No labirinto do canavial, por Lucília Maria Sousa Romão

Publicado em junho 6, 2007 por

Tags: etanol, trabalho

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[Gazeta de Ribeirão] Na semana passada, um trabalhador rural do Piauí morreu aqui na região após arrancar um dente, segundo autoridades, sob a alegação de infecção decorrente de desnutrição, “ele não agüentou”; tantos migrantes do Maranhão reuniram-se na pastoral de Guariba buscando maneiras de voltar para suas casas posto que, enganados com as promessas de fartura, também não agüentaram as condições de expropriação de sua força de trabalho no canavial. As mortes de trabalhadores rurais, em decorrência da sobrecarga física e do imperativo da produtividade de cortar em média 15 toneladas de cana/dia, também sinalizam que o corpo desses trabalhadores não agüentou, explodiu pressionado a funcionar na mesma lógica embrutecedora que nutre o capital e na mesma velocidade estonteante com que funcionam as máquinas. Fatos como esses convidam à reflexão, reclamando que os sentidos de pujança econômica, solidez, eficácia e relevância, postos em movimento pelo agronegócio, sejam questionados, deslocados da sua aparente transparência e questionados para além da literalidade.

Ou seja, falar sobre o trabalho dos bóias-frias e sobre a produção do açúcar e álcool exige entrar dentro do labirinto do canavial, colocar os pés nas ruelas inicialmente estreitas que vão se alargando com o corte braçal e ter a sensação de como os grandes muros verdes espremem aqueles que devem produzir durante horas o gesto repetitório de foiçar, cortar, bater com o facão, curvar-se e silenciar a dor física. Exige também significar um processo que não se encerra no açúcar branco e doce tal qual é comprado nos supermercados, pois segundo Octávio Ianni, “ao desenvolver-se no campo, a usina incute no verde dos canaviais uma vibração e uma aspereza que nada tem a ver com a doçura da cana-de-açucar”.

Curvos, homens e mulheres olham para o chão durante todo o dia de trabalho, perdem a dimensão exata de onde estão e para onde serão levados no dia seguinte, conversam pouco, param em dois momentos para comer o que podem levar em suas marmitas, usam o próprio canavial como banheiro, cama, mesa, cadeira e, repetidas vezes, como leito de morte. Nesse lugar, que não promove identidade do homem com o fruto do seu trabalho, que não o enraíza em um chão imaginariamente seu, que é medido somente pelo metro cortado, que faz repetir o sempre-igual anulando a possibilidade de qualquer criação e que tem a aceleração dos movimentos do corpo conjugada com a exploração, os bóias-frias sabem uma única coisa: que existem metas a cumprir. Metas de produtividade como está naturalizado no mundo dos negócios, metas medidas, esperadas, disciplinarizadas em número de toneladas cortadas, em quantidade de golpes de facão, de horas de trabalho e de ruas de cana devastadas. Metas que incluem a lógica matemática das quantificações e contabilizam estatísticas sobre o “número de cabeças” de migrantes e o desempenho deles, valorizando o que um superbóia-fria é capaz de fazer, ou seja, desferir mais de 17mil golpes de podão para cortar 18 toneladas por dia. Metas alimentadas pela lógica do grande capital, pela concentração da propriedade privada, pelo acúmulo de riquezas, pela distribuição desigual dos meios de/da produção. Metas que, por fim, apagam o quanto existe de sofrimento e expropriação no trabalho dos migrantes, o quanto há de equívoco na forma como são recrutados, o quanto existe de falta em sua voz silenciada, no seu corpo sabatinado pelo sol e frio, que só aparece como espetáculo quando morre no labirinto do canavial.

Lucília Maria Sousa Romão é prof. Dra. da Faculdade da USP de Ribeirão

(www.ecodebate.com.br) artigo originalmente publicado pela Gazeta de Ribeirão – 31/05/2007
enviado por Mayron Régis, colaborador e articulista do EcoDebate



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