desperdício de alimentos: Um banquete jogado no lixo

Publicado em junho 2, 2008 por

Tags: desperdício, desperdício de alimentos, fome

Uma família brasileira joga fora, em média, meio quilo de comida boa por dia. Saiba como comprar e guardar alimentos para reduzir o desperdício

A crise mundial na produção de alimentos foi chamada pela ONU de “tsunami silencioso”. No Brasil, ocorre todos os dias outro desastre, também silencioso: o desperdício. Segundo estimativa da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma família de classe média joga fora, em média, 182,5 quilos de comida por ano, o suficiente para alimentar uma criança por seis meses. Por Cyrus Afshar, da Folha de S.Paulo, 31/05/2008.

“Para evitar o desperdício, o consumidor tem que comprar bem, dar preferência aos alimentos de época, que têm mais qualidade e duram mais”, diz Jocelem Salgado, professora da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz).

“Na época de inflação alta, as pessoas faziam a “compra do mês”. Hoje, dá para comprar a cada três dias: significa desperdiçar menos e planejar melhor”, diz Hélio Matar, 61, presidente do Instituto Akatu.

Tão importante quanto planejar é não estragar o que você não vai levar. “As pessoas apertam dez tomates para levar dois”, diz João Tadeu Pereira, coordenador de Programas Institucionais da Ceagesp.

Outro cuidado simples é usar a geladeira do jeito certo. “Dependendo da refrigeração, você perde em sabor e qualidade, e tem que jogar o alimento fora”, diz Milene Massaro, 38, diretora do Centro de Segurança Alimentar da Secretaria de Agricultura de São Paulo.

Um hipermercado pode desperdiçar, por mês, até 2.000 kg de alimentos bons para o consumo, mas não para a venda. Em 2007, 24 mil toneladas de material orgânico (partes de hortaliças ou comida considerada imprópria ao consumo) foram descartados na Ceagesp.

O ciclo de desperdício segue nas feiras-livres, onde a perda estimada, em São Paulo, é de mil quilos por dia. “Não é desperdício. Parte são alimentos, mas o resto são talos e ramos”, diz José Roberto Graziano, supervisor de abastecimento da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras. Segundo ele, a quantidade de frutas e hortaliças perdidas é pequena perto do que é vendido.

Mas, para a Embrapa, a perda de hortaliças nos pontos-de-venda chega a 50%, dependendo do item. “Cerca de 40% das perdas são causadas por quedas e manipulação errada”, diz Celso Moretti, 41, engenheiro da Embrapa. Para ele, é preciso passar informações e tecnologia a atacadistas e varejistas. “Num país onde muitos têm deficiência de vitaminas, superar esse problema é um desafio colossal”, diz.

Lixo farto

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DA REPORTAGEM LOCAL

Para atenuar o problema da sobra de comida de um lado e da falta dela do outro foram criadas estruturas de redistribuição e combate ao desperdício. Há “bancos de alimentos” vinculados a governos municipais e entidades da sociedade civil. São cerca de 200 instituições do tipo no país.

Um exemplo é o projeto Mesa Brasil, do Sesc, que em janeiro de 2008 arrecadou quase 380 toneladas de alimentos, beneficiando mais de 70 mil pessoas, de 471 instituições. O banco de alimentos da Ceagesp somou 1.113 toneladas de alimentos aproveitados em 2007.

Outra iniciativa é a ONG Banco de Alimentos, que tem apenas quatro veículos e consegue recolher, em média, 44 toneladas de comida por mês. “É uma gota no oceano, mas é uma gota que conta”, diz Luciana Quintão, 45, presidente da ONG. Os alimentos, obtidos em sacolões, supermercados, padarias e empresas, complementam as refeições de 22 mil pessoas por dia, por meio de 51 instituições, segundo Luciana.

Mas boa parte do desperdício no país não pode ser impedida por consumidores ou comerciantes. Estudo do IBGE estima que 8,7% da produção de grãos é perdida ao longo da cadeia produtiva, por conta das más condições de transporte e armazenamento. A pesquisa também aponta que 4,7% dos grãos são perdidos ainda na plantação, por conta de problemas climáticos. No total, são 10 milhões de toneladas/ano desperdiçadas antes mesmo de chegar aos pontos-de-venda.

