Conjuntura da Semana. Uma leitura das Notícias do Dia do IHU de 18 de junho a 02 de julho de 2008

Publicado em julho 3, 2008 por

Tags: conjuntura

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A análise da conjuntura da semana é uma (re)leitura das ‘Notícias do Dia’ publicadas, diariamente, no sítio do IHU. A presente análise toma como referência as “Notícias” publicadas de 18 de junho a 02 de julho de 2008 e a revista IHU On-Line n. 264 A análise é elaborada, em fina sintonia com o IHU, pelos colegas do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT – com sede em Curitiba, PR, parceiro estratégico do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Sumário:

- Introdução
- Governo Lula: síntese entre o Brasil moderno e o Brasil arcaico
- A criminalização dos movimentos sociais
- Razões políticas, econômicas e culturais da crise gaúcha
- Movimento homossexual. Ineditismo e polêmica
- América Latina
A crise boliviana. Saída revolucionária?
Equador. Um governo para mudar a correlação de forças
A batalha dos Kirchner na Argentina
- A conjuntura da semana em frases

Introdução

Os movimentos sociais cometem erros de análise, falham na interlocução junto à população, agem muitas vezes de forma corporativa, porém é incontestável o seu papel civilizatório – são eles que impelem, interpelam e provocam rupturas às estruturas conservadoras da sociedade. Mais ainda. É o movimento social que alerta para o caráter da crise civilizacional em que estamos metidos ao chamar a atenção para o fato de que o planeta Terra não suporta a pressão a que está submetido.

Daí se compreende a incongruência, por exemplo, do governo Lula para com o movimento ambientalista. “A cabeça de Lula é a do peão do ABC”, afirma Gilberto Carvalho um dos assessores mais íntimos de Lula. A “cabeça” de Lula está presa ainda à sociedade industrial e daí a sua dificuldade em incorporar o caráter do movimento ambientalista que prenuncia uma sociedade pós-industrial. “Ele [Lula] acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja. O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia”, diz Gilberto Carvalho.

É aqui que se compreende a luta em torno dos temas do etanol, dos transgênicos, das usinas hidrelétricas, da transposição do S.Francisco, da Reserva Raposa Serra do Sol. As forças populares questionam a lógica que está por detrás desses grandes empreendimentos, na maioria das vezes servindo ao interesse do grande capital cada vez mais de coloração transnacional e à concentração de renda. Porém, a direita acusa o movimento social de retrógrado, de anti-desenvolvimento, de querer obstaculizar o crescimento econômico. A mesma ladainha que muitas vezes o governo reproduz.

Porém, o movimento social não incide apenas no social, no ambiental, incide também e, sobretudo, no cultural, rompe com preconceitos profundamente arraigados na sociedade. O movimento das mulheres, o movimento homossexual – a Parada Gay, mobiliza e reúne mais gente que o primeiro de maio –, estão entre aqueles movimentos que se colocam à frente do seu tempo histórico. Interpelam, questionam, denunciam e propõem. Agem como consciência crítica de uma sociedade autoritária, desigual e pouco tolerante.

Não surpreende, portanto, que dado o seu caráter perturbador – no sentido que desinstala, desarranja e questiona as estruturas conservadoras e concentradoras de renda – vira-e-mexe, os setores conservadores da sociedade brasileira lancem ofensivas com o propósito de criminalizar o movimento social.

A estratégia da direita sempre é a mesma: demoniza os movimentos sociais, acusa-o de delirante, de violento, de baderneiro, de fora da lei. Pretende com isso despertar e estimular os sentimentos mais escondidos do medo na sociedade, principalmente dos setores da classe média, e ganhar o seu apoio. Registre-se que via de regra, a criminalização dos movimentos vem seguida de ações violentas por parte das forças da direita. Os mesmos que defendem a intocabilidade do Estado de direito, são os primeiros que o violam. É o que está acontecendo hoje no Rio Grande do Sul, mas não apenas lá.

Aliás, essa ofensiva de criminalização dos movimentos sociais não vem de hoje, é antiga. Já na República Velha o pretexto para o golpe do Estado Novo, em 1937, foi de que os comunistas organizavam uma insurreição terrorista, com apoio estrangeiro, para a implantação de um regime ‘soviético’ no Brasil. O mesmo sucedeu em 1964. O golpe foi uma reação às reformas de base defendidas pelo movimentos sociais, que diga-se de passagem não tinham nada de revolucionária.

A iniciativa do Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul em pedir a dissolução e a declaração de ilegalidade do MST deve ser compreendida nesse contexto histórico de tentativa de desqualificar, isolar e aniquilar as forças sociais que estão na linha de frente na contestação ao status quo estabelecido. No caso do Rio Grande do Sul, a ofensiva de criminalização dos movimentos serve ainda como uma cortina de fumaça para esconder o (des)governo de Yeda Crusius chafurdado na corrupção.

Porém, a criminalização dos movimentos sociais não é um fato isolado ao caso riograndense. Há um processo sistemático, ora com mais intensidade, ora com menos, em tentar jogar os movimentos sociais contra a sociedade. Essa ofensiva para isolar os movimentos revela que os mesmos têm força. Não é gratuita a pesquisa encomendada pela Vale do Rio Doce sobre o movimento social. Como não são gratuitas as milionárias inserções publicitárias da própria Vale, da Aracruz celulose, da Bunge. São reações ao desgaste que sofrem junto à sociedade em função da ação do movimento social.

A tentativa de criminalização do movimento social não se resume ao território brasileiro. Em toda a América Latina vê-se o mesmo. Basta lembrar aqui a ação das oligarquias bolivianas que tentam aniquilar a experiência de um governo étnico.

Frente ao processo de criminalização do movimento social é oportuna uma análise do comportamento do governo Lula. Ainda mais considerando-se que Lula é resultado do movimento social brasileiro. Na realidade, Lula é resultado de dois grandes movimentos que se desenvolveram simultaneamente na sociedade brasileira.

De um lado, Lula é produto da modernização conservadora, ou seja, Lula não existiria sem a ‘Era Vargas’ – o Estado nacional-desenvolvimentista que industrializou o país e instaurou a legislação trabalhista e a estrutura sindical. Mas para além de Vargas, Lula também é resultado do período JK, que abriu o país para o capital transnacional e trouxe as montadoras. O ABC do qual emerge Lula é uma síntese dos governos Vargas e JK. É o setor de ponta do capitalismo brasileiro da época e símbolo da modernização conservadora.

Porém, a modernização trouxe consigo o seu lado perverso, a gritante concentração de renda, o desenvolvimento desigual, a ausência das reformas sociais, os parcos e insuficientes investimentos na área da educação, saúde, saneamento e reforma agrária. O Brasil cresceu dividido, desigual, dual. Convivem num mesmo país, dois países. Temos o Brasil moderno, inserido globalmente, nação emergente, 8ª economia mundial. Mas, temos o Brasil miserável, da fome, da classificação do 70ª IDH, das metrópoles inchadas, do drama na saúde e na educação.

Lula também é resultado desse Brasil. É produto da incorfomidade dos movimentos sociais, da luta contra a modernização conservadora, da luta pela Reforma Agrária, da distribuição de renda, da urgência das reformas estruturais na saúde e na educação.

