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O impacto ambiental do consumo de carne. Entrevista especial com Sérgio Greif e depoimento de Sonia Montaño

Apontado como um dos grandes culpados pelo aquecimento global, a pecuária e o consumo de carne estão sendo cada vez mais debatidos por biólogos, vegetarianos e movimentos sociais. Isso porque é preciso que a população, como um todo, saiba que o consumo desenfreado de carne contribui para a devastação da natureza. A indústria de carne é uma das maiores responsáveis pela poluição da água. Somente os animais criados para o consumo humano nos Estados Unidos produzem uma quantidade de excrementos 130 vezes maior do que a de toda a população mundial. Além disso, a pecuária é uma das maiores consumidoras de água. São necessários de 20 mil a 30 mil litros de água para produzir um quilo de carne, mas apenas 150 litros de água para um quilo de trigo. E mais: a criação de animais de corte é responsável por 90% do desmatamento de florestas tropicais.

Sobre este assunto, a IHU On-Line conversou com o biólogo e mestre em nutrição, Sérgio Greif. Adepto do vegetarianismo desde os cinco anos, Greif fala do impacto ambiental que o consumo de carne produz, das dificuldades que passou para tornar-se vegetariano e sobre os direitos dos animais. “Uma adoção em massa do vegetarianismo é a única solução plausível. O problema não deve se resumir à ‘diminuição do consumo de carne’, até porque a carne é apenas um dos problemas relacionados à pecuária”, contou-nos Sérgio, nesta entrevista, que foi realizada por e-mail.

Complementando a entrevista, a IHU On-Line ouviu, também a jornalista e mestre em comunicação, Sônia Montaño. Sônia é uruguaia, um país consumidor contumaz de carne, mas que depois de um retiro, aderiu ao vegetarianismo. A entrevista e o depoimento foram realizados por e-mail.

Confira a entrevista com Sérgio Greif e o depoimento de Sonia Montaño.

IHU On-Line – Quais são os principais pontos de destaque, no que diz respeito ao consumo de carne em relação ao impacto ambiental?

Sérgio Greif – A carne é responsável por grande impacto ambiental. Áreas naturais (florestas, matas, cerrados, campinas etc.) precisam ser devastadas para a abertura de pastos. Muitas pessoas associam a devastação nas florestas tropicais ao corte de madeira. Na verdade, a contribuição das madeireiras para essa devastação nem se compara à devastação causada pela pecuária, pois as madeireiras selecionam apenas as árvores que interessam para o corte. Já o pecuarista precisa se livrar das árvores indiscriminadamente.

A pecuária sequer é sustentável nesses pastos, pois o gado, com o pisoteio, acaba compactando o solo, impedindo o rebrotamento de plantas e a lixiviação da água. Dessa forma, o solo sofre processos erosivos, o lençol freático deixa de receber importantes contribuições de água, e o solo da superfície acaba sendo arrastados para os corpos hídricos, o que ocasiona em perda de fertilidade e contaminação de águas superficiais. Os pastos abertos logo são abandonados e se transformam em desertos, já que muitas vezes o grau de comprometimento é tal que nem mesmo as florestas conseguem se reestabelecer na área.

A pecuária, quando intensiva, também traz o problema da contaminação por fezes e urina de animais. É que os animais presos sempre fazem suas necessidades no mesmo lugar. Isso contamina o solo e as águas próximas. Esses dejetos raramente são tratados porque implicam em gastos na produção. Outro fator relacionado à poluição é com a geração de gases. Especialmente os ruminantes têm em seu processo digestivo a geração de diversos gases que são expelidos do corpo através da flatulência e da eructação. Esses gases (óxido nítrico, metano etc.) contribuem com o efeito estufa.

Outro fator ambiental relacionado à pecuária diz respeito ao consumo de água. Cada cabeça de gado consome 50 litros de água por dia. Apenas o processo de abate de um bovino consome mais de 1200 litros de água de uma vez. A lavagem de uma única carcaça de frango consome mais de 120 litros de água.

IHU On-Line – Que tipos de soluções o senhor pode apontar para que o consumo da carne seja reduzido no mundo?

