu governo. Membros do Congresso e líderes estrangeiros, antes mesmo da minha eleição, liam os relatórios do serviço de inteligência. Não sei se se trata de refazer algo, mas eu queria que o serviço de inteligência fosse diferente” – George W. Bush, presidente dos Estados Unidos – La Repubblica, 02-12-2008.
Guinada
“Pela primeira, e eu acredito que na próxima eleição presidencial, não teremos um grande debate, um grande confronto de idéias no campo econômico. A guinada que atual governo deu, como eu disse, diferente do seu discurso e felizmente para o Brasil, de apropriação da visão macroeconômica e da responsabilidade fiscal do governo do presidente Fernando Henrique, vai tirar do debate eleitoral a questão econômica como a questão central” – Aécio Neves, governador de Minas Gerais – PSDB – blog de Ricardo Noblat, 02-12-2008.
Aquecimento
“O aquecimento global é um problema ambiental que precisa de uma resposta econômica” – Yvo de Boer, secretário-executivo do Painel de Mudanças Climáticas das Nações Unidas – O Estado de S. Paulo, 01-12-2008.
Paim
“Não posso permitir que quebrem o país. O Paim fica querendo se reeleger nas costas do governo“ – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, referindo-se ao senador Paulo Paim – PT-RS – autor do projeto que acaba com o fator previdenciário – O Globo, 29-11-2008.
Lula falou…
“Lula tem 70% de aprovação e tem de ir embora. Por quê? O próprio Lula diz: criticam o Chávez, mas por que não falam de Tony Blair e Margaret Thatcher?” – Hugo Chávez, presidente da Venezuela – O Estado de S.Paulo, 26-11-2008.
Lech Walesa e Lula
“Nós nos conhecemos, tivemos nossas discussões algum tempo atrás. Somos parecidos, mas eu estava fugindo do comunismo e do socialismo, e ele estava buscando o comunismo e o socialismo. Essa era a nossa diferença” – Lech Walesa, ex-presidente da Polônia – Valor, 28-11-2008.
“Eu continuo com minhas idéias principais, de liberdade, democracia e livre mercado. Ele desistiu das dele” – Lech Walesa, ex-presidente da Polônia, dizendo que ele não mudou, mas Lula sim – Valor, 28-11-2008.
“O Walesa era um ‘pelegão’. Encontrei com ele em Roma, em 1980. Ele saiu de lá com 60 milhões para a gráfica do Solidariedade. Eu saí com o dinheiro da passagem de volta. Ele era bajulado porque estava lutando contra o comunismo” – Lula durante a campanha eleitoral de 2002, segundo registrado no documentário “Entreatos”, de João Moreira Salles, citado na reportagem “Quem venceu?, pergunta o eletricista de Gdansk ao metalúrgico do ABC” – Valor, 28-11-2008.
Sexo
“É importante que não tratemos a exploração sexual como questão dos pobres. É feita muitas vezes dentro da classe média. Há outro ingrediente: a degradação da família, pela qualidade das informações que recebemos dos meios de comunicação 24 horas por dia. Quem tem TV a cabo sabe do que falo: sexo e violência de manhã, de tarde e de noite” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Globo, 26-11-2008.
Amigos de infância
“No início do governo de Lula os americanos da concessionária de energia AES se encrencaram com uma dívida de US$ 1,2 bilhão com o BNDES. Em vez de enrolar o litígio nas bandeiras dos dois países, diplomatas, companheiros e empresários acertaram um perdão dos juros do calote (US$ 193 milhões). Graças ao trabalho dos profissionais, George Bush e Nosso Guia se tornaram amigos de infância” – Elio Gaspari, jornalista – O Globo, 26-11-2008.
Jornais e blogs
“Se os jornais impressos fechassem amanhã, os sites e blogs da web ficariam sem notícias para comentar” – Ricardo Gandour, editor do Estado de S.Paulo, citado no blog do jornalista Ricardo Kotscho, 27-11-2008.
[EcoDebate, 04/12/2008]
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