Portanto, a figura de Lula – e por isso desperta tanto fascínio –, é a metasíntese do Brasil dos últimos 70 anos: um país moderno e conservador. A grande aposta foi a de que Lula no poder faria um governo sintonizado com o seu histórico de movimento social. Porém, o que se vê é a opção de Lula pela continuidade da modernização conservadora. Prevaleceu o Lula do ABC – da lógica do desenvolvimentismo associado ao capital transnacional ajustado aos tempos da globalização, um governo que pratica o Pós-consenso de Washington. Para as demandas dos movimentos sociais encontrou uma solução intermediária: o apaziguamento da miséria.

A ofensiva da criminalização dos movimentos sociais insere-se numa conjuntura de acirramento das lutas populares. O movimento social não transformou Lula em seu adversário político, mas as suas lutas são contra os rumos que o governo tomou e contra o que deixou de fazer.

A análise dessa semana privilegia dois conteúdos: o caráter da criminalização do movimento social e o crescente conservadorismo econômico e político do governo Lula. Os temas são abordados sempre a partir da perspectiva dos movimentos sociais. Além disso, analisamos os últimos acontecimentos relacionados à América Latina.

Governo Lula: síntese entre o Brasil moderno e o Brasil arcaico

O material da última semana, sobretudo, publicado no Notícias do Dia, recobre um arco ideológico de análise do Governo Lula e do PT que vai desde uma visão bem palaciana até aquela que se opõe frontalmente a ela.

A revista Veja desta semana traz uma entrevista com o assessor especial da presidência, Gilberto Carvalho. Deve-se chamar a atenção para esse fato. Gilberto provém do movimento inspirado pelos peões do ABC, embora intelectualizado pela Teologia da Libertação e pelas pastorais sociais no Paraná, antes de fixar-se em São Paulo, onde passou a atuar no PT. Uma vez Lula eleito presidente do Brasil, foi chamado por ele para compor o seu governo, dada a longa e sólida relação de confiança construída entre os dois.

Gilberto Carvalho concedeu uma longa entrevista à revista mais “direitosa” do Brasil. Não é de hoje que a Revista Veja se esmerou em enaltecer os “valores” propalados pelos setores mais conservadores deste país, aliados aos interesses do grande capital transnacional e que, reiteradamente, ataca os movimentos sociais e contribui para perverter sua imagem diante da opinião pública e da população.

Já houve mobilizações no sentido de não assinar a revista, que pode ser encontrada sobre as mesinhas de muitos consultórios. Em encontro recente que reuniu adeptos da mídia livre, jornalistas inclusive defendem que nenhum intelectual ou jornalista político de esquerda deveria conceder entrevista a essa deplorável revista.

Pois bem, na edição desta semana pode-se encontrar uma longa entrevista com Gilberto Carvalho em que parece se sentir muito à vontade pelas confidências que faz e pelos bastidores que revela. Ainda que a entrevista não traga nenhuma novidade que seja relevante, confirma o que já se sabia e o que reiteradas vezes analisamos neste espaço.

“A cabeça de Lula é a do peão do ABC. O núcleo da preocupação do presidente é com emprego e salário. Vejo isso todo dia”, reafirma Gilberto Carvalho na entrevista. O tipo de modernidade em que Lula se move é aquela que coloca o crescimento econômico como carro chefe. Essa modernidade – forjada no desenvolvimento da indústria e que se aninha fundamentalmente no ABC – está de costas para questões hoje prementes e mesmo indispensáveis, como é o caso das questões ambientais.

O fato de que não há o mesmo empenho de Lula nas questões ambientais o próprio assessor de Lula reconhece quando diz que “ele acha importante a preservação, mas, entre um cerradinho e a soja, ele é soja. O ambiente é uma questão importante, mas não é decisiva. O que é decisivo é a economia”.

Já chamávamos a atenção para essa visão de Lula quando analisávamos o conflito envolvendo fazendeiros e indígenas na Reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. Dizíamos que Lula homologou a Reserva por conta de um compromisso assumido com o movimento social, mas seu coração desejava que aquelas terras produzissem mesmo era arroz. Em outra ocasião e por conta dos impactos ambientais que as hidrelétricas no Rio Madeira poderiam gerar, o próprio Lula disse que “jogaram os bagres no colo do presidente”. Ou seja, diante da necessidade de produzir energia para o desenvolvimento econômico (leia-se: para favorecer majoritariamente as grandes empresas exportadoras), os bagres são pouca coisa, na verdade um empecilho.

Nesta mesma visão de “peão do ABC” não há sensibilidade para a reforma agrária, como salienta Gilberto Carvalho. Aliás, o Governo optou por um modelo agrário conciliador que tenta compaginar o agronegócio com a agricultura familiar.

Sobre isso Lula falou no encontro que ele e integrantes do governo tiveram com intelectuais de esquerda, em São Paulo, em 16 de junho. Na ocasião Lula disse que o Brasil “precisa tanto dos agronegócios quanto da agricultura familiar, que seria possível combinar harmonicamente a convivência dos dois, reconhecendo que grande parte da produção de alimentos para o mercado interno vem da agricultura familiar, que, além disso, é responsável por grande parte do emprego no campo”.

Essa aposta de Lula é justificada na prática destinando desigualmente recursos públicos para um setor e outro. No dia 19 de junho, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, anunciou que o governo disponibilizará cerca de R$ 78 bilhões para a safra 2008/09, que começa a ser cultivada em meados de setembro no sul do País, para ampliar a oferta de alimentos no mercado interno e assim evitar alta de preços. Serão R$ 65 bilhões para o agronegócio e R$ 13 bilhões para a agricultura familiar. Se o governo reconhece “que grande parte da produção de alimentos para o mercado interno vem da agricultura familiar”, porque este desnível na destinação dos recursos?

E pode-se ir mais longe. A opção do governo, ao ignorar a Reforma Agrária, parece ser no sentido dos que já são proprietários de terras, sejam elas grandes extensões (agronegócio) ou pequenas (agricultura familiar). Exclui, dessa maneira, o conflito que representaria fazer uma verdadeira reforma agrária em terras brasileiras. Tenha-se em conta que a democracia territorial sempre foi um tema espinhoso no Brasil. Pelo contrário, um dos ranços do conservadorismo brasileiro se faz presente na concentração de terras. Portanto, ao excluir a reforma agrária como uma das possibilidades de democratização agrária, o Governo Lula optou pela via mais cômoda, menos conflituosa e, por isso mesmo, conciliadora e conservadora.

Mas, será que a conciliação entre o agronegócio e a agricultura familiar é possível? A resistência dos arrozeiros em deixar a Reserva Raposa Serra do Sol, a ofensiva da monocultura da cana-de-açúcar, do eucalipto e do pinus em diversas regiões do Brasil e os conflitos e inclusive mortes envolvendo a questão agrária, parecem apontar para a impossibilidade dessa conciliação de interesses. Pelo contrário, mais do que conciliação, o que parece se ver é justamente o contrário, um acirramento da ofensiva do grande capital que tenta criminalizar os movimentos sociais dotados de outro projeto de Nação, como vimos acima. E isso sem considerar toda a questão ambiental.