Sérgio Greif – Educação. Uma adoção em massa do vegetarianismo é a única solução plausível. O problema não deve se resumir à “diminuição do consumo de carne”, até porque a carne é apenas um dos problemas relacionados à pecuária. A população do mundo deve ser educada a se abster do consumo de todos os tipos de ingredientes de origem animal. A mensagem jamais deve ser para que as pessoas “comam menos carne”. A educação fornecida deve ser completa, de que as pessoas de fato se abstenham de produtos de origem animal. Obviamente, muitas pessoas não se absterão de imediato, mas pelo menos terão recebido a mensagem correta e cada qual trilhará seu caminho na sua velocidade.

IHU On-Line – O senhor é um vegetariano desde os cinco anos de idade. Pode nos contar como foi essa luta, como enfrentar a família e amigos (que não eram vegetarianos) quando tinha tão pouca idade? E como essa luta tornou-se trabalho para o senhor?

Sérgio Greif – Quando adotei o vegetarianismo, eu não conhecia nenhum vegetariano e nem conhecia essa palavra. Simplesmente tomei conhecimento de que a carne era o tecido de animais e, então, embora o gosto me agradasse, decidi que não consumiria mais. A princípio, foi difícil para minha família aceitar, porque na década de 1980 muitos médicos ainda acreditavam que precisávamos de uma quantidade imensa de proteínas para nos desenvolver e manter nossas funções vitais. Minha mãe foi recomendada a esconder carne entre os alimentos e um médico chegou a me mandar comer 500 gramas de queijo branco por dia (uma criança de cinco anos, imagine!). Também precisava tomar um composto manipulado, por recomendação de um endocrinologista.

Obviamente, não fiz nada disso, e então quando fui ao médico, um ou dois anos depois, ele me examinou e perguntou se eu estava tomando o composto. Eu informei que não, e ele reconheceu que eu não teria precisado. Ao longo dos anos, me conscientizei de que, embora naquele momento os médicos fossem autoridades e tivessem ao seu lado a ciência, eles sabiam muito pouco sobre a forma como nosso corpo funciona. A ciência não é absoluta. Surge uma nova pesquisa e então nossas idéias mudam.

Resolvi estudar Nutrição no mestrado porque, embora muitos profissionais de renome defendessem que precisamos nos alimentar de ingredientes de origem animal, eu lia muitos trabalhos que mostravam o contrário. Hoje, vejo que muitos profissionais já mudaram de idéia, mas alguns ainda mantêm a antiga visão.

IHU On-Line – Quais são as principais diferenças entre os direitos dos animais e a vida e o bem-estar dos animais?

Sérgio Greif – Em termos bem simples, alguém que defende que animais têm direitos reconhece que não podemos utilizar animais para quaisquer fins que queiramos utilizá-los. Isso significa que não podemos comer animais, não podemos experimentar em seus corpos, não podemos vestir sua pele e seu couro, não podemos colocá-los para puxar carroças, para nossa diversão ou mantê-los como “brinquedos”. Animais são seres sensíveis e tudo o que fazemos a eles tem o peso daquilo que fazemos a outros seres humanos.

Já alguém que defende o “bem-estar” animal não reconhece que animais possuem direitos. Eles consideram que seres humanos são seres superiores e podem utilizar animais para suas conveniências. Isso significa que podemos comê-los, podemos utilizá-los em pesquisas, podemos matá-los para vestir sua pele e seu couro, podemos submetê-los a trabalhos e podemos possuí-los. Mas eles, ao mesmo tempo, defendem que animais são seres sensíveis e por isso não devemos abusar deles. Assim, eles estabelecem, através de seus próprios conceitos, o que é certo e o que é errado se fazer com um animal. Esses parâmetros não usam o ponto de vista do interesse dos animais, mas sim das pessoas que se sentem agredidas com a visão do que se faz com os animais quando eles são explorados, mas, ao mesmo tempo, não querem tomar nenhuma atitude pessoal para minorar essa exploração.

IHU On-Line – De que forma você propõe o combate à fome a partir do vegetarianismo?