“O número é alto, considerando que os grãos têm maior durabilidade. A perda de frutas e hortaliças deve ser ainda maior”, diz Júlio Perruso, 40, gerente de análise e planejamento do IBGE. (CA)

As famílias encolhem, as embalagens não

DA REPORTAGEM LOCAL

Desperdício de comida é ainda mais comum em casas onde moram duas pessoas ou só uma: muita coisa estraga antes de ser totalmente consumida.

A média anual de compra, no lar onde mora apenas uma pessoa, é de 560 quilos de comida, de acordo com uma pesquisa do IBGE, divulgada ano passado. Nos domicílios onde moram casais sem filhos, a compra per capita é de 509 quilos. Já uma família com filhos compra per capita 324 quilos por ano.

“A gente espera que uma pessoa que mora sozinha gaste menos, não é? Mas isso não acontece”, afirma Edílson Nascimento, 57, gerente da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) do IBGE. A proporção da renda reservada para alimentos, de acordo com o IBGE, é muito parecida nos domicílios de casais com ou sem filhos. Em outras palavras, o padrão de compras é semelhante nos dois casos, apesar de haver menos bocas para serem alimentadas em um deles. “Não tem alternativa na aquisição, e aí entra a questão do desperdício”, diz Nascimento.

A situação se agrava quando se observa, no Brasil, a tendência de encolhimento dos núcleos familiares. A proporção de domicílios com pessoas morando sozinhas ou com companheiro aumentou 25,7%, entre 1996 e 2006, de acordo com dados do IBGE. São mais de 30 milhões de pessoas e já representam quase um quarto dos lares brasileiros. Já os hábitos de consumo e as embalagens dos alimentos mudam de maneira muito mais lenta.

Mercado “single”

De olho no crescimento desse mercado, aos poucos, a indústria de alimentos aumenta o leque de opções de produtos com embalagens menores. É o caso de alguns pães, queijos e iogurtes. Certas marcas de torradas, por exemplo, são embaladas individualmente na mesma caixa, o que favorece o aproveitamento do produto inteiro.

“As indústrias sabem que têm que se adequar”, diz Denis Ribeiro, diretor de economia da Abia (Associação Brasileira da Indústria Alimentícia). Ele cita como exemplos os produtos desidratados, como as sopas em pacotinhos individuais. Para o economista, um dos fatores que pode puxar esse aumento da oferta de produtos alimentícios menores é a conscientização do consumidor, disposto a desperdiçar menos. “A indústria vai correr atrás para atender esse público.” (CA)

Comércio tem medo de doar alimentos

DA REPORTAGEM LOCAL

A pessoa ou empresa que doa alimento, hoje, pode responder civil e criminalmente caso a comida prejudique a saúde de quem a recebeu. “A gente vê restaurantes jogando coisas no lixo com detergente em cima. Nem precisariam disso [para se eximir de responsabilidade], mas acontece”, diz Arthur Rollo, 32, advogado especialista em direito do consumidor.

Para encorajar comerciantes a doarem mais alimentos, foi elaborada uma lei, apelidada de “Estatuto do Bom Samaritano”, que tramita há dez anos no Congresso. Ela atenua a responsabilidade se houver problemas de saúde causados pela ingestão do alimento, caso o doador prove que não agiu de má-fé e seguiu os procedimentos de higiene exigidos.

“Se passar, a lei vai entrar em conflito com o Código de Defesa do Consumidor”, diz Rollo. “Bastaria colocar um parágrafo no CDC para ressalvar sua aplicação nos casos de benemerência”. Ele diz que o Código Civil já protege o consumidor em caso de má-intenção ou falta de higiene por parte do doador, como no texto do projeto de lei.

Mas o estatuto do samaritano é criticado por agentes sanitários. “Devíamos fazer uma conta de custo/benefício: quantas pessoas são internadas na rede pública de saúde por ingestão de alimentos?”, diz Maria Cecília Brito, supervisora da Anvisa. “Já há uma lei em vigor que permite doar produtos apreendidos depois de laudo técnico”, diz. (CA)

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Comentários (1)

 

  1. Eu adorei esse site,ele é muito bom. Eu sou uma garota que cursa a oitava série e estava procurando alguma matéria que falasse de desperdicio para poder estudar e assim então apresentar um seminário.
    Eu acho que a doação de alimentos devia existir mais,os aliemntos doados deveria passar por mãos que aprovasse que o alimento está em condições para o consumo.
    Obrigado pela atenção de vocês,e também por ter deixado esse espaço aqui para as pessoas que visitam o site.
    Grata,Bianca Carolinne.