A entrevista com Gilberto Carvalho, assim como o artigo do cientista político de esquerda Emir Sader, que participou do encontro com os intelectuais de esquerda com o Lula, detalham as conquistas do Governo Lula numa perspectiva palaciana. Cerca de 40 intelectuais de esquerda participaram desse encontro, ao final do qual encontraram “um Lula muito seguro de si, confiante na realização do seu governo, dominando plenamente os temas que aborda – inclusive no manejo familiar com todas as cifras. A reunião indica – pela quantidade e qualidade de participantes, mas também pelas intervenções – que foi superado o trauma da ruptura de parte da intelectualidade com o PT e com Lula”, como enfatiza Sader.

O economista Carlos Lessa, por sua vez, chama a atenção para a gravidade da crise mundial do petróleo que, segundo ele, “veio para ficar”. E por quê? Porque “há 25 anos, as reservas conhecidas e estimadas de petróleo vêm crescendo menos do que o consumo. Grande parte do crescimento das reservas se dá por reavaliação dos campos já conhecidos. Não há descobertas relevantes de novos grandes campos”.

Para Lessa, essa crise não está recebendo por parte do Governo Federal a atenção que merece. O petróleo é formador de preços e está por trás do aumento mundial da inflação. “Eu não entendo por que o governo brasileiro não assume isso como um dado estratégico. Isso modifica todo o futuro. Talvez seja o dado mais importante à meditação do planejamento do País”, diz.

O economista lamenta mais uma vez que em vez de a crise do petróleo “inspirar uma política de petróleo”, esteja, na verdade justificando uma nova alta dos juros, “para segurar a inflação pela taxa de câmbio”. E afirma que “o especulador internacional adora receber os juros que o Meirelles paga”. Lessa avalia que o Brasil “deixou de ser a República de Empreiteiras para ser o Império dos Banqueiros. E a empreiteira é mais conveniente, porque empurra o País para adiante”.

Lessa é também um crítico da política econômica implantada por este governo que qualifica de “desastre”. “Está estruturalmente muito frágil do ponto de vista macroeconômico de longo prazo. Acho também que está frágil do ponto de vista macropolítico de longo prazo”, afirma. E também do PAC. “O PAC é a lista de projetos de infra-estrutura que o País devia ter começado a fazer em 2003, quando Lula assumiu. (…) Mas faltam ao PAC os projetos de infra-estrutura urbana, como metrô e trem. Fazer a economia crescer com o automóvel vendido a 90 prestações mensais congestiona ainda mais as cidades. O PAC é modesto em relação ao que o Brasil precisa e chegou muito atrasado”, analisa Lessa.

Outra crítica de Lessa diz respeito à falta de uma visão de nação. Vê em Lula uma sensibilidade para com o povo, “mas ele não sabe o que é nação. Não tem a menor idéia do que é nação e Estado nacional”, diz. Entretanto, apesar de todas essas críticas, Lessa vê como acertada toda a política social de Lula e sua aposta nos biocombustíveis, ainda que falte uma discussão mais aprofundada sobre a questão da energia em nosso país, pondera. No aspecto da energia, aflora sua veia desenvolvimentista.

A política social que seria o ponto forte do Governo Lula, segundo Lessa, é, ao contrário, para o sociólogo Francisco de Oliveira, seu ponto mais fraco. Especificamente, o Bolsa-Família “É um programa politicamente regressivo. Anula a transformação. Funcionaliza a pobreza. É um programa de apaziguamento da pobreza. Acho muito perigoso. Tende a mitificar a política”, diz Oliveira.

Para ele, esse programa não tem jeito. “Este não é um programa de redistribuição de renda. A redistribuição de renda que Lula faz é a favor dos ricos e não dos pobres. São R$ 160 bilhões anuais de juros da dívida pública interna, contra R$ 8 bilhões do Bolsa-Família”. A alternativa é “substituí-lo por programas efetivos de redistribuição de renda, que não sejam essa migalha que conforta as almas piedosas”, ataca.

Coincidentemente, ou não, na semana passada foram divulgados dados sobre os lucros de alguns bancos e o montante de remessas para as suas matrizes, todas situadas no Norte rico do mundo. São somas fantásticas que justificam claramente o epíteto de Lessa de que o Brasil é o “império dos banqueiros”. A conseqüência imediata é de que com a política implementada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e avalizada pelo presidente Lula, o Brasil se tornou o paraíso das multinacionais. E, como nos lembra Gilberto Carvalho, o presidente Lula não parece estar incomodado com essa fabulosa sangria de capital para o estrangeiro, somas que deixam de ser investidas em educação, saúde, infra-estrutura…

Petista histórico e, por muito tempo, um dos intelectuais de maior renome do partido, o sociólogo e professor titular aposentado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), Francisco de Oliveira, rompeu com o partido em 2003. Estava decepcionado com a política de rigor fiscal e com o conservadorismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus principais companheiros no poder. Desde então, se tornou um dos críticos mais originais do governo.

Segundo Oliveira, a nomeação de Henrique Meireles, banqueiro e tucano, para presidente do Banco Central e a Carta aos Brasileiros são dois indícios de que o governo Lula não seria um governo de transformações. Além disso, com o passar do tempo, “o que se consolidou foi uma orientação conservadora. A esquerda do PT foi completamente sufocada. Parte dela se converteu. E a grande maioria do PT, não dos militantes, mas dos quadros mais importantes, já estavam numa posição francamente conservadora. Incluindo-se, principalmente, o presidente, que é o mais conservador de todos”, diz.

Oliveira ainda chama a atenção para a falta de projetos políticos para o Brasil. Isso se torna ainda mais relevante na medida em que nos aproximamos de mais uma eleição. “E a oposição não tem programa. O PSDB já realizou seu programa, não tem mais o que oferecer de novidade. E não é um partido popular”, afirma taxativamente.

A esquerda, então teria um projeto e poderia ser uma alternativa? Também a esquerda não oferece alternativas reais. O PT e o PSDB, diz Oliveira, “tendem sim, no longo prazo, a se parecer com republicanos e democratas”, referindo-se à política norte-americana em que os dois grandes partidos que se revezam no poder naquele país não apresentam diferenças essenciais. Em relação a outros partidos que formam o arco de agremiações de esquerda, “Você acha que PCdoB, PSB e PDT puxam algum governo para a esquerda? Eles são mais conservadores do que parte do próprio PT. Isso é argumento para estarem agarrados ao navio principal, que é o PT”, arremata.

“A mudança de um Estado capitalista para um socialista é uma questão muito difícil”, diz o cientista político canadense, Leo Panish, renomado teórico marxista, chefe do departamento de pesquisa em economia política comparada na Universidade de York. “Os anarquistas e os marxistas”, prossegue Panish, “acreditavam na possibilidade de ‘achatamento’ ou de ‘esvaziamento do Estado’ como propôs Marx. Os partidos reformadores, os partidos social-democratas – como o que se tornou o PT – têm operado dentro da estrutura estatal e as reformas realizadas foram feitas dentro da rede legal e administrativa de um Estado que não permite alterações que interfiram na reprodução da economia capitalista. A maior parte dos partidos de esquerda que chegou ao controle estatal, pela tomada de poder ou através de eleições, ficou presa na estrutura do Estado, como em uma armadilha, e viram-se impedidos de fazer as mudanças nas relações sociais e na democratização da economia que haviam planejado”.

