Livro: Colapso: Sociedades escolhem a própria extinção

Publicado em setembro 10, 2005 por

Destruição ecológica determinou desaparecimento de civilizações

Marcelo Ambrosio

Colapso
Jared Diamond
Tradução de Alexandre Raposo
Record
686 páginas
R$ 66,90

A passagem do furacão Katrina gerou muita dor e pelo menos uma reflexão imediata: a fúria da natureza deriva da intervenção excessiva do homem sobre o ambiente. A ameaça de novos eventos do mesmo porte faz de Colapso, de Jared Diamond, um interessante manual sobre a extinção. Entendendo como desapareceram maias, vikings e os polinésios da Ilha de Páscoa, é possível compreender como a sociedade moderna repete erros do passado podendo prevê-los e com meios de evitá-los. O aquecimento global, a esterilização de solos e a carência de água são sinais disso.
Professor de geografia da Universidade da Califórnia, Diamond calça a extinção de sociedades em cinco razões. Quatro – mudanças climáticas, alterações no meio-ambiente, a pressão de uma vizinhança hostil e a dependência de parceiros comerciais amistosos – com importância variáveis para cada grupo. O quinto princípio, a resposta da sociedade aos seus problemas, é o mais significativo.

Pinçando um dos exemplos históricos, pode-se dizer que o desaparecimento dos polinésios de Páscoa (ilha a 3 mil km do Chile, colonizada a partir de 300 d.C. por navegadores dos Mares do Sul) em muito se associa à forma como exploraram os recursos que a ilha oferecia ao longo de séculos. Como a pesca era difícil, comiam golfinhos; quando estes sumiram, os trocaram por aves nativas. Extintas essas, também passaram a comer tubérculos resistentes ao clima inóspito (pelo corte de todas as árvores de uma rica floresta subtropical) e frangos (havia lá mais de 1.500 galinheiros, segundo arqueólogos).

Assim, a exaustão de um recurso era seguida da exploração pesada de outro, sobretudo porque havia intensa competição entre os 12 clãs da ilha pelo maior moai, efígies humanas esculpidas em pedra com valor político e ritualístico – principal atrativo turístico atual em Páscoa. Enfraquecida e isolada, a sociedade local acabou assimilada no século 18. Pelas quatro primeiras variáveis, vemos indivíduos apenas lutando pela sobrevivência. Em nenhum momento se viram dentro da quinta: a necessidade imediata de sobrevivência se sobrepujava a planejamentos de longo prazo.

Fatos como esse não são privilégio do passado, e é nisso que reside a segunda parte do texto, no qual Diamond aplica modelos sobre sociedades modernas. A justaposição é impressionante, apesar da tecnologia à disposição. Um determinado lugar nos Estados Unidos – o vale Bitterroot, em Montana – ou mesmo a gigante China funcionam como microcosmo e macrocosmo das mesmas decisões equivocadas que levaram ao desastre em Páscoa, ainda que os efeitos nocivos a longo prazo sejam gritantes.

Nos EUA, a estagnação econômica local, após anos de superexploração, conduz a uma inexorável decadência social. Ainda assim, propostas de mudanças são recebidas por cowboys armados, símbolos do conservadorismo local. É uma verdade que os maias, em outro exemplo, não vislumbraram ao estimular o desmatamento em encostas até que, empobrecido, o solo deslizasse sobre os vales na península de Yucatán, no México, dos quais extraíam sua sobrevivência.

Ao falar da China, percebe-se que o crescimento desordenado é calcado no ”comportamento racional”. O desejo de cada um de obter mais bem-estar para os seus suplanta objeções éticas quanto a prejuízos às gerações futuras. A potência asiática surge como a exacerbação das características nocivas derivadas do processo de globalização econômica, social e cultural. Muito da responsabilidade também recai sobre a ação dos grandes conglomerados.

A facilidade de comunicação permitiu que outros grupos, ameaçados pela ”racionalidade” chinesa, percebessem o quanto são ameaçados. São indicadores como a explosão no número de famílias nos últimos 15 anos. Formaram-se 80 milhões a mais, multiplicando a pressão por alimentos, água potável, saneamento, energia e trabalho. O país tem o pior problema mundial de intermitência de rios e perde 5 bilhões de toneladas de solo fértil por ano. Hoje, só 50% das terras de qualidade são próprias.

A ausência de percepção do processo decorreria da ”normalidade deslizante”, fator que impede indivíduos de desenvolverem uma consciência abrangente. Trocando em miúdos, significa que em um período de tempo dilatado, o agravamento de situações de crise fica obliterado por sutis alterações nos seus indicadores. A sucessão de pequenas variantes do que é normal, assim, poderia esconder uma irresistível corrida à decadência. A lembrança exerceria um papel importante: voltando a Páscoa, a proximidade da extinção não foi percebida porque os últimos ilhéus perderam a ”memória de paisagem”. Como nunca souberam o que era o ambiente antes de sua chegada, não tinham como notar que a chama de sua sociedade se apagava.

Publicado in Jornal do Brasil, 10/10/2005


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