A segurança alimentar, uma visão de 2008, artigo de Antonio Carlos Porto Araujo

Publicado em março 31, 2008 por

Tags: segurança alimentar

[Gazeta Mercantil] A questão do aquecimento global invoca aspectos geopolíticos que há poucos anos não estavam em discussão. As mudanças no clima podem ter implicações mundiais na área de segurança, podendo gerar conflitos diversos sobre domínio de áreas com disponibilidade de recursos naturais e com vocação para a produção de alimentos e energia.

Prevê-se que o problema possa limitar safras e disponibilidade de água em todo o planeta, suscitando confrontos. Nesse cenário de tensão, o Brasil apresenta-se como “potência ambiental” capaz de atuar como protagonista na discussão.

Varias ações já foram programadas nesse sentido, como os combustíveis renováveis. No caso do biodiesel, a obrigatoriedade do B2 implica um acréscimo significativo de demanda por soja, já que cerca de 80% são feitos a partir da oleaginosa. O consumo de biodiesel no Brasil, projetado para 2008, é de cerca de 850 milhões de litros, implicando o direcionamento de cerca de 4,25 milhões de toneladas de grãos para sua produção. Isto representa 7,3% da safra de soja prevista para este ano, significando área plantada de cerca de 1,5 milhão de hectares.

Ao mesmo tempo, o aumento da demanda por soja pressiona os preços da commodity. Há um ano, a saca de 60 kg era vendida a R$ 28,35. No início de janeiro, o valor alcançou R$ 50,00, com alta superior a 76%.

Além do biodiesel, o fator China é importante componente da discussão. Em 2008, ela deverá importar cerca de 25 milhões de toneladas, sendo 11,5 milhões do Brasil, impelindo, nesse caso, a definição de uma adequada política nacional. A produção de soja requer volume expressivo de água, escassa na China, que reduziu a produção da oleaginosa e aumentou a importação, sobretudo para fabricação de ração. Cabe, então, questionar: o Brasil está planejando corretamente sua fonte de recursos naturais – água — de maneira sustentável para permitir a exportação crescente da commodity? O atual volume de água nas barragens incita uma nova discussão sobre a disponibilidade desse recurso.

Com a escassez mundial de água, prevê-se crescimento da demanda global de soja brasileira em cerca de 8% ao ano. Além dela, devemos exportar 8,5 milhões de toneladas de milho, 15,93% da safra estimada para 2008, com o correspondente volume expressivo de água. Na questão financeira internacional, a queda nos juros americanos pode tornar mais atrativos aos investidores o direcionamento de recursos à exploração da cadeia produtiva do biodiesel, sobretudo no Brasil.

Como parte de política agrícola, o País deve aproveitar essa nova onda, já que poderá aumentar sua área de plantio em mais de 20 milhões de hectares, sem invadir as áreas reservadas para florestas.

Nas pesquisas sobre o assunto, faz-se uso de diversos dados, especialmente os apresentados pela Food and Agriculture Organization (FAO), para identificar a quantidade de água utilizada em plantações ao redor do mundo.

Para a composição das informações sobre o comércio entre nações, possibilitando estabelecer a quantidade de água virtual nele embutida, uma das fontes é o Banco de Dados Estatísticos de Comércio de Commodities (Comtrade), das Nações Unidas, e dados do Centro Internacional de Comércio em Genebra.

As informações disponíveis indicam que a agricultura é a grande responsável pela utilização da água, representando 72% do consumo hídrico no mundo e 60% no Brasil.

Quase 20% da água mundialmente consumida na agricultura é comercializado com outros países sob a forma de produtos derivados das mercadorias agrícolas. De acordo com o Conselho Mundial da Água (CMA), cada quilo de pão gasta 150 litros de água para ser produzido. No caso da batata, são utilizados entre 100 e 200 litros de água, enquanto a mesma quantidade de arroz consome 1.500 litros. Para a produção da soja, utilizam-se cerca de dois mil litros por quilo colhido e para cada quilo de carne, 13 mil litros, em média.

Diante desses dilemas, cabe ao Brasil a definição de marco regulatório que estabeleça a inserção dos combustíveis renováveis dentro de uma política agrícola clara. Tal definição poderá dar mais previsibilidade aos empresários nacionais e aos investidores e compradores globais.

Além disso, contribuirá para prover segurança alimentar no País, com produção sustentável e sem os efeitos negativos do combustível para o meio ambiente.

Artigo originalmente publicado pela Gazeta Mercantil, 28/3/2008


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