“O PT, por exemplo, assumiu o governo com a promessa de continuar sendo um organizador dos desorganizados”, diz Panish. “O partido não soube ou teve medo de lidar com o risco da limitação de sua independência dentro do governo, já que também sofria pressão dos latifundiários, dos empresários etc.”.

“O PT tem uma concepção antiquada da classe trabalhadora. A concepção marxista de classe social estava errada e os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais criados com base nessa concepção nunca foram revolucionários. Ao contrário, a estratégia sempre foi a de fazer aliança com a burguesia industrial, para que pudessem ter mais recursos”, arremata Panish. Por conta dessas dificuldades e obstáculos, muitos deles internos à esquerda, “a maior dúvida do século XXI, para a qual não temos resposta, é se os movimentos sociais que se propõem criar um Estado socialista descobrirão como fazê-lo”, desafia o cientista político.

Vale a pena deter-se um pouco mais sobre essa provocação de Panish. Afirma-se, de modo geral, que a esquerda está em crise em todas as partes, inclusive no Brasil. A referência quase sempre são os partidos políticos de esquerda. Mas, essa análise toda que está sendo proposta aqui faz também sentido quando aplicada aos movimentos sociais e seu potencial de inovação.

Geralmente, identifica-se os movimentos sociais com a esquerda, o que não deixa de ser correto. No entanto, se se cavar um pouco mais na compreensão de esquerda difundida entre os movimentos sociais, se descobre também certamente nela características da “cabeça do peão do ABC” paulista. Vê o Brasil a partir de São Paulo, como alerta Lessa, do seu passado industrial e de organização sindical. Não percebe que o Brasil mudou, se complexificou muito, como lembra Panish.

Panish também alerta para o que ele chama de “dominação política estendida”, que seria uma estratégia do novo imperialismo. Neste contexto, o império americano está engajado em “cooptar os Estados para que cumpram o papel de proteger a propriedade privada, de assegurar que os contratos sejam cumpridos, de criar um sistema jurídico no qual processos possam tramitar dentro da lei, e que também articulem um sistema educacional que permita a reprodução do capitalismo. Os Estados Unidos governam através de outros Estados e, com o apoio do Banco Mundial e do FMI, buscam construir um Estado que integre todo o capitalismo mundial”, diz Panish.

Diante deste contexto, fica ainda mais evidente a falta de ousadia deste governo em fazer frente aos novos desafios globais e internos. É pouco justificar dizendo que não foi possível tomar outras iniciativas, bem como marginalizar totalmente as potencialidades do movimento social.

Como diz Panish, “o PT desmobilizou a CUT e não chegou a desmobilizar o MST, mas desencorajou sua mobilização”. Ou seja, é um governo que tratou de desmobilizar as forças organizadas, com forte poder de mobilização social, para governar com os desmobilizados.

A criminalização dos movimentos sociais

“Trata-se da ofensiva jurídica mais dura da nossa história. Se retiramos o massacre de Eldorado do Carajás, esse é o fato mais marcante da história do movimento. É significativo por ser instância do Estado tentando limitar a organização popular. Só tivemos situações como essa, de proibir marchas, na ditadura”. A afirmação é de Juvelino Strozake, advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre a iniciativa do Conselho de promotores do Rio Grande do Sul pedindo a ‘dissolução’ do MST.

O relatório aprovado pelo Conselho que pede a “dissolução” do MST já serviu de base para oito ações judiciais contra sem-terra, que incluem proibição de marchas e autorização de despejos e deslocamento de acampamentos. Um dos promotores, Gilberto Thums, classifica o MST como “organização criminosa”.

Segundo o jornalista Marco Aurélio Weissheimer o relatório é “baseado em matérias da imprensa e em relatos do serviço secreto da PM gaúcha e fala, em tom de denúncia, da presença de livros de Florestan Fernandes e Paulo Freire, entre outros autores, nos acampamentos do MST e acusa ‘fraseologia agressiva inspirada no bloco soviético’”. O jornalista destaca que o relatório apresenta “o MST como uma ameaça à sociedade e à própria segurança nacional” e cita trecho do mesmo: “são uma organização revolucionária, que faz da prática criminosa um meio para desestabilizar a ordem vigente e revogar o regime democrático adotado pela Constituição Federal”. Conclui o jornalista, “em nenhum momento da ação, o ‘notável trabalho de inteligência’ dos promotores trata de problemas sociais no campo gaúcho”.

Sobre o relatório, a jornalista Maria Inês Nassif comenta: “Seria uma caricatura, não fosse sério”. Segundo ela, trata-se de uma “marcha da insensatez, usando perigosamente instituições democráticas para restringir o direito de associação e de manifestação política e o direito ao voto. Esse é um preço que o MST gaúcho pode pagar agora, mas o país todo paga também no futuro. Incentivar a histeria da direita com discurso de fazer inveja aos militares que comandaram o país entre 1964 e 1985 é um caminho a ser evitado. Pode parecer simplesmente ridículo estimular ofensivas contra movimentos sociais com discursos anti-subversivos. É ridículo, de fato, mas não só isso: é igualmente perigoso”.

O procurador aposentado do Estado do Rio Grande do Sul e membro da ONG Acesso, Cidadania e Direitos Humanos, Jacques Távora Alfonsin afirmou que a ação da justiça gaúcha ressuscita práticas da ditadura no Brasil. Para Alfonsin, há uma ação orquestrada baseada na perseguição ideológica. Segundo ele, “na Constituição Federal, a função do Ministério Público não é perseguir pobre, nem evitar pressão social de gente que está reivindicando reforma agrária. O procurador destaca que “na petição inicial, os promotores se baseiam no fato de que o MST é um movimento anti-capitalista e esquerdista”. “Qual é o crime ser anti-capitalista e esquerdista?”, pergunta ele?

Mauro Santayana, compara as decisões do Ministério Público gaúcho, contra o MST, como o famoso e fatídico Plano Cohen. O jornalista comenta que “o documento, em seu radicalismo, e em sua minuciosa construção de um fantasioso projeto revolucionário, em pouco difere do famoso Plano Cohen, redigido pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, para uso dos integralistas, e que serviu de pretexto para o golpe do Estado Novo, em 1937”. Na oportunidade, “os integralistas responsabilizavam os comunistas pelo falso projeto de insurreição terrorista, com apoio estrangeiro, para a implantação de um regime ‘soviético’ no Brasil”.

Segundo ele, “os promotores gaúchos atribuem aos sem-terra ligações com forças militares estrangeiras, guerra de guerrilhas, criação de territórios livres, e uma revolução de caráter socialista no Brasil. A linguagem é de extrema-direita, bem escrita, mas idéias são tacanhas, bem assim como os argumentos usados para propor a extinção do movimento”.

