agosto 21, 2005

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Sobra calor, falta cuidado, artigo de Washington Novaes

[O Estado de S.Paulo] A freqüência com que se têm noticiado desastres ou problemas climáticos sugere que se deva dar muito mais atenção a essa área. Na semana passada, houve a notícia sobre um novo ciclone em Santa Catarina. Um estudo do Worldwide Fund for Nature (WWF) mostrou que em 30 anos a temperatura média de 16 grandes cidades européias no verão subiu 1,5 grau Celsius, e chegou a 2 graus em Londres (o estudo afirma que se devem esperar na Europa mais chuvas torrenciais, secas intensas e verões muito quentes). Outro estudo, na Austrália, mostra que a pecuária e a indústria da carne ali tendem a se transferir do sul para o norte, por causa do calor, de secas e da redução da disponibilidade de água. Mais um estudo da revista New Scientist evidencia que, com o aumento da temperatura, se está derretendo uma área congelada de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados na Sibéria. Todas essas notícias vieram em seguida a semanas de dramas na Ásia, com milhões de desabrigados na China e na Índia por inundações e tufões, enquanto no Paquistão a temperatura chegava a 50 graus Celsius. Na Califórnia, passava de 40 graus, com a onda de calor de leste a oeste.

Além disso, o Massachusetts Institute of Technology (MIT) prevê que os furacões nos EUA tendem a aumentar sua força destrutiva, já que a velocidade dos ventos e a duração das tempestades cresceu 50% nas últimas décadas, por causa do aquecimento das águas dos oceanos. Agora, os órgãos do governo norte-americano que monitoram furacões, e que em março previam de 12 a 15 eventos desse tipo até novembro, aumentaram suas previsões para 21.

Os oceanos estão mais ácidos e isso pode ter graves impactos sobre a vida no mar, diz a mesma revista New Scientist. As geleiras das montanhas poderão desaparecer em algumas décadas, adverte o World Glacier Monitoring System. Os Alpes europeus já perderam 50% de sua neve. A plataforma glacial Larsen, na Antártida, perdeu 12,5 mil quilômetros quadrados de sua área.

Desde 1960, mais de 2 bilhões de pessoas sofreram com desastres naturais, segundo o Worldwatch Institute. Os prejuízos econômicos superam US$ 600 bilhões. E 96% dos desastres aconteceram nos países “em desenvolvimento”.
No Brasil mesmo, problemas climáticos respondem este ano por boa parte das perdas do agronegócio, que está faturando 14,6% menos que no passado. No Rio Grande do Sul, as perdas na safra de soja com a seca são superiores a 70%.

Os sinais de mudanças climáticas são “alarmantes”, disse a secretária-executiva da convenção dessa área, Joke Waller-Hunter, num evento recente. E exigem “urgência” na tomada de decisões. Porque os cenários podem ser ainda mais dramáticos que os enunciados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), de aumento da temperatura entre 1,4 e 5,8 graus neste século e elevação do nível do mar entre 9 e 88 centímetros. Se não houver redução das atuais emissões de gases que se concentram na atmosfera – e não está havendo -, a concentração de poluentes poderá crescer muito, já que se prevê um aumento da demanda de energia de 60% até 2030. Os países industrializados, no conjunto, reduziram suas emissões em 6,6% sobre os níveis de 1990, mas isso se deve a uma queda de 40% nas emissões das chamadas economias em transição (principalmente na antiga área socialista, onde a atividade econômica baixou muito). Ela compensou um aumento de emissões de 7% dos países mais industrializados.

Reunidos há poucas semanas, 2 mil demógrafos do mundo todo confirmaram que a população mundial deve crescer para 9 bilhões até meados do século – pressionando a demanda de energia. Hoje, cada norte-americano ou canadense emite 19,9 toneladas anuais de poluentes da atmosfera (e a população nesses países vai aumentar em 132 milhões de pessoas no período), enquanto um habitante da África Subsaariana emite 20 vezes menos.

Apesar do quadro muito preocupante, avança-se pouco. EUA e Austrália continuam fora do Protocolo de Kyoto e fazem acordo com Índia, Japão, China e Coréia do Sul, na busca de novas tecnologias para reduzir emissões – mas sem metas definidas. Os países “em desenvolvimento”, inclusive o Brasil, não aceitam compromissos para reduzir emissões – mesmo com o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas pedindo na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Fortaleza que o País assuma metas de redução do desmatamento, pois este, na Amazônia, responde por três quartos de mais de 1 bilhão de toneladas anuais de dióxido de carbono que o País já emitia em 1994. O Fórum Brasileiro das ONGs também pede isso, assim como investimentos em pesquisa sobre clima, discussões com a sociedade, um novo pacto para depois de 2012, quando termina o atual período do Protocolo de Kyoto.

