trabalho infantil: Nas tarefas do lar, há 22 milhões de menores

Publicado em março 31, 2008 por

Tags: trabalho infantil

Meninos e meninas com renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo são 45,6% dos pequenos trabalhadores – São 22,1 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos que ajudam nas tarefas do lar. E a jornada de trabalho chega a assustar: 10% dessas crianças gastam até 21 horas semanais nos afazeres domésticos, que concentram mais as meninas. Por sexo, a divisão fica assim: 62,6% são meninas e 36,5% são meninos, de acordo com a pesquisa “Aspectos complementares de educação, afazeres domésticos e trabalho infantil”, divulgada ontem pelo IBGE. Matéria de Cássia Almeida, do O Globo, 29/03/2008.

Um fator determinante para aumentar o trabalho doméstico é a renda: 45,6% das crianças responsáveis por essas tarefas estavam em domicílios cuja renda domiciliar per capita em 2006 era de até meio salário mínimo.

— Mas constatamos que a freqüência à escola não ficou prejudicada com os afazeres domésticos. As taxas se equivalem — disse Cimar Azeredo, gerente da pesquisa.

Trabalho obriga mãe a delegar tarefas Na casa da auxiliar de limpeza Solange Maria de Azevedo, que tem apenas 20 metros quadrados, moram oito pessoas: cinco de seus seis filhos, o genro, o netinho de um ano e oito meses, além da própria Solange. Apenas ela e o genro, que é auxiliar de pintor, trabalham. O filho mais velho, de 23 anos, está desempregado. A renda da família fica em torno de mil reais. As outras quatro filhas, com idades entre 9 e 19 anos, auxiliam a mãe nas tarefas domésticas .

Quando a irmã mais velha não está em casa, Monique Hellen, de 14 anos, assume a responsabilidade pelo lar. Cozinha, faz faxina, cuida do sobrinho e das irmãs mais novas.

Ela estuda na parte da tarde, entre 12h45m e 17h, mas suas manhãs costumam ser dedicadas aos afazeres domésticos.
Acorda por volta de 9h, compra pão e inicia as atividades rotineiras.

— Faço curso de informática, mas se tivesse mais tempo, gostaria de fazer aulas de dança — diz a jovem.

Solange diz que gostaria que a situação fosse diferente, mas não tem outra opção a não ser delegar as tarefas às meninas enquanto trabalha, entre 6h e 17h30m.

— Já tive uma barraquinha de cachorro-quente e as meninas também me ajudavam.

De acordo com ela, Monique começou a cozinhar com 11 anos, mas Ana Paula, de 19, teve que começar a atividade ainda mais cedo, com apenas 8 anos. Estefani, de 9, e Dara Cristina, de 12, tiveram sorte.

Elas apenas ajudam a manter a casa arrumada ou a lavar a louça que sujam. Podem contar com as irmãs mais velhas, que apesar de novas, já têm experiência com as tarefas mais perigosas.

Horas trabalhadas sobem a partir dos 10 anos A desigualdade regional e de renda também aparece nos indicadores de afazeres domésticos.

Na Região Nordeste, 70,5% das crianças e adolescentes que exerciam afazeres domésticos estavam em domicílios com rendimento per capita de até um meio salário. No Sul, esse percentual não atingiu 30%.

Conforme aumenta a idade, mais crianças se dedicam às tarefas domésticas, segundo o IBGE. Entre 5 a 9 anos, 24,7% delas têm essa obrigação. A parcela dos pequenos trabalhadores do lar cresce substancialmente a partir dos 10 anos. A partir dessa idade até os 13 anos, 59,8% fazem tarefas domésticas. Entre as meninas, o percentual chega a 76,1%.

— É aos 10 anos que começa de verdade os afazeres domésticos para as crianças — disse Azeredo, do IBGE.

Na adolescência, a taxa só faz subir, chegando a 86,9% das meninas de 16 e 17 anos.

A desigualdade de gênero volta a aparecer no tempo gasto com afazeres domésticos.

Enquanto as meninas gastam em média 16,2 horas semanais nessas tarefas, os meninos dedicam menos da metade do tempo: 7,5 horas por semana. Em qualquer faixa etária, a desigualdade se repete, pois, dentro do lar, as meninas têm essa missão mais bem definida.


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