Para Mauro Santayana, “imaginar que os sem-terra devam constituir legião de anjos, descidos ao planeta para combater o latifúndio, é demonstrar absoluta desinteligência do mundo. Muitos ali se encontram empurrados pela miséria absoluta, contando com uma cesta básica, e é de seu direito natural buscar comida para os filhos onde for possível. Eles não são apenas sem terra. Falta-lhes a Terra, ou seja, o direito de estar no mundo. Mas, por outro lado, o documento esquece milhares de vítimas dos grileiros e da polícia, como os abatidos em Eldorado de Carajás”.

“O Ministério Público deveria investigar os crimes que as empresas de celulose estão cometendo aqui no Rio Grande do Sul”, diz Cedenir de Oliveira do MST em resposta as acusações que considera o movimento ilegal. Segundo Cedenir, o que acontece no Rio Grande do Sul é uma das maiores articulações políticas, jurídicas, econômicas e militares após a ditadura militar.

Não é de hoje que o movimento social brasileiro é tratado como caso de polícia. A célebre afirmação de que “a questão social é uma questão de polícia” atribuída ao ex-presidente da República Velha, Washington Luís, permanece mais viva do que nunca. Ao longo da história da sociedade brasileira os movimentos sociais têm sido alvo da ira da direita que utiliza o Estado e o seu braço armado, as forças policiais, para reprimir aqueles que lutam.

O Rio Grande do Sul nas últimas semanas se tornou emblemático da criminalização dos movimentos sociais. A onda de repressão que acontece no Sul é ainda mais grave na medida em que a orientação para reprimir vem da mais alta autoridade do Estado, a governadora. O governo Yeda Crusius associando-se aos setores conservadores do Estado, o latifúndio e o agronegócio, elegeu como inimigo n. 1 do seu governo o movimento social. A nomeação do coronel Paulo Roberto Mendes – um declarado inimigo dos movimentos sociais – para o comando da Brigada Militar do Rio Grande do Sul é um indicativo claro nesse sentido.

Há, porém um outro ingrediente que aumentou a intensidade de perseguição aos movimentos sociais gaúchos. O governo Yeda Crusius cada vez mais fraco politicamente, acusado de corrupção, identifica nos movimentos sociais a ‘ponta de lança’ que pode feri-lo mortalmente e daí a política de ataque sistemático aos movimentos. Um governo cada vez mais ilegítimo e emparedado transforma-se em repressor.

Razões políticas, econômicas e culturais da crise gaúcha

A crise política gaúcha é o tema de capa da revista do IHU dessa semana. Um conceito arraigado para muitos no Rio Grande do Sul e inclusive no restante do país caiu por terra: a idéia de que o gaúcho é mais politizado e o grau de corrupção no Estado sempre foi menor. “Gostamos de pensar que somos mais sérios e ‘direitos’ do que o resto do país, mas, infelizmente, as últimas notícias não estão confirmando isso”, afirmou o escritor Luis Fernando Veríssimo para a revista.

O músico e escritor gaúcho Vitor Ramil, sobre a concepção entre o povo gaúcho de que aqui não havia corrupção e esse tipo de coisa não acontecia afirma: “Isso é uma mentira! Quem falou isso? Isso é um clichê, mais um estereótipo. ‘Ah, somos o povo mais politizado…’. Nós já fomos um estado com muito investimento em educação, na época do Júlio de Castilhos, dos positivistas, e do Brizola, que colocou escolas por todos os cantos do estado. O governo do PT também teve uma atuação interessante nessa área. Mas isso não significa que seja assim o tempo todo, que sejamos mais politizados do que outros estados, ou que aqui não tenha corrupção. Cada região tem suas características, mas o corrupto está em todas as partes, em todo o país”, disse ele.

Para a professora de Ciência Política Maria Izabel Noll da UFRGS, entrevistada pela revista do IHU, “o que provavelmente está sendo vivenciado pelos gaúchos é uma crise de auto-estima já que o Rio Grande do Sul tem sido visto como um estado politizado, participativo e celeiro de grandes lideranças como Getúlio Vargas, João Goulart ou Leonel Brizola, para citar apenas alguns mais evidentes. Muitas dessas construções passam a fazer parte de nossa cultura política, mas nem sempre correspondem à realidade dos dias presentes”.

Segundo ela, “os povos tendem a construir e reverenciar seu passado como algo mítico, com heróis e passagens gloriosas. Os gaúchos puderam fazer isto porque tiveram um passado de guerras, de revoluções, decorrentes do fato de sermos uma fronteira – durante muito tempo a única fronteira viva do Brasil. Fomos brasileiros por opção. Poderíamos ter sido um país independente ou sermos parte da Argentina ou um território unido ao Uruguai. Mas somos brasileiros. Isso nos diferenciou bastante dos demais estados. Temos uma identidade regional muito marcada e constantemente reforçada. O que parece estar presente no momento, e que se verifica numa possível dificuldade de entender o que acontece, é que somos mais iguais aos nossos concidadãos do que pensávamos”, diz ela.

Razões econômicas contribuíram para a deterioração da política riograndense na opinião de Mário Maestri, professor da Universidade de Passo Fundo e estudioso da história política e econômica do Rio Grande do Sul. Segundo ele em entrevista para a revista do IHU, “ao contrário da maior parte do Brasil, o Sul conheceu verdadeira brecha colonial-camponesa na ordem latifundiária. O que ensejou sociedade, ao menos no início, tendencialmente democrática, onde praticamente todos os colonos-camponeses possuíam terra para trabalhar com seus braços”.

Em sua análise, “a economia, a disciplina e o respeito ao cidadão eram valores dessa sociedade apoiada na produção familiar, que valorizava o trabalho individual, abominado pelo escravismo oligárquico. A própria industrialização sulina nasceu, sobretudo, de pequenas unidades familiares. Esses valores plebeus determinaram e influenciaram o comportamento político. Grandes políticos republicanos, como Júlio de Castilhos , Borges de Medeiros , Getúlio Vargas e Leonel Brizola, foram acusados – e não sem razão – de enorme apego ao poder, mas jamais foram taxados de desonestos”.

Agora diz ele, “a crescente subjunção da economia sulina ao grande capital global, e a dissolução do tecido socioeconômico tradicional rio-grandense, no contexto de grande fragilidade do movimento social, erodiram objetiva e subjetivamente o que poderíamos chamar de ética republicano-castilhista, equiparando as práticas políticas regionais às do resto do Brasil. Agora, faz-se política para enriquecer, legal ou, mais e mais, ilegalmente”.

Movimento homossexual. Ineditismo e polêmica

Destacávamos na introdução dessa conjuntura a importância dos ‘novos’ movimentos sociais, como o movimento das mulheres, o movimento ambiental e o movimento homossexual. Trata-se de movimentos que para além da esfera econômica atuam, sobretudo na esfera cultura promovendo rupturas nos arquétipos estruturados na sociedade.

O Brasil foi palco nas últimas semanas da primeira Conferência Nacional do Movimento Homossexual, patrocinada pelo Estado – considerado uma fato inédito e polêmico.