Sérgio Greif – A criação de animais demanda imensas áreas. Mesmo na pecuária intensiva, os animais precisam receber o alimento que foi plantado em grandes extensões de terra. Quando permitirmos aos animais ocuparem tamanha quantidade de terra ou a utilizamos para plantar alimentos que os alimentarão, estamos desviando recursos que, de outra forma, alimentariam seres humanos. Muitas pessoas defendem que isso não é um desvio de recursos porque esses animais são criados para o consumo por seres humanos, mas quando colocamos um intermediário entre nós e os alimentos de origem vegetal, estamos perdendo energia do sistema.

O fluxo de energia ocorre no formato de uma pirâmide. Na base, estão os produtores, os vegetais que são capazes de fazer fotossíntese. No andar seguinte, estão os consumidores primários, que se alimentam desses vegetais. A biomassa, ou seja, a quantidade de matéria viva capaz de subsistir nessa posição, é necessariamente menor do que a do andar abaixo, pois de outra forma haveria fome. Quando a seca se instala em uma região e as plantas morrem, os herbívoros morrem de fome. Num andar acima, nessa pirâmide, estão os consumidores secundários, ou seja, os animais que comem animais. Esses precisam manter uma biomassa necessariamente menor do que a de herbívoros ou de outra forma entram em competição e também morrem de fome.

O que acontece atualmente é que o ser humano quer se posicionar no terceiro andar da pirâmide, no nível de consumidor secundário, tendo os “animais de consumo” no andar abaixo, mas ele, ao mesmo tempo, quer permitir o crescimento indefinido de sua população. Daí as pessoas competirem por recursos, tanta fome etc. A solução que propomos é que a população passe a se alimentar em níveis mais baixos da pirâmide de energia, ou seja, que adotem uma dieta estritamente vegetariana.

IHU On-Line – O senhor concorda com o Programa Fome Zero?

Sérgio Greif – Para concordar com ele eu precisaria entendê-lo. Sou uma pessoa que pensa de uma maneira técnica e não consegui visualizar a técnica que está por trás desse programa. Procurei informações a respeito quando da época das eleições, mas não havia informações sobre isso. Tudo o que havia era que o candidato à Presidência iria acabar com a fome no Brasil, mas não se demonstrou de que forma isso seria realizado.

IHU On-Line – Qual é sua opinião sobre as leis relacionadas aos direitos dos animais no Brasil?

Sérgio Greif – Não existem leis relacionadas aos direitos dos animais no Brasil. As leis que existem são de “bem-estar” animal, e mesmo “bem-estar” precisa ser colocado entre aspas, porque não é bem-estar de fato. Tudo o que temos são leis que estabelecem que o tratamento dado aos animais que submetemos ao nosso jugo devem obedecer a determinadas regras que, no melhor dos casos, amenizam o peso que sentimos em nossa consciência em continuarmos a explorá-los.

As leis que de fato produziram algum efeito positivo para os animais, como a que proíbe a rinha de galo, por exemplo, têm mais relação com a proibição de jogos de azar do que outra coisa. Não é de fato uma preocupação com os galos. De outra forma, galinhada também seria crime. As leis referentes ao tráfico de animais silvestres têm mais relação com o conservacionismo do que com os direitos animais, tanto é que ninguém se importa se uma pessoa comprar um mico-leão para manter em um apartamento, desde que o animal provenha de um criadouro comercial.

IHU On-Line – Certa vez você afirmou que não basta informação para que a conscientização e a mudança de hábitos aconteçam. O que é preciso fazer para que a população diminua o consumo de carne antes que um desastre ambiental catastrófico aconteça?

Sérgio Greif – Eu não me recordo exatamente o contexto em que isso foi dito, mas certamente a informação é apenas um primeiro passo. As pessoas precisam ser sensibilizadas e precisamos deixar de poupar as pessoas, como se elas não fossem parte do problema. Todos nós somos partes do problema. Não adianta, desse modo, tentarmos culpar as madeireiras, o George Bush ou o Mc’Donalds. Nós somos o problema e a solução deve partir de cada um de nós.

Apenas trazer a informação é um pequeno passo, mas a informação tem que se integral e inteligível. “Esse é o problema, essa é a solução.” Simples assim.

IHU On-Line – A saúde das pessoas que comem carne está em perigo?