Mas o tema não é prioritário na agenda nacional. Ainda que cientistas brasileiros, norte-americanos e australianos tenham dito, em reunião no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, que furacões como o de 2004 em Santa Catarina podem repetir-se, por causa de mudanças climáticas.

O Ministério do Meio Ambiente quer que os países industrializados cooperem com recursos financeiros e tecnologias para a implantação de redes capazes de prever eventos graves, monitorar as condições do tempo. Mas não se avança nessa direção, nem aqui nem em nenhum outro país “em desenvolvimento” – todos pedem a mesma coisa.

No fundo, no fundo, lógicas financeiras continuam a prevalecer. Poucos aceitam mover-se sozinhos. Esperam regras e autoridades globais – que continuam a enfrentar resistência acirrada dos atuais beneficiários das matrizes energéticas poluidoras.

Washington Novaes, in O Estado de S. Paulo 19/8/2005

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agosto 13, 2005

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Energia nuclear? A que custos? artigo de Washington Novaes

[O Estado de São Paulo] Ainda uma vez é preciso retornar ao tema, porque o governo federal continua devendo uma explicação à sociedade. Na mesma semana em que se relembravam os 60 anos das bombas nucleares de Hiroshima e Nagasaki – que mataram 220 mil pessoas e contaminaram centenas de milhares de outras -, duas notícias recolocaram em cena projetos brasileiros na área nuclear. Na televisão, o ex-presidente José Sarney revelou que havia um projeto militar de construir artefatos nucleares e que as escavações na Serra do Cachimbo tinham essa finalidade (em artigo nesta página, em 29 de julho do ano passado, o ex-ministro Shigeaki Ueki negou essa intenção). Já o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, declarou no Recife (Jornal do Commercio, 30/7) que o governo pretende implantar mais sete usinas nucleares no País, uma delas no Nordeste, porque “a capacidade de geração de energia no Rio São Francisco está esgotada”.

É estranho. Ainda há poucos meses, quando ocupava a pasta de Minas e Energia, a ministra Dilma Roussef deixou claro que a energia nuclear não era prioridade do governo, porque havia outras fontes “mais baratas e viáveis” e porque não se encontrara ainda destinação para o lixo nuclear gerado pelas usinas de Angra 1 e 2. A decisão, entretanto, ainda passaria pela Casa Civil da Presidência antes de chegar ao presidente da República, a quem caberia a palavra final. O então ministro José Dirceu era favorável à implantação de Angra 3 e achava “contra-senso” levantar “questões ambientais” quando já temos Angra 1 e 2.

Mas não são apenas “questões ambientais” (não resolvidas) que estão em jogo. Ainda recentemente, o especialista em energia Joaquim Francisco de Carvalho, que foi diretor industrial da Nuclen, lembrou (Folha de S.Paulo, 28/4) que a energia nuclear não deve ser prioritária num país como o Brasil, que só aproveitou 25% de seu potencial hidrelétrico e dispõe de fontes alternativas – além de poder reforçar seu sistema de transmissão. Também deveria considerar que os custos de energia nuclear são mais altos.

Entra-se aí em terreno ao qual fogem os defensores da solução nuclear. Em maio deste ano, um dos mais conceituados centros tecnológicos do mundo, o Massachusetts Institute of Technology, assegurou que a energia nuclear não é competitiva sem subsídios. À mesma conclusão chegaram estudos publicados pelos jornais The New York Times e The Financial Times. Outro estudo ainda, publicado pela National Geographic Brasil (agosto 2005) aponta na mesma direção. Diz este que, enquanto o custo da energia eólica por kw/hora está em torno de 6 centavos de dólar, o da energia nuclear é de 6,5 centavos (sem contar o custo da disposição do lixo nuclear, que nunca é contabilizado, segundo a New Scientist) e o do gás natural, 5,5 centavos.