Segundo Luiz Mott, reconhecido ativista na defesa dos direitos homossexuais, entrevistado pelo IHU, “nenhum outro país, até hoje, havia tido a coragem de ter o seu próprio governo responsável por um evento nesta área”. “Nós esperamos que todas as centenas de propostas afirmativas feitas pelo movimento homossexual ao governo federal saiam do papel e em breve se tornem realidade, diminuindo o preconceito que ainda é muito forte no Brasil contra a população GLBT”, disse ele.

Luiz Mott, considera a conferência “uma iniciativa importante que demonstra boa vontade do governo em dialogar com as bases dos homossexuais que representam mais de 10% da população”.

Por sua vez, João Silvério Trevisan, que na década de 1970, fundou o grupo Somos e é considerado um dos pioneiros na defesa dos direitos dos homossexuais, em entrevista ao IHU tem uma outra posição sobre a Conferência patrocinada pelo Estado. Diz ele: “Como alguém de fora, minha primeira questão é saber o motivo de nomear o evento como 1ª Conferência. Desde 1980, já tivemos inúmeros Encontros Nacionais de Homossexuais, nos quais se debatiam questões vitais para o movimento GLBT. Por isso, tenho dificuldade de entender a razão desse autoproclamado ineditismo. Seria um esforço em acrescer prestígio, para reforçar seu poder? Todo organismo centralizador tende a concentrar poder, para melhor exercê-lo”.

E sua opinião, “a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros) não é exceção, muito pelo contrário. Sempre se mostrou uma pequena confraria fechada em si mesma, preferindo resolver os problemas em diálogo direto com o poder central, ao outorgar-se o papel de porta-voz dos homossexuais brasileiros. Em outras palavras, importa-lhe estar o mais perto possível do poder. Isso corresponde a uma postura típica da esquerda brasileira mais tradicional, de realizar as mudanças (ou a ‘revolução’) de cima para baixo”, diz ele.

O jornalista e ativista GLBT, considera que “a raiz está na crença leninista de que um partido (e seu comitê central) deverá conduzir a revolução em nome de uma classe eleita (o proletariado), e impô-la a uma ‘sociedade sem classes’. Com isso, sindicatos e movimento sociais acabaram sendo não apenas dispensáveis, mas ‘contrários ao socialismo’, caso se desviem dos objetivos impostos pelo Partido Comunista”. Para ele, “é inevitável que esse comitê central irá criar um novo núcleo de privilegiados, uma nova classe dirigente que está acima da verdade”.

E recorda-se do fato que envolveu o grupo que criou, o Somos, o primeiro no país na defesa dos homossexuais: “(…) algo semelhante vem acontecendo com o movimento homossexual brasileiro, desde seus primórdios, quase 30 anos atrás, quando um núcleo marxista coeso deu um golpe no Somos (o primeiro grupo de liberação homossexual brasileira), para agregá-lo ao então nascente Partido dos Trabalhadores, no início da década de 1980. O princípio da autonomia dos movimentos da sociedade civil, sempre fundamental dentro do Somos, foi o estopim que opôs os marxistas centralizadores a autonomistas de tendência libertária. E os centralizadores ganharam a parada”.

Porém, ambos ativistas, Luiz Mott e Trevisan concordam com a evolução do presidente sobre o tema. Segundo Luiz Mott, “o presidente Lula evoluiu positivamente ao longo desses 30 anos em sua opinião sobre a homossexualidade, desde as suas primeiras declarações, quando ainda era um simples líder sindical, dizendo que não havia homossexuais na classe operária ou falando de uma forma preconceituosa contra feministas, e depois, quando fundou o PT, cujo regimento trazia a defesa dos direitos dos homossexuais”.

Para o ativista, “Lula precisou se adaptar, dialogando com lideranças homossexuais, e lendo, sendo informado pelos ideólogos do partido. Assim, ele fez várias afirmações positivas em várias campanhas eleitorais. Teve um tropeço grave no Rio Grande do Sul quando, em 2002, em Pelotas, disse que a cidade era um pólo exportador de “veados”, o que foi deplorável da boca de um candidato a presidente”.

Agora diz Mott, “na conferência deste ano, ele foi o presidente que aprovou um importante programa chamado Brasil sem Homofobia, mas ainda não havia, publicamente, defendido os direitos dos homossexuais, de modo que nessa conferência o seu discurso foi a glória, extremamente positivo, ele aceitou carregar a bandeira do arco-íris com as cores do movimento homossexual”.

Para João Silvério Trevisan, “a Conferência sagrou a modernidade do presidente, colocando uma auréola de tolerância em torno da sua cabeça. Politicamente, foi um presentão que lhe deram, com rendimento de prestígio a médio e longo prazo, tanto no Brasil quanto no exterior”. Segundo ele, concordando com Luiz Mott, “o presidente Lula parece que evoluiu muito, desde os velhos tempos em que manifestava posições canhestras e constrangedoras – como no caso da ‘cidade que exporta veados’, quando do seu infeliz comentário em Pelotas”.

Para ele, “tal mudança mostra que ele tem assessores competentes, que o ajudaram a evoluir para uma postura mais crítica diante do machismo e do preconceito homossexual. Não tenho nada a reclamar sobre a sagacidade e timing dessa assessoria. Acho até legal que um presidente apóie o movimento. Mas que ele seja mais um ator, e não o líder, que foi o papel a ele delegado”.

América Latina

A crise boliviana. Saída revolucionária?

Depois dos departamentos de Santa Cruz, Pando e Beni, foi a vez do departamento boliviano de Tarija, rica em gás, realizar a votação pela autonomia desafiando Evo Morales. Tarija, que responde por 13% do PIB boliviano, sedia os megacampos de gás explorados por Petrobras e Repsol que abastecem Brasil e Argentina. O estatuto de autonomia do departamento em relação ao governo central foi aprovado com um índice de abstenção de 34,8% dos eleitores.

O governo de Evo considerou ilegal o referendo, como já havia feito com os anteriores. “Reconhecer essas consultas (de autonomia) sobre estatutos ilegais seria um erro enorme porque se estaria reconhecendo algo que não é reconhecido nas normas legais do país. Não fizemos isso com Santa Cruz, Pando e Beni, e também não poderíamos fazer com Tarija”, disse o porta-voz da Presidência boliviana Iván Canelas.

As coisas se complicaram ainda mais para Evo Morales com a eleição da opositora Savina Cuéllar para o departamento boliviano de Chuquisaca. Savina é líder indígena e ex-constituinte do Movimento ao Socialismo (MAS), partido de Evo. Defensora da autonomia, ela se desentendeu com o governo central depois que Evo não apoiou o pedido de que Chuquisaca voltasse a abrigar a sede do governo da Bolívia, transferida em 1898 de Sucre, capital desse departamento, para La Paz.

A reação do governo aos referendos dos departamentos que concentram a oposição é a convocação do ‘Referendo Revogatório do Mandato Popular do Presidente da República, Vice-Presidente da República e Prefeitos de Departamentos’. O Referendo proposto por Evo Morales no ano passado foi aprovado pela oposição no Senado. O presidente topou o desafio: “Não tenho medo do povo, que diga a sua verdade e nos julgue” e sancionou a lei. O referendo foi marcado para 10 de agosto.