Sérgio Greif – Muitas pessoas acreditam que a experimentação em animais prejudica os animais, mas que isso beneficia as pessoas. A intenção desse livro é mostrar que, pelo contrário, a experimentação animal traz prejuízos tanto para animais quanto para seres humanos. Apenas se beneficiam os experimentadores e os lobbies que tem interesse na manutenção desse sistema.

IHU On-Line – Além de ser vegetariano, o senhor se mostra radicalmente contra o uso de animais em estudos e em sala de aula. Como foi finalizar sua graduação sem matar um animal?

Sérgio Greif – E quem disse que para a formação de um bom profissional em alguma área da Biologia é necessário matar animais? Isso é algo que foi colocado aí e que todos nós acabamos acreditando, mas de forma alguma isso é verdade.

Confira o depoimento de Sonia Montaño.

O meu depoimento sobre vegetarianismo é despretensioso, já que sou uma “neo-vegetariana”. Tomei a decisão de não me alimentar a partir dos animais aos 39 anos, isto é, dois meses atrás. Comecei a me perguntar sobre isso algum tempo antes, enquanto fazia uma reportagem sobre o tema e entrevistava, para a edição 191 da IHU On-Line (Sônia foi editora da Revista IHU On-Line de 2001 a 2006), com diversas pessoas militantes da causa. Com isso, enxerguei uma porta para pessoas que estão, de alguma forma, se perguntando sempre sobre como viver melhor, como serem mais coerentes com as suas preocupações sociais, mais comprometidas com a sustentabilidade do planeta e, é claro, como serem mais felizes.

Mas ainda estava longe de mudar meus hábitos, já que a correria, o estresse e a urgência por dar conta de um estilo de vida que parece ser obrigatório em nosso mundo ocidental atual me empurravam para aquela alimentação de muita carne, pouco verde, pouca variedade de cores, muito enlatado, e assim por diante. Mas isso tem um limite. Se não somos nós que o damos, o nosso organismo (assim como o planeta) começa a gritar e se comportar de um modo tão estranho que somos obrigados a buscar alternativas. Finalmente, com o que restava de mim desse estilo um tanto suicida de vida, me aproximei de uma espécie de centro vegetarianista, o Instituto Ecumênico Popular L`Amigo, que tinha conhecido através da reportagem.

Estive por dez dias lá. Dias de forte convívio com a natureza (exuberante natureza da Penha, Santa Catarina!) e com uma natureza viva e vivificadora que ingeríamos a cada dia através de alimentos biogênicos (os que geram a vida brotos, germes, grãos) e de uma grande variedade de frutas, verduras e hortaliças, artisticamente preparadas. Quando me perguntam, então, por que sou vegetariana, tenho diversas razões para responder, mas nenhuma delas é definitiva, só o conjunto delas se torna relevante para mim.

Tenho alguns familiares com câncer. Aliás, meu país, Uruguai, é um dos países com maior índice de consumo de carne. O bem-estar que dá comer alimentos vivos é muito grande. É bem diferente encerrar uma refeição “normal” (a base de carne e de mistura de alimentos que apresentam diversas reações negativas e a sensação de satisfação e leveza após um almoço vegan). Descobri que a cultura é muito mais responsável por nossa alimentação do que a natureza. Desde crianças, aprendemos que determinados alimentos são aqueles realmente “gostosos” e desejáveis. Já os “chamados outros” – verduras, hortaliças etc. – são aqueles que, bom… “devemos” comer para ter saúde.

Um outro elemento importante é a vida dos próprios animais e o que as indústrias do agronegócio estão fazendo com eles. Repito que não sou ortodoxa e sempre vai me afetar muito mais profundamente questões como a erradicação do trabalho escravo ou da miséria, por exemplo. Mas usar aquela artificialidade toda para que as galinhas não parem de “produzir”, convenhamos que também não poderia ser catalogado como um ato de extrema humanidade.

Hoje em dia, sou muito mais cuidadosa com o que deixo entrar no meu organismo, entre outras coisas. Isso nos faz mais sensíveis ao cuidado da vida como um todo e nos aumenta a liberdade no meio de um estilo de vida e de uma sociedade bastante programada.

(www.ecodebate.com.br) entrevista publicada pelo IHU On-line, 05/11/2007 [IHU On-line é publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]