Muitos outros questionamentos continuam sem resposta. Um deles é o risco cada vez mais alto de acidentes nas usinas, onde se acumula um acervo de reatores com média de 21 anos de uso, e onde cresce a insegurança com a terceirização (porque as empresas querem reduzir os custos – esse é um dos temores manifestados pela Comissão Regulatória Nacional, que supervisiona 103 reatores nos Estados Unidos). Também não há respostas para o risco de ataques terroristas, nem para a falta de solução no transporte do lixo radiativo até o eventual depósito final que se venha a encontrar.
Tão grave quanto, até hoje nem sequer se encontrou solução para o depósito final. O lixo nuclear vem sendo mantido quase todo nos locais onde é produzido (como em Angra 1 e 2). A grande esperança, o depósito sob a Yucca Mountain, na Serra Nevada, nos Estados Unidos, foi embargado há poucos meses pela Justiça, depois de o Departamento de Energia dos Estados Unidos haver aplicado ali dezenas de bilhões de dólares. A Justiça considerou insuficiente a garantia de proteção para as pessoas durante os 300 mil anos em que perdurarão as radiações e acolheu objeções de cientistas que demonstraram a possibilidade de disseminar-se a radiação pela infiltração de água nas rochas. Sem contar com os abalos sísmicos relativamente freqüentes nas proximidades. E os vulcões inativos a uns poucos quilômetros.

A Associação Nuclear Norte-Americana tem argumentado que o risco não é assim tão alto, porque só 1% do lixo tóxico industrial no mundo é nuclear. No Brasil, o presidente da Eletronuclear tem reiterado que, a seu ver, não faz sentido não concluir Angra 3, onde 70% do projeto já foi executado, ao custo de 600 milhões de euros (cerca de R$ 1,9 bilhão), e onde se gastam uns R$ 45 milhões por ano em manutenção. Seriam necessários agora mais R$ 5,4 bilhões.

É uma discussão que envolve muitos ângulos. Os defensores da energia nuclear insistem em que não haverá outra solução para impedir o aumento de 60%, nos próximos 25 anos, nas emissões de poluentes da atmosfera que agravam mudanças climáticas, com o crescimento do consumo de energia. Defensores das chamadas energias alternativas propõem mais investimentos na eólica, na solar, na energia de marés e na energia das biomassas. Os Estados Unidos apostam alto no hidrogênio, embora especialistas digam que para separá-lo se consumirá mais energia que a obtida.

No curto prazo, o governo federal deve uma discussão mais clara sobre a matriz energética nacional. Uma explicação à sociedade, em que as pesquisas mostram serem 80% das pessoas contrárias à alternativa nuclear. Precisa dizer o que fará com os resíduos radiativos. E ter uma demonstração cabal da competitividade desse formato de energia, comparado com os outros – mas incluindo todos os fatores.

In O Estado de S. Paulo 12/8/2005

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agosto 1, 2005

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Lições da Operação Curupira, por Henrique Cortez

Muitas questões expostas pela Operação Curupira ainda estão em aberto, e por isto, acho necessário que façamos algumas reflexões sobre as raízes deste lodaçal em que o IBAMA e a FEMA(MT) se atolaram.

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agosto 1, 2005

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O Saneamento Ambiental, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó)

admin

Está nas mãos do Congresso Nacional o mais ambicioso e completo plano de saneamento ambiental de toda história do Brasil. Elaborado pelo Ministério das Cidades na gestão de Olívio Dutra, com intensa participação popular, agora já é projeto de lei sob o número Pl 5296 / 2005 e visa instituir a Política Nacional do Saneamento. É um plano estratégico, prevê cerca de R$ 170 bilhões de investimentos ao longo de vinte anos e agora pode ser transformado em lei. Entretanto, com a queda do ministro, ameaçado por outro projeto apresentado por Jérson Camata, sob pressão de muitos interesses do grande capital, toda essa riqueza corre o risco de ser lançada ao lixo da história. Caso aconteça, será uma perda irreparável para a saúde pública e para o meio ambiente.

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agosto 1, 2005

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Questões técnicas da transposição: o presidente Lula não sabia, artigo de João Suassuna

Engrossando as fileiras de retirantes da seca, o presidente Lula, ainda muito jovem, dirigiu-se a São Paulo, onde se estabeleceu no ramo da metalurgia, que o obrigou a afastar-se definitivamente de seu torrão natal. Evidentemente, por abraçar esse novo desafio em sua vida, o presidente distanciou-se das questões ambientais do Nordeste seco, a ponto de não vislumbrar ou mesmo não ter idéia formada sobre as conseqüências delas advindas, quando das tomadas de decisões em projetos envolvendo assuntos relacionados ao ambiente natural da sua região. Isso ficou muito claro nas decisões tomadas no projeto de Integração da Bacia do rio São Francisco com as bacias do Nordeste Setentrional, mais conhecido hoje como Transposição do rio São Francisco.

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