O que está em jogo é a disputa para saber quem sai mais fortalecido, se Evo Morales ou a oposição. Segundo o jornal Página/12 “em uma duvidosa aposta para manter a iniciativa política, a oposição serviu em uma bandeja a séria possibilidade de perder todos os governos que controla em troca de uma chance mínima de golpear a estabilidade do governo federal”. Ou seja, o referendo poderá significar um revés para a oposição.

O problema, porém está no fato de que os governadores dos departamentos opositores da Bolívia simplesmente rejeitam o referendo sobre revogação de mandatos e pediram uma reunião com o presidente Evo Morales a fim de iniciar negociações sobre um “pacto nacional” e um modelo de autonomia para as regiões do país. O ministro do Interior, Juan Ramón Quintana, aliado de Evo, respondeu acusando os governadores oposicionistas de pretender dar “um golpe na Constituição e na democracia” e promover a divisão do país. “Eles não deveriam temer o veredicto do povo”, afirmou Quintana.

Nos últimos dias, Evo pediu ao Exército que garanta plebiscito. Segundo Evo, os líderes opositores recusam-se a aceitar as consultas populares porque “têm medo do povo” e “querem continuar roubando” dinheiro público. Em seu discurso, o presidente também rejeitou o diálogo com governadores dos departamentos opositores.

Entretanto, apesar da veemência do governo, o plebiscito está ameaçado. Segundo análise publicada no sítio La Haine e reproduzida no sítio do IHU, “o referendo revogatório já não vai acontecer, posto que os prefeitos da direita, a oligarquia e os 100 clãs têm poder suficiente para impedir sua realização no oriente e vales, que representam metade do país. Ali o poder está sendo exercido pela oligarquia e nem sequer o próprio presidente Morales pode entrar nesses lugares, tomados pelos sediciosos e suas quadrilhas fascistas que encurralaram os setores populares e indígenas”.

Na análise, “o referendo revogatório era uma das últimas esperanças para o abatido governo de Morales, para tratar de recuperar a legitimidade e o apoio perdidos nos dois últimos anos, fruto de sua errática e suicida política de contemporizar com a direita e castrar a luta dos sindicatos e organizações sociais que queriam liquidar o poder de uma oligarquia que trabalha sob a instrução direta da Embaixada dos Estados Unidos”.

De acordo com La Haine, “o plano da oligarquia tem três objetivos: 1) impedir a realização do referendo revogatório, do qual pode sair parcialmente debilitada; 2) arquivar definitivamente o novo projeto de Constituição Política do Estado, aprovado pelas forças situacionistas da Assembléia Constituinte, para evitar a possível reeleição de Evo em 2010, e; 3) isolar ainda mais o governo de Morales nos próximos anos”.

A estratégia do governo segundo a análise é reproduzida na fala do vice-presidente García Linera: “De acordo com o vice-presidente, os indígenas não querem tirar o poder da oligarquia, não querem substituí-la. O que querem é compartilhar o poder, querem dirigir a Bolívia com aqueles que até agora continuam sendo os donos de vidas, fazendas e da maioria das riquezas do país”.

“Desde que chegamos ao Governo definimos uma estratégia de distribuição pactuada do poder. O que a Bolívia está atravessando hoje é, fundamentalmente, um processo de ampla e generalizada luta e redistribuição do poder. E algo que ultrapassa um governo”.

“E a história nos ensina que a luta pelo poder pode ter três desfechos clássicos: 1) Que o setor emergente (indígena-camponês) substitua, mediante qualquer meio possível, o bloco anterior; 2) Que o bloco de poder antigo (a oligarquia) consiga derrotar, conter, cooptar ou afastar o bloco emergente; 3) Ou que se consiga redistribuir o poder entre ambos”.

“Como Governo optamos pelo terceiro desenlace. Apostamos num processo de redistribuição pactuada do poder com um novo núcleo articulador: o movimento indígena”, disse o ideólogo do governo indígena, um ex-guerrilheiro que agora prega a conciliação de classes e a vigência do “capitalismo andino”.

Diante do quadro de que a oligarquia quer colocar Evo Morales de joelhos, a análise do La Haine propõe uma saída revolucionária.

Equador. Um governo para mudar a correlação de forças

O presidente do Equador, Rafael Correa, em entrevista ao Página/12, afirmou que “ganhar as eleições aqui não é ganhar o poder. Os poderes de fato continuam aí, muitos deles intactos”. Mas que a sua luta é “para mudar essa relação de poder”. E dá exemplos: “A Constituição irá proibir que as empresas financeiras possuam outro tipo de empresa fora do sistema financeiro. Atualmente, dos sete canais nacionais de televisão, cinco são da banca. Você fala em regular a taxa de juro ou diminuir os custos dos serviços bancários… e verá que campanha fazem contra. Esse é um grande passo para mudar a correlação de forças”.

Segundo ele, “a força deve estar com a cidadania, as massas, a população, não os grupos de elite de sempre. Os poderes de fato não vão renunciar de forma tão submissa aos seus poderes de sempre”.

Correa, comenta que enfrenta uma forte oposição que vem dos meios de comunicação: “Como disse Ignacio Ramonet, eles são os cães de guarda do sistema econômico vigente. Na América Latina são os maiores defensores do status quo… empresas que, sob o pretexto da liberdade de expressão, defendem seus interesses particulares”.

E reclama de determinado tipo de esquerda: “Lamentavelmente, há certos grupos de esquerda radical, intransigente, que sempre foram aliados da direita e do status quo. Com posturas infantis, ridículas: não pagamento da dívida externa, expulsão das empresas de petróleo… tudo ou nada. Que o último apague a luz. Tudo isso cria um importante arco de oposição”.

Sobre a base militar norte-americana no Equador é taxativo: “Em 2009 termina esse tratado infame que o governo entreguista de (o ex-presidente Jamil) Mahuad assinou sem receber nada em troca. Soberania é não ter soldados estrangeiros em solo pátrio. Que se vão a um país limítrofe. É problema deles”.

Um dos problemas que Rafael Correa enfrenta no Equador é o término da nova Constituição. Com a maior parte da nova Constituição ainda para ser aprovada, e menos de um mês para fazer isso, a Assembléia Constituinte equatoriana sofreu um revés com a renúncia de seu presidente, Alberto Acosta – um grande aliado do presidente Rafael Correa e o constituinte mais votado nas eleições de setembro.

Acosta admitiu para os constituintes que será “um suicídio político não cumprir o prazo (para a entrega do projeto constitucional) até 26 de julho”. Ele, porém, era favorável a que se prolongassem as sessões da Constituinte a fim de debater o texto da Carta “sem pressa” e com profundidade.

A Assembléia Constituinte foi instalada em 29 de novembro de 2007 com a missão de redigir uma nova Carta no prazo de seis meses, com possibilidade de uma prorrogação que termina no dia 26 de julho. Desde então foram aprovados 57 artigos, mas ainda restam 525.

A batalha dos Kirchner na Argentina

A crise governo versus campo na Argentina é a primeira batalha que os Kirchner temem perder desde que chegaram à Casa Rosada, em 2003. A opinião é do analista argentino Andrés Serbin. Segundo ele, a crise é “típica do mecanismo da cultura política peronista, de tomar decisões verticais, sem construir consensos. Mas esse componente autoritário não é exclusividade peronista, o que dificulta o diálogo por todos os lados. E o mais grave é que estamos numa situação de polarização extrema que tem a ver com aqueles que levaram Cristina ao poder”.

Na análise do cientista político, “a presidente não conseguiu o voto majoritário nas cidades, mas no campo. A ele se soma a classe média que já não votou em Cristina e se vê afetada pela economia, pela inflação. Há uma convergência de interesses: o campo se une ao descontentamento histórico das classes médias urbanas com o peronismo desta etapa”.

A origem da crise se deve ao aumento dos impostos sobre as exportações de grãos decretado em março para garantir a redistribuição dos lucros do setor ruralista. O aumento gerou locaute rural, bloqueios de estradas e desabastecimento.

Em uma grande manifestação de apoio ao seu governo realizadas dias atrás, Cristina Kirchner centrou fogo nos quatro dirigentes das entidades agrícolas que comandam o locaute: “Eu acreditava que estava em uma batalha pela distribuição de renda, mas, quando vi que quatro pessoas em quem ninguém votou se reuniam para deliberar quem podia ou não andar pelas estradas argentinas, me dei conta de que estava diante de uma situação diferente”, afirmou a presidenta.

A greve dos ruralistas e dos caminhoneiros que durou 101 dias e terminou dias atrás foi superada depois que o governo transformou o decreto de aumento dos impostos em projeto de lei e enviou para discussão no Congresso.

Porém, não é promissor o cenário da economia no país. A economia argentina começou a aterrissar, depois de cinco anos consecutivos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) a taxas de 8% a 9% ao ano. Os economistas estão prevendo um crescimento entre 7% e 7,5% para 2008 e entre 5% e 6% para 2009 – alguns falam até em 4,5% a 5% no ano que vem.

A Conjuntura da Semana em frases

Governo Lula

“Lula é o grande conciliador da massa popular e as burguesias. Terá um importante lugar na história” – Cláudio Lembo, ex-governador de São Paulo – DEM – O Estado de S. Paulo, 29-06-2008.

“Os laços do PSDB com o PT são tantos que, quando fomos perguntar aos ministros quem gostaria de vir, quase não teve lugar no avião” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República, no velório de Ruth Cardoso – blog de Ricardo Noblat, 26-06-2008.

“Estamos provando que um presidente da República pode, no mesmo mês, colocar na cabeça um boné dos dirigentes sindicais, dos sem-terra, do movimento GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) e da Bolsa de Valores” – Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República – O Estado de S. Paulo, 17-06-2008.

“Em relação à percepção política, ao entendimento sobre os novos tempos, à capacidade de entender as idéias-força e chacoalhar o imaginário popular, a intuição política de Lula dá de dez a zero no conhecimento teórico de FHC. Não há termos de comparação.Tem paralelo apenas em Vargas, JK e no Collor do primeiro ano. Castello Branco e Geisel tiveram governos transformadores, mas dentro da ótica autoritária, sem precisar correr o desafio político de recriar o imaginário” – Luis Nassif, jornalista – no seu blog, 17-06-2008.

“O que Lula propõe é uma construção política sofisticadíssima, de ser a síntese do Brasil moderno, do novo Brasil que surge e do Brasil arcaico” – Luis Nassif, jornalista – no seu blog, 17-06-2008.

Criminalização dos movimentos sociais

“O Conselho Superior do Ministério Público gaúcho está fazendo o que muitos gostariam de fazer, mas faltou coragem. Estão pedindo a dissolução e a declaração de ilegalidade do MST. E enquanto isso não acontece, vem emplacando ações judiciais contra dirigentes e representantes do movimento” – Sonia Racy, jornalista – O Estado de S. Paulo, 28-06-2008.

“Trata-se da ofensiva jurídica mais dura da nossa história. Se retiramos o massacre de Eldorado do Carajás, esse é o fato mais marcante da história do movimento” – Juvelino Strozake, advogado do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre a iniciativa do Conselho de promotores do Rio Grande do Sul pedindo a ‘dissolução’ do MST – Folha de S. Paulo, 24-06-2008.

“Qual é o crime ser anti-capitalista e esquerdista?” – Jacques Távora Alfonsin, procurador da República aposentado e professor de Direito em artigo publicado no IHU, 26-06-2008, sobre a criminalização do movimentos sociais no Rio Grande do Sul.

Crise no Rio Grande do Sul

“A crise (gaúcha) abala vários oponentes. Yeda é do PSDB, mas o Detran quem controlava era o PP, o Banrisul estava na mão do PMDB, o vice dedo-duro pertence ao DEM, o secretário grampeado é do PPS (do prefeito José Fogaça)… Poder botar todos no mesmo balaio será um trunfo petista em outubro e também em 2010 – Yeda se lascou e Germano Rigotto (PMDB), que se insinuava como a “terceira via”, sai arranhado, pois o esquema de corrupção é herança de sua gestão” – Melchiades Filho, jornalista – Folha de S. Paulo, 28-06-2008.

“Chega de intermediários; Carlos Crusius na Casa Civil” – frase, repetida no Palácio Piratini desde o início da gestão apenas com variações de cargo, alude à onipresença do marido de Yeda, o economista Carlos Crusius, 63 anos, no governo de Yeda Crusius – PSDB-RS – Folha de S. Paulo, 29-06-2008.

Bolsa Família

“Quando dizem que estão gastando muito aumentando o Bolsa Família, eu digo: ‘Gente, vão ser R$ 0,20 por dia, por família! É pouco demais!’” — Cristovam Buarque, senador, PDT-DF – O Globo, 26-06-2008.

“Ninguém entende a oposição: chama o programa de “bolsa-esmola”, mas, em ano de eleição, apóia o reajuste do Bolsa Família” – Maurício Rands, líder do PT na Câmara, sobre a defesa feita pelo DEM do anunciado aumento de 8% no valor do benefício – Folha de S. Paulo, 29-06-2008.

“É eticamente inadmissível que alguém, no grupo dos beneficiados históricos deste país, olhe para os miseráveis que não têm o que comer e diga que os R$ 58 que o governo dá a ele são uma política errada” – José Padilha, diretor do filme “Tropa de Elite”, comentando seu novo filme “Garapa” – Folha de S. Paulo, 29-06-2008.

“O açúcar é uma estratégia das famílias em extrema pobreza. Compram uma quantidade de alimentos que dura até determinado dia e uma quantidade maior de açúcar, para mantê-los de pé até receber de novo o Bolsa ou outro programa de governo” – Francisco Menezes, diretor do Ibase, que colaborou com o projeto de “Garapa” dando informações ao diretor José Padilha, afirma que “o filme consegue mostrar como se concretizam as coisas vistas na pesquisa” – Folha de S. Paulo, 29-06-2008.

Capitalismo chinês

“Lá tem livre mercado, impostos baixos, não tem sindicato e nem imprensa” – Jorge Gerdau Johannpeter, empresário, dizendo que está se convertendo ao “comunismo chinês” – O Globo, 28-06-2008.

(www.ecodebate.com.br) análise publicada pelo IHU On-line, 02/07/2